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Dom Casmurro · Machado de Assis

Capítulo XL: Uma egua

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Ficando só, reflecti algum tempo, e tive uma fantasia. Já conheceis as minhas fantasias. Contei-vos a da visita imperial; disse-vos a desta casa do Engenho Novo, reproduzindo a de Matacavallos... A imaginação foi a companheira de toda a minha existencia, viva, rapida, inquieta, alguma vez timida e amiga de empacar, as mais dellas capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo. Creio haver lido em Tacito que as eguas iberas concebiam pelo vento; se não foi nelle, foi n'outro autor antigo, que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. Neste particular, a minha imaginação era uma grande egua ibera; a menor brisa lhe dava um potro, que saía logo cavallo de Alexandre; mas deixemos metaphoras atrevidas e improprias dos meus quinze annos. Digamos o caso simplesmente. A fantasia daquella hora foi confessar a minha mãe os meus amores para lhe dizer que não tinha vocação ecclesiastica. A conversa sobre vocação tornava-me agora toda inteira, e, ao passo que me assustava, abria-me uma porta de saida. «Sim, é isto, pensei; vou dizer a mamãe que não tenho vocação e confesso o nosso namoro; se ella duvidar, conto-lhe o que se passou outro dia, o penteado e o resto... »

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