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Esaú e Jacó · Machado de Assis

Capítulo XXVI: A luta dos retratos

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Quase que não é preciso dizer o destino dos retratos do rei e do convencional. Cada um dos pequenos pregou o seu à cabeceira da cama. Pouco durou esta situação, porque ambos faziam pirraças às pobres gravuras, que não tinham culpa de nada. Eram orelhas de burro, nomes feios, desenhos de animais, até que um dia Paulo rasgou a de Pedro, e Pedro a de Paulo. Naturalmente, vingaram-se a murro; a mãe ouviu rumor e subiu apressada. Conteve os filhos, mas já os achou arranhados e recolheu-se triste. Nunca mais acabaria aquela maldição de rivalidade? Fez esta pergunta calada, atirada à cama, a cara metida no travesseiro, que desta vez ficou seco, mas a alma chorou.

Natividade confiava na educação, mas a educação, por mais que ela a apurasse, apenas quebrava as arestas ao caráter dos pequenos, o essencial ficava; as paixões embrionárias trabalhavam por viver, crescer, romper, tais quais ela sentira os dois no próprio seio, durante a gestação… E recordava a crise de então, acabando por maldizer da cabocla do Castelo. Realmente, a cabocla devia ter calado; o mal calado não se muda, mas não se sabe. Agora, pode ser que isto de não calar confirme a opinião de que a cabocla era mandada por Deus para dizer a verdade aos homens. E afinal o que é que ela disse a Natividade? Não fez mais que uma pergunta misteriosa; a predição é que foi luminosa e clara… E outra vez as palavras do Castelo ressoaram aos ouvidos da mãe, e a imaginação fez o resto. Coisas futuras! Ei-los grandes e sublimes. Algumas brigas em pequenos, que importa? Natividade sorriu, ergueu-se, foi à porta, deu com o filho Pedro, que vinha explicar-se.

— Mamãe, Paulo é mau. Se mamãe ouvisse os horrores que ele solta pela boca fora, mamãe morria de medo. Custa-me muito não ir à cara dele; ainda lhe não tirei um olho…

— Meu filho, não fales assim, é teu irmão.

— Pois que não se meta comigo, não me aborreça. Que blasfêmias que ele dizia! Como eu rezava por alma de Luís xvi, ele, para machucar-me bem, rezava a Robespierre; compôs uma ladainha chamando santo ao outro e cantarolava baixinho para que papai nem mamãe ouvissem. Eu sempre lhe dei alguns cascudos…

— Aí está!

— Mas é que ele é que me dava primeiro, porque eu punha orelhas de burro em Robespierre… Então, eu havia de apanhar calado?

— Nem calado, nem falando.

— Então, como? Apanhar sempre, não é?

— Não, senhor; não quero pancadas; o melhor é que esqueçam tudo e se queiram bem. Você não vê como seus pais se querem? As brigas acabaram de todo. Não quero ouvir rusgas nem queixas. Afinal que têm vocês com um sujeito mau que morreu há tantos anos?

— É o que eu digo, mas ele não se emenda.

— Há de emendar-se; os estudos fazem esquecer criancices. Você também quando for médico tem muito que brigar com as moléstias e a morte; é melhor que andar dando pancada em seu irmão… Que é lá isso? Não quero arremessos, Pedro! Sossegue, ouça-me.

— Mamãe é sempre contra mim.

— Não sou contra nenhum, sou por ambos, ambos são meus filhos. E demais gêmeos. Anda cá, Pedro. Não penses que eu desaprovo as tuas opiniões políticas. Até gosto; são as minhas, são as nossas. Paulo há de tê-las também. Na idade dele aceita-se quanta tolice há, mas o tempo corrige. Olha, Pedro, a minha esperança é que vocês sejam grandes homens, mas com a condição de serem também grandes amigos.

— Eu estou pronto a ser grande homem, assentiu Pedro com ingenuidade, quase com resignação.

— E grande amigo também.

— Se ele for, serei.

— Grandes homens! exclamou Natividade, dando-lhe dois abraços, um para ele, outro para o irmão quando viesse.

Mas Paulo veio logo, e recebeu o abraço inteiro e de verdade. Vinha também queixar-se, e sempre resmungou alguma coisa, mas a mãe não quis ouvi-lo, e falou outra vez a linguagem das grandezas. Paulo consentiu também em ser grande.

— Você será médico, disse Natividade a Pedro, e você advogado. Quero ver quem faz as melhores curas, e ganha as piores demandas.

— Eu, disseram ambos a um tempo.

— Patetas! Cada um terá a sua carreira especial, a sua ciência diferente. Já estão curados do nariz? Já; não há mais sangue. Agora o primeiro que ferir seu irmão será degradado.

Foi um recurso hábil separá-los; um ficava no Rio, estudando medicina, outro ia para S. Paulo, estudar direito. O tempo faria o resto, não contando que cada um casava e iria com a mulher para o seu lado. Era a paz perpétua; mais tarde viria a perpétua amizade.

1 O verso, que pode ser traduzido como “Digo, que quando a alma malfadada…”, está no canto v do Inferno, primeiro livro da Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321).

2 Um dos marcos da origem da cidade do Rio de Janeiro, ocupado no século xvi por jesuítas, o morro foi destruído na reforma urbana realizada nas primeiras décadas do século xx.

3 A Pítia, também conhecida como pitonisa, era uma adivinha do oráculo de Delfos, famosa por suas profecias. Ela participa da tragédia Eumênides, na qual Orestes viaja a Atenas para ser julgado pela morte da mãe; o júri fica completamente dividido, e a deusa Atena decide pela absolvição do herói da trilogia composta pelo dramaturgo grego Ésquilo (c. 525-c. 456 a.C.).

4 A frase remete a um verso da estrofe 35 do canto v de Os lusíadas (1572), no qual um dos marinheiros diz a respeito de um outeiro: “É melhor de descer que de subir”.

5 O último rei da Lídia, que governou aproximadamente de 560 a 546 a.C., era conhecido por sua enorme riqueza e por ter feito grandes doações ao oráculo de Delfos.

6 A palavra francesa, mais tarde aportuguesada como cupê, designava carruagem fechada de tração animal, de duas portas e geralmente de dois lugares, com o cocheiro num banco à frente.

7 A frase, que pode ser traduzida por “Nem tal excesso de honra, nem tal indignidade”, vem de Britannicus (1669), do dramaturgo francês Jean Racine (1639-99).

8 Alusão à passagem bíblica, que está em Marcos (12,41-4), na qual Jesus observa uma multidão que deposita moedas num templo; ele diz aos discípulos que a quantia irrisória depositada por uma viúva era muito maior do que os tesouros depositados pelos homens ricos, pois enquanto os ricos depositavam o que lhes sobrava, a viúva doou tudo o que possuía. O mesmo episódio é narrado em Lucas (21,1-4).

9 A praia de Santa Luzia, muito frequentada no século xix, foi aterrada na década de 1940 para a construção do Aterro do Flamengo; localizava-se em frente à igreja de Santa Luzia, que existe até hoje no centro do Rio de Janeiro.

10 Igreja do século xviii, demolida para a construção da avenida Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro.

11 Referência ao boom econômico que se seguiu à reforma do Código Comercial, registrado durante o governo do marquês de Paraná.

12 Jogo com baralho de quarenta cartas, para três parceiros, em que cada um recebe nove cartas, restando treze na mesa para serem compradas.

13 O patriarca bíblico Abraão é pai de Isaac, concebido por Sara quando esta tinha noventa anos, conforme narrado no Gênesis (17-21).

14 A expressão idiomática “ou César ou João Fernandes” equivale a “ou tudo ou nada”. César refere-se ao imperador romano, e João Fernandes designa um indivíduo qualquer, um joão-ninguém.

15 Alusão a versos do poema “Ce siècle avait deux ans”, do poeta francês Victor Hugo (1802-85).

16 Referência à guerra que Brasil, Uruguai e Argentina, a Tríplice Aliança, fizeram contra o Paraguai de 1865 a 1870.

17 O provérbio francês pode ser traduzido por “Só se empresta aos ricos”, e a ideia é que só se presta serviço àqueles que estão em condições de recompensar.

18 Carruagem para dois passageiros, com quatro rodas, cobertura dobrável e boleia.

19 Hoje mais conhecida como Lei do Ventre Livre, foi aprovada em setembro de 1871 quando o visconde do Rio Branco era chefe do gabinete dos ministros; a lei previa que os filhos de escravos nascidos a partir daquela data ganhariam a liberdade aos 21 anos.

20 Atual Palácio do Catete, construído entre 1858 e 1867 pelo comerciante e fazendeiro de café Antônio Clemente Pinto, barão de Nova Friburgo, tornou-se símbolo do poder econômico no Brasil oitocentista. Foi adquirido pelo governo republicano, tornando-se sede da Presidência da República até 1960, quando a capital foi transferida para Brasília.

21 Referência ao Caminho Velho de Botafogo, atual rua Senador Vergueiro, e ao Caminho Novo de Botafogo, atual Marquês de Abrantes, ambas no Flamengo.

22 Posto da diplomacia brasileira.

23 Provavelmente uma das cantoras e dançarinas que marcaram época no Rio de Janeiro de meados do século xix, entre as quais as mais famosas eram a Charton, a Lagrua e a Candiani.

24 No caso dos personagens bíblicos Esaú e Jacó, a causa do conflito é o direito à primogenitura, que mais tarde Esaú vendeu ao irmão por um prato de lentilhas, conforme narrado no Gênesis (25, 19-34).

25 A frase “A guerra é mãe e rainha de todas as coisas” é atribuída ao filósofo grego Heráclito (540-480 a.C.), e não a Empédocles (490-430 a.C.), um lapso de Machado de Assis ou do narrador do romance.

26 Verso fúnebre de origem antiga que significa “Segundo as predições de Davi e da Sibila”, referência ao rei de Israel e às adivinhas da Antiguidade.

27 A divergência entre os apóstolos Pedro e Paulo, fundadores da Igreja Católica, se referia à necessidade de um pagão tornar-se primeiro judeu para depois se tornar cristão. Pedro defendia que sim; Paulo, que não. Uma reunião em Jerusalém, no ano 51, que ficou conhecida como Concílio de Jerusalém, decidiu que uma pessoa poderia abraçar o Evangelho a despeito de suas raízes culturais.

28 A passagem referida diz, textualmente, o seguinte: “E, chegando Pedro a Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível”. Refere-se ao fato de Paulo levantar-se contra a atitude de Pedro de apenas aceitar no cristianismo os pagãos que já tivessem se convertido ao judaísmo.

29 O Evangelho segundo São João começa com o seguinte versículo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus”.

30 Coleção de cem histórias, compostas por Giovanni Boccaccio (1313-75) provavelmente entre 1349 e 1353; as histórias são narradas ao longo de dez dias (o título, em grego, se refere a esse período de tempo) por sete moças e três rapazes em fuga de Florença, assolada por uma praga.

31 No canto v de Os lusíadas, de Camões, Adamastor é a personificação do cabo das Tormentas, hoje cabo da Boa Esperança, no extremo sul do continente africano, que se apaixona por Tétis, ninfa do oceano.

32 D. Pedro i abdicou do trono em 7 de abril de 1831, em favor de seu filho, d. Pedro ii, depois de uma sucessão de enfrentamentos entre brasileiros e portugueses no Rio de Janeiro.

33 O Imperial Colégio D. Pedro ii foi fundado em 1837 com o propósito de formar quadros políticos e administrativos para o país. Conhecido como Pedro ii, o colégio permanece em atividade no Rio de Janeiro.

34 O ditado popular diz: “Paga o que deves, vê quanto te fica”.

35 A expressão italiana pode ser traduzida por “Pois bem”.

36 As cebolas do Egito são uma imagem das saudades e da privação. Referem-se à falta que os hebreus, em busca da terra prometida, sentiam delas enquanto atravessavam o deserto, conforme está narrado em Números (11,4-5): “A multidão que estava com eles ficou faminta. Então os filhos de Israel começaram a reclamar juntamente com eles, dizendo: ‘Quem nos dará carne para comer? Temos saudade dos peixes que comíamos de graça no Egito, dos pepinos, melões, alhos-porros, cebolas e alhos!’”.

37 Maximilien de Robespierre (1758-94) foi líder dos jacobinos e uma das principais figuras da Revolução Francesa, tendo participado ativamente do regime do Terror; foi deposto e executado em 1794. Luís xvi (1754-93), da dinastia dos Bourbon, foi rei da França, tendo governado de 1774 a 1792, quando a monarquia foi abolida; foi guilhotinado junto com a esposa, Maria Antonieta, em 1793.

38 Anne Louise Germaine de Staël (1766-1817) foi uma das mulheres mais influentes na Europa na passagem do século xviii para o xix. Organizou salões frequentados pelos grandes intelectuais do seu tempo e introduziu na França as novas ideias românticas trazidas da Alemanha, onde viveu no exílio depois de ser expulsa por Napoleão. Corina é a personagem do romance homônimo, de 1807, que contrasta as mentalidades do norte e do sul da Europa. Há um famoso retrato dela de turbante, feito pelo pintor francês François Gérard.

39 Rei de Portugal de 1828 a 1834, d. Miguel de Bragança (1802-66) era o terceiro filho de d. João vi e d. Carlota Joaquina; era irmão de d. Pedro i, com quem travou disputa pelo trono quando este retornou a Portugal depois de abdicar ao trono brasileiro, em 1831. Morreu em Viena, Áustria.

40 Termo pejorativo com que os absolutistas portugueses, partidários de d. Miguel, designavam os constitucionais durante as lutas liberais na década de 1830; o epíteto se deve ao fato de os liberais adotarem bandeira bicolor e vestirem calças xadrez.

41 Partidário de d. Miguel.

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