Bem-vindo de volta

Entre com o seu email

Ao continuar você concorda com nossos Termos e Condições e Política de Privacidade

Esqueceu a senha? Resetar
Não tem conta? Criar conta

Criar conta

Crie sua conta para salvar seu progresso

Ao continuar você concorda com nossos Termos e Condições e Política de Privacidade

Esaú e Jacó · Machado de Assis

Capítulo LXIX: Ao piano

69 de 121

Enquanto eles sonhavam com Flora, esta não sonhou com a república. Teve uma daquelas noites em que a imaginação dorme também, sem olhos nem ouvidos, ou, quando muito, a retina não deixa ver claro, e as orelhas confundem o som de um rio com o latir de um cão remoto. Não posso dar melhor definição, nem ela é precisa; cada um de nós terá tido dessas noites mudas e apagadas.

Não sonhou sequer com música; e, aliás tocara antes algumas das suas páginas queridas. Não as tocou somente por gostar delas, senão por fugir à consternação dos pais, que era grande. Nenhum destes podia crer que as instituições tivessem caído, outras nascido, tudo mudado. D. Cláudia ainda apelava para o dia seguinte e perguntava ao marido se vira bem, e o que é que vira; ele mordia os beiços, batia na perna, erguia-se, dava alguns passos, e tornava a narrar os acontecimentos, as notícias coladas às portas dos jornais, a prisão dos ministros, a situação, tudo extinto, extinto, extinto…

Flora não era avessa à piedade, nem à esperança, como sabeis; mas não ia com a agitação dos pais, e meteu-se com o seu piano e as suas músicas. Escolheu não sei que sonata. Tanto bastou para lhe tirar o presente. A música tinha para ela a vantagem de não ser presente, passado ou futuro; era uma coisa fora do tempo e do espaço, uma idealidade pura. Quando parava, sucedia-lhe ouvir alguma frase solta do pai ou da mãe: “… Mas como foi que…?” — “Tudo às escondidas…” — “Há sangue?” Às vezes um deles fazia algum gesto, e ela não via o gesto. O pai, com a alma trôpega, falava muito e incoerente. A mãe trazia outro vigor. Já lhe sucedia calar por instantes, como se pensasse, ao contrário do marido que, em se calando, coçava a cabeça, apertava as mãos ou suspirava, quando não ameaçava o teto com o punho.

— Lá, lá, dó, ré, sol, ré, ré, lá, ia dizendo o piano da filha, por essas ou por outras notas, mas eram notas que vibravam para fugir aos homens e suas dissensões.

Também se pode achar na sonata de Flora uma espécie de acordo com a hora presente. Não havia governo definitivo. A alma da moça ia com esse primeiro albor do dia, ou com esse derradeiro crepúsculo da tarde — como queiras — em que nada é tão claro ou tão escuro que convide a deixar a cama ou acender velas. Quando muito, ia haver um governo provisório. Flora não entendia de formas nem de nomes. A sonata trazia a sensação da falta absoluta de governo, a anarquia da inocência primitiva naquele recanto do Paraíso que o homem perdeu por desobediente, e um dia ganhará, quando a perfeição trouxer a ordem eterna e única. Não haverá então progresso nem regresso, mas estabilidade. O seio de Abraão84 agasalhará todas as coisas e pessoas, e a vida será um céu aberto. Era o que as teclas lhe diziam sem palavras, ré, ré, lá, sol, lá, lá, dó…

42 Alusão ao verso “Que de tal pai tal filho se esperava”, do canto iii de Os lusíadas, no qual Camões se refere a d. Henrique (1057-1114) e ao seu filho, o príncipe Afonso Henriques (c. 1109-85), que lutou contra a mãe para ascender ao trono e tornar-se o primeiro monarca de Portugal, depois de derrotar os mouros.

43 Trata-se de modificação do epitáfio “Cuñados en paz y juntos! No hay duda que están defuntos”, que compõe a obra El cementerio de momo, do poeta d. Francisco Martinez de la Rosa (1787-1862). Os versos podem ser traduzidos por “Cunhados em paz e juntos! Não há dúvida de que são defuntos”.

44 Referência ao governo, por meio da indicação do lugar onde estava o Palácio Imperial.

45 O ministério conservador do visconde do Rio Branco se estendeu de março de 1871 a junho de 1875; e o do visconde de Sinimbu, liberal, durou de janeiro de 1878 a março de 1880.

46 O salmo referido provavelmente é o de número 55, no qual se lê: “Sim, eu fugiria para longe e pernoitaria no deserto”.

47 Herói lendário da Grécia antiga, cujos extraordinários dotes musicais enfeitiçavam todos os objetos animados e inanimados a sua volta.

48 A Ilíada, de Homero, um dos livros mais antigos que conhecemos, trata da Guerra de Troia e começa com a discórdia entre deuses e homens.

49 Na mitologia clássica, a Discórdia é uma entidade maléfica, que lançou o seu pomo na celebração das bodas de Tétis e Peleu, para as quais não havia sido convidada; daí a expressão “pomo da discórdia”.

50 A chamada Sereníssima República de Veneza foi um Estado no nordeste da Itália, com capital na cidade de Veneza, que existiu por mais de mil anos, até 1797; governada por um magistrado, o doge, dos séculos xiv a xvii contou com um conselho de dez pessoas cujos poderes se tornaram praticamente absolutos.

51 A Abolição foi assinada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888.

52 A frase pode ser alusão a outra frase de Rui Barbosa, feita em discurso na Bahia em 6 de julho de 1881, por ocasião das comemorações dos dez anos de morte de Castro Alves: “A escravidão do negro é a mutilação da liberdade do branco”.

53 Licença, no jogo de voltarete, é o pedido de permissão para jogar quando se sente que as cartas são boas o suficiente para ganhar uma mão.

54 As revoltas liberais da década de 1840, registradas em algumas províncias do país, foram marcadas pelo repúdio à monarquia, em favor da república e de reformas políticas radicais; a última delas, em 1848, se deu em Pernambuco e ficou conhecida como Revolução Praieira.

55 Referência à princesa Isabel (1846-1921), filha de d. Pedro ii, que substituiu o imperador nos períodos em que ele se ausentou do país.

56 A passagem está no Antigo Testamento, em Amós (4,1).

57 Esse trecho do Evangelho narra as tentações a que Cristo foi exposto pelo demônio no deserto.

58 Afonso Celso de Assis Figueiredo (1836-1912), o visconde de Ouro Preto, ocupou diversos cargos durante o Segundo Reinado e era presidente do conselho de ministros quando a república foi proclamada, em 1889.

59 Referência ao episódio famoso em que o oficial romano Júlio César transgrediu a lei e atravessou o rio Rubicão, em 49 a.C., disposto a tomar o poder em Roma.

60 Saquarema era o apelido dado aos membros do Partido Conservador durante o Império; luzias era a designação dada aos liberais no mesmo período.

61 Antônio Francisco de Paula Holanda Cavalcanti de Albuquerque (1797-1863) foi um político do Partido Liberal que ocupou vários ministérios no Primeiro Reinado, na Regência e no Segundo Reinado.

62 Esses três políticos deixaram o Partido Conservador na década de 1860 para aderir ao Partido Liberal.

63 Uma das nove musas da mitologia grega, patrona da poesia lírica e da dança.

64 Esse baile, realizado em 9 de novembro de 1889 na ilha Fiscal, no centro do Rio de Janeiro, foi a última grande festa da monarquia.

65 Irineu Evangelista de Sousa (1813-89), barão e depois visconde de Mauá, foi dos grandes empreendedores brasileiros do século xix, tendo sido pioneiro na construção de estradas de ferro no país.

66 O hipotético Terceiro Reinado, que nunca existiu, seria comandado pela princesa Isabel e seu marido, o conde d’Eu.

67 Na peça de Shakespeare, as feiticeiras saúdam Macbeth prevendo que ele será rei.

68 Esse escritor grego do Império Romano escreveu mais de duzentas obras, dentre as quais se destacam as biografias de homens célebres; sua obra mais famosa é Vidas paralelas, que conta a vida de líderes políticos e militares da Antiguidade.

69 Referência às antigas festas em que a população enfeitava as casas com luminárias.

70 São Sebastião é o padroeiro do Rio de Janeiro, homenageado no dia 20 de janeiro, data de aniversário da cidade.

71 Evaristo da Veiga (1799-1837) foi dos mais conhecidos jornalistas do período do Primeiro Reinado e da Regência, fundador do jornal Aurora Fluminense e autor da letra do Hino da Independência.

72 Paródia do famoso Sermão da Montanha, que está em Mateus (5,1-12).

73 Antigo nome de Niterói.

74 Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), que ficou conhecido como marquês de Pombal, foi o homem forte do governo português entre 1750 e 1777.

75 Pierre-Joseph Proudhon (1809-65), libertário francês que ficou célebre pelo combate à noção de propriedade privada, pronunciou-se várias vezes contra a emancipação das mulheres.

76 Referência à história do asno que morre de fome e sede por não se decidir entre beber a água ou comer a aveia que estão à sua frente; essa ilustração de um dilema levado ao absurdo é atribuída ao pensador francês Jean Buridan, que viveu no século xiv.

77 Referência ao marechal Deodoro da Fonseca (1827-92), que liderou o golpe republicano em 1889, tornando-se o primeiro presidente do país.

78 O historiador e filósofo grego Xenofonte (c. 430- c. 350 a.C.) é o autor da Ciropédia, em cujo prólogo trata da dificuldade dos homens de governar uns aos outros, para em seguida lembrar o exemplo de Ciro ii, também conhecido como Ciro, o Grande (590-80- c. 529 a.C.), da Pérsia, que governou um vasto império e foi muito amado por seu povo.

79 O Almanak Administrativo, Mercantil, e Industrial da Corte e da Capital do Rio de Janeiro foi editado pelos irmãos Eduardo e Henrique Laemmert entre 1844 e 1889 e trazia, entre outras informações, anúncios dos principais estabelecimentos comerciais do Rio de Janeiro.

80 Henrique Pedro Carlos de Beaurepaire-Rohan (1812-94) foi um nobre, militar e político brasileiro filiado ao Partido Liberal.

81 Referência aos membros da recém-deposta família real, à qual pertenciam d. Pedro ii e a princesa Isabel.

82 No jogo do voltarete, o basto e a espadilha correspondem, respectivamente, ao ás de paus e ao ás de espadas, ambas cartas muito valiosas.

83 Os primeiros versos da Marselhesa podem ser traduzidos por “Avante, filhos da pátria, o dia de glória chegou!”. O hino nacional francês foi composto na noite de 24 de abril de 1792, durante a Revolução Francesa, por Claude-Joseph Rouget de Lisle. O trecho do mesmo hino, citado adiante, pode ser traduzido por “Ouvis nos vossos campos”.

84 Referência à parábola bíblica que está em Lucas (16,22), na qual um pobre morre e é levado pelos anjos ao seio de Abraão.

Prefere ler com marcador de progresso ou baixar o livro?