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Memórias de Marta · Júlia Lopes de Almeida
Capítulo I
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Tenho uma idéia vaga da casa em que nasci e onde morei até aos cinco annos. Um ou outro canto ficou desenhado em meu espirito; quasi tudo, porém, se perde num esboço confuso.
Assim as scenas. Entre tantas cousas, tantos typos e tantas palavras que só reflectiram nas minhas pupilas de criança, ou que vibraram em meus ouvidos, que ficou?
Bem pouco!
Lembro-me, por exemplo, de um angulo de quintal, onde havia um banco tosco e um tanquesinho redondo que servia de bebedoiro ás gallinhas. Era alli que eu lavava as roupas das bonecas. Lembro-me também do papel da salinha de jantar, cheio de chins e de kiosques; de um vão de janella, onde se armava o presépio, pelo Natal.
Os quartos, os moveis, os criados, de tudo isso me recordo ás vezes, mas numa fugacidade tal, que não me fica a sensação da saudade, mas a da duvida.
Das scenas lembra-me a da mudança: um homem zangado mandando pôr os nossos trastes na rua, e minha mãe chorosa aconchegando-me a si… uma vez em que entrei numa alcova onde estava um homem morto, muito magro, livido, estirado sobre a cama, com um habito escuro de cordões brancos, as mãos entrelaçadas e o queixo amarrado com um lenço. Era meu pae. Tive medo; minha mãe obrigou-me a beijal-o. O frio e o cheiro do cadáver deram-me náuseas; quiz sahir, ella prendeu-me nos seus braços nervosos, suppuz então que me quizesse fechar com o defuncto no mesmo caixão que alli estava já escancarado, e fugi em um arranco para o quintal.
Nunca a luz me pareceu tão forte nem o ar livre tão bom.
Com as costas unidas ao muro, os olhos seccos de espanto, suffocando as palpitações do meu coração, como se a bulha delle bastasse para chamar sobre mim a attenção da gente de casa, fiquei muda, sentindo por todo o corpo a frialdade daquelle cadáver, com a sensação de que me iriam buscar para me embrulharem na sua roupa de espectro, larga, escura, cortada pelos traços longos dos dois cordões brancos.
Na morte, não era o pavor da cova negra o que me assustava mais, era a presença do Pae do Ceu, de que me fallavam a todo o instante, como uma punição para as minhas travessuras e um prêmio para virtudes que eu não conhecia e me pareciam de assombro!
Effectivamente, que ouvia eu desde manhã até á noite?
“Menina, não faça assim que Deus castiga.”
Por isso eu tremia toda, pensando que me queriam levar com meu pae para a presença desse Deus tremendo, inflexivel, tão alto que se não pudesse curvar até ás minhas faces lacrimosas, para um beijo de perdão ou de piedade.
Já o corpo do finado ia nos solavancos, do carro rua fora, quando minha mãe foi buscar-me; vendo-a, gritei com força que me deixasse, que me deixasse! e debati-me entre os seus braços frágeis. Ella convenceu-me a custo de que me queria na vida para a consolação dos seus dias negros.
Entrei em casa desconfiada.
Da morte de meu pae, eis a medonha sensação que me ficou.
Amei-o? Talvez; mas não me lembro. A convivência era pouca ou nenhuma.
Elle passava a vida em viagens de trabalho, agenciando negócios; eu agarrada ás saias de minha mãe e de uma velha mulata religiosíssima, e que toda se desmanchava em contar-me historias de santos, milagres, tormentas, mysterios, obras divinas e enormes peccados que me faziam tremer!
Não posso acompanhar o movimento de transição da nossa vida, desse tempo para o outro, em que habitamos um cortiço de São Christovão.
Ahi já minha mãe não tinha criados, nem mesmo a velhinha que nos acompanhava outr’ora, e que partiu não sei para onde, nem com quem. Lembro-me de que vivíamos nós duas sós; minha mãe engommando para fora, desde manhã até á noite, sem resignação, arrancando suspiros do peito magro, mostrando continuamente as queimaduras das mãos e a aspereza da pelle dos braços estragada pelo sabão.
Cresci vagarosamente, como se me não bastasse para o desenvolvimento o espaço estreito d’aquella alcova, em que, de verão e de inverno, minha mãe trabalhava, vestida com o pobre traje de viuva, já velho e russo, mal arranjado em seu corpo de tisica, muito delgado.
Eu, ás vezes, ia brincar para a porta com umas crianças da vizinhança: mas as pequenas eram brutinhas e magoavam-me os pulsos, puxando com força por mim. Eu cahia, chorava alto, minha mãe corria a soccorrer-me e levava-me ao collo para dentro. Sentia-lhe a respiração offegante, as mãos muito quentes e os beiços seccos, queimados, que ella unia ás minhas faces em beijos longos e sentidos.
— Vês? dizia-me ella, com voz enfraquecida e rouca, arranhaste os joelhos. Deixa-me ver as mãosinhas… estão esfoladas também! E molhava-m’as cuidadosamente, como se eu tivesse doença de perigo ou dolorosa, com todo o mimo e desvelo.
Voltava depois ao trabalho; arregaçava as mangas e dava-me uma bruxa de panno e uns retalhos, para que eu me entretivesse a fazer-lhe vestidos. Vendo-me socegada, punha-se a passar e repassar o ferro, muito pesado, ao longo da tábua, assente de um lado no peitoril da janella e do outro nas costas de uma cadeira forte e rústica.
Eu alinhavava uns corpos, uns aventaes impossíveis, e acabava por adormecer. Quando abria os olhos via-me cercada de cousas que não vira pouco antes a meu lado: uma manta a cobrir-me os joelhos, a cabeça sobre o travesseiro, e, para que me não importunassem as moscas, um quadrado de escossia transparente a tapar-me o rosto.
Os dias succediam-se sem que se notasse a menor alteração em nossa vida.
Levantava-me tarde. Minha mãe deixava-me agazalhada no leito e ia trabalhar silenciosamente.
Nosso almoço era café e pão: café sem leite, muito fraco. O meu quinhão era sempre o maior. Findo o almoço, ia eu, como na véspera, para a porta, attrahida pelos gritos alegres das crianças e d’alli voltava chorosa, opprimida pela superioridade das outras, muito mais fortes do que eu.
Chamavam-me lesma! molle! palerma! e riam-se das minhas quedas, da minha magreza e da minha timidez. Eu em começo extranhava aquella moradia, com tanta gente, tanto barulho, num corredor tão comprido e infecto onde o ar entrava contrafeito, e a agua das barrellas se empoçava entre as pedras deseguaes da calçada.
Minha mãe não permittia que eu me desembaraçasse como as outras; tinha sempre os olhos em mim, eu sentia-os ás vezes como brasas, a queimarem-me a pelle.
Se eu me desviava um pouco ella gritava logo:
— Martha, vem cá!
E eu voltava submissa.
No tempo das chuvas, a reclusão que me era imposta dava ainda um tom mais lugubre á minha solitária infância.
Fui sempre medrosa e dócil.
Minha mãe levava-me poucas vezes comsigo, quando saía a entregar a roupa á casa dos freguezes; deixava-me quasi sempre com uma vizinha, uma ilhôa bruta, que batia nos filhos e injuriava o marido.
Uma occasião, assisti a uma scena que não me sairá nunca da memória.
A Carolina, filha mais velha da ilhôa, era compassiva e bondosa. Ha flores nos pântanos, e reflectem-se muitas vezes na lama os raios das estrellas. Eu gostava d’ella, que era como que uma aza a proteger-me das maldades dos irmãos mais novos. Nesse dia ella notou que eu tinha fome: é que já haviam passado quatro horas sobre o meu pobre almoço de café fraco e pão secco. Eu tinha apenas sete annos e nessa edade o appetite não dorme; pois bem, a Carolina, condoída, deu-me um boccado de carne com farinha, dizendo-me ao mesmo tempo umas cousas consoladoras e meigas. Eu devorava verdadeiramente aquelle acepipe raro quando a ilhôa chegou.
Vendo-me, perguntou admirada:
— Quem te deu isso?
Eu tinha a bocca cheia e não pude responder logo.
A Carolina disse sem titubear, com toda a sua costumada serenidade, que tinha sido ella.
A mãe enfureceu-se e fechando apertadamente as mãos, deu-lhe, com toda a rijeza de seus pulsos de ferro, uma meia dúzia de soccos que a deitaram por terra.
A Carolina affirmava que o quinhão que me dera era o seu, só o seu, que ella não tinha vontade de jantar.
— Não me importa, continuava a enraivecida mulher, bato-te para que saibas que não se mexe na comida sem minha licença!
Desatei a chorar, e foi assim que minha mãe me encontrou.
Chegando a casa contei-lhe tudo; ella fez-se pallida, teve um ataque de tosse prolongado e violento; depois, ainda anhelante de cansaço, procurou aquietar-me, promettendo que não me deixaria mais, e iria entregar a roupa aos freguezes em minha companhia.
Assim foi. Na primeira semana saí também.
O dia estava quente e luminoso. Eu sentia o calor das pedras da calçada e das paredes das casas onde ia roçando as mãos.
Em mais de meio do caminho, minha mãe parou de repente, ao ver uma senhora muito elegante que se approximava e puxou-me para dentro de um corredor, dizendo, quasi que machinalmente: — Deixal-a passar, não quero que me veja assim!....
Alli estivemos alguns minutos, até que tornámos a sahir para a rua. A tal senhora sumira-se em uma esquina.
— Quem é?! perguntei eu, attonita; quem é aquella senhora tão bonita?!
— Era uma amiga minha, respondeu, apertando-me brandamente a mão, a minha pobre mãe.
— Mas então porque não lhe fallou?
Minha mãe sorriu, desceu para mim seu olhar doce e humido, e suspirou sem me dizer mais nada.
A resposta tive-a annos depois, do tempo, da edade, do destino e dos desenganos.
Porque não reconheceria uma senhora rica, elegante, feliz, como uma amiga antiga, a uma mulher decaída, andrajosa quasi, e miserável?
Havia entre as duas uma barreira que a minha pequena altura não me permittia dominar. Fui pensando nisso até á casa da fregueza.
Entrámos para uma sala de jantar quadrada, com janellas e portas para um terraço de mosaico branco e preto, em xadrez.
A dona da casa cortava uns moldes sobre a mesa, coberta de oleado escuro com ramagens cinzentas e vermelhas. Em um canto, a filha mais velha cosia á machina um vestido de linho côr de rosa clara, guarnecido de rendas. No vão de uma janella, ao lado da moringueira envernizada, uma menina da minha edade vestia, em uma boneca de cara de louça e corpo de pellica, um traje de velludo bronzeado, prendendo-lhe nos cabellos muito louros um laço da mesma côr.
Vendo-me, sentou-se em um banco baixo e poz-se a tirar de um cofre fatos de seda, de setim e de cachemira para a sua querida boneca.
Chamou-me, fez-me sentar a seu lado, mais por vaidade que por outra cousa, e desenrolou á minha vista o grande enxoval de Mlle. Rosa.
Ria-se muito das minhas exclamações e movia mademoiselle em uns tregeitos graciosos, dizendo palavras amáveis e pretenciosas.
Depois, enfastiada de brincar, fallou-me da mestra, das amigas, de uma festa de Natal a que assistira, de caixas de amêndoas forradas de seda, de bombons, de jóias, de passeios.
Levou-me á sala, mostrou-me o álbum, os quadros, as jardineiras; sentou-se ao piano e tocou uma licção do methodo, tendo o cuidado de virar para cima a pedra do annel que, por largo, descahia. Conduziu-me depois para defronte do espelho, um grande espelho, que vinha do tecto ao chão, tomando uma parede toda.
Como me achei triste e feia ao lado d’aquella menina da minha edade!
Ella, muito alva, corada, olhos rasgados e brilhantes de alegria e de orgulho, o vestido claro, curto, bibe branco bordado, meias pretas esticadas por cima dos joelhos. Eu, pallida, o cabello muito liso, feito em uma trança apertada, as pernas magras, as meias de algodão engilhadas, o vestido de lã côr de havana, muito comprido e esgarçado, os sapatos de duraque rotos!
Ella comprehendeu-me e demorou-se maldosamente a confrontar-me com altivez. Eu sentia-me humilhada e com vontade de chorar...
Em casa da ilhôa ou em casa da fregueza, cahia sobre mim, com todo o peso, o horror da minha incomprehendida situação.
Voltámos para dentro; o rol estava conferido, chamavam por nós.
— Lucinda, disse então a dona da casa, para a filha mais nova, vae buscar teu vestido encarnado para o dares a esta menina.... E’ novo ainda, continuava ella, voltando-se para minha mãe, mas não vae bem á Lucindinha e o pae não gosta da côr....
Veiu o vestido. Enfiaram-m’o mesmo por cima do outro, para m’o experimentarem.
— Parece um macaquinho! exclamava Lucinda desferindo umas risadinhas agudas, a olhar para mim.
Eu corava e tinha ímpetos de o arrancar do corpo. Viravam-me de costas... de frente de lado... faziam-me levantar os braços, abaixal-os e dobral-os. Prestei-me como um autômato, indignada sem saber porque; revoltada, mas submissa e tremula.
Quando minha mãe agradeceu a esmola, senti parar-me o coração.
Porque não teria eu egual direito a possuir tudo, como a Lucinda, sem pedir ou acceitar esmolas?
E porque me fazia tão mal essa palavra, a mim, que nada conhecia do mundo?
Não bastariam as humilhações da véspera, em casa da Carolina, e a desse dia em frente ao espelho para m’a fazer comprehendida de sobejo?
Quando eu ia a sahir, a irmã mais velha de Lucinda apagou-me com um beijo a tristeza que eu sentia na consciência.
Aquelle beijo nunca mais me esquece: foi nivelador, foi santo!
As crianças pensam; e as impressões que sentem são as mais duráveis e profundas muitas vezes. Tenho passado por grandes tempestades e nenhuma me deixou mais vestígios do que a que abalou minha meninice, não sendo todavia essa a maior!
Tornei a ir na seguinte semana á casa da fregueza. A Lucinda não estava, fora para o collegio. A mãe tinha separado umas roupas, já curtas e apertadas para a filha, e deu-m’as. D’essa vez custou-me menos a receber da caridade. O primeiro passo é sempre o mais difficil em uma vereda desconhecida. Habitua-se a gente a tudo até ao perigo, até á humilhação!
Perguntaram-me se eu já sabia ler. Minha mãe respondeu que não.
— Mas porque a não mette na escola?! Ella já tem edade de aprender...
— É que eu não podia mandar minha filha tão pobresinha para a escola... agora que tem esta roupa sim, posso trazel-a asseiadinha e leval-a lá.
— Faz bem, faz bem, disseram ameigando-me, as bondosas senhoras.
Voltei nesse dia mais alegre para a nossa tristonha alcova da estalagem de S. Christovão.
Passei a tarde toda na porta, com as crianças da visinha; a Carolina, o Manéco e a Rita.
O Manéco tinha oito annos, era magro, orelhudo e pallido; cheirava sempre a cachaça e vivia fumando as pontas de cigarros encontradas no chão. Era elle quem mais me affligia, e entretanto quem mais me procurava! Quando se ria mostrava as gengivas arroxadas, como se estivessem cozidas pelo álcool, e os dentes grandes, deseguaes, ainda muito novos. Era alto para a edade, mas magrissimo, com o peito fundo, e braços e as pernas molles.
A irmã mais nova tinha cinco annos, mas podia commigo ao collo, a Rita, já dona de um vasto vocabulário de insultos.
De resto bonita, morena e engraçada.
A este rancho junctava-se ás vezes um mulatinho, o Lucas, mais moço do que eu, muito sujo, e que passava a vida a mentir.
Nesse dia entrei para a roda com ar altaneiro; fallei de coisas sumptuosas, presentes, doces, vestidos, gosando do olhar de inveja e admiração dos outros.
Só a Carolina parecia não me ouvir, lavava os esfregões das panellas, com o corpo em c e os braços enterrados na água malcheirosa da tina.














