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Memórias de Marta · Júlia Lopes de Almeida
Capítulo III
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Ao expirar das férias, cahi gravemente doente. Desenvolvera-se no cortiço a epidemia terrível de diphteria, e o sarampo. Minha mãe, enlouquecida, não me desamparava... velava assídua noite e dia, por sua pobre doentinha, evitando o menor golpe de ar, proporcionando todo o possível conforto.
Logo no primeiro dia de doença, correu á casa do medico, de manhã, mas só á noite é que elle appareceu, o que a desesperava de impaciência... eu gemia baixo, enfraquecida e prostrada pela intensidade da febre. Delirei, tive suffocações medonhas e só depois de duas semanas pude levantar-me, muito tremula e muito impertinente. O medico deixou de ir ver-me, mas offereceu caridosamente seus conselhos sempre que delle precisássemos.
Principiou a convalescença, a época de desejos irrealisaveis e de excitações nervosas. Eu queria tudo o que não possuía, exigia impossíveis áquella pobre martyr, que tinha na voz supplicas e no olhar toda a meiguice de uma alma angélica!
Um dia quiz vêr a boneca da menina Lucinda, cuja lembrança não sei porque se despertou em meu espirito.
— Quero brincar com Mlle. Rosa... Mlle Rosa era a minha ideia fixa.
— Deixa estar, meu amor, dizia a minha incomparavel enfermeira, has de ter também uma boneca assim...
— Mas ha de ser já!...
— Já?! pois sim, vou comprar-te uma agora mesmo...
— Não! eu só gosto da Rosa!... e chorava.
A Lucinda tinha ido viajar com a família e não podia minha mãe soccorrer-se da sua generosidade.
— Não chores, que tornas a ficar peior... descansa, que has de ter uma boneca muito linda... e marejavam-lhe os olhos de lagrimas. Eu apesar de muito crescida não me envergonhava daquellas exigências.
Nem um ralho de minha mãe! Ás impertinencias manhosas e insupportaveis oppunha sua resignação e seu grande medo de me vêr outra vez com febre e inerte.
No dia immediato, comprou-me uma boneca, para consolar-me; deu-m’a embrulhada e poz-se á espreita, fixando avidamente em mim o seu olhar de santa. Desdobrei com as mãos emmagrecidas o papel amarello, era uma anciedade nervosa. Quando vi o desejado objecto, levantei os olhos para minha mãe e, como se estivesse em frente de um espelho, vi nella retratada a minha decepção! A boneca rolou para o soalho, onde permaneceu alguns minutos, depois em um bom movimento, pedi-a, compuz-lhe o vestido de gaze vermelho, salpicado de florinhas de panno, e adormeci com ella nos braços.
Restabeleci-me vagarosamente. Minha mãe redobrava-se de trabalho para pagar-me vinho fino e remédios caros. Era caprichosa, mas demoradissima no serviço; faltavam-lhe as forças para sacudir o trabalho e desembaraçar-se depressa.
Voltei emfim á aula, agora com preguiça, saudade daquellas horas vasias entre a criançada da visinha. A Rita entrou nesse anno, levada por mim, que lhe segurava a mãosinha trigueira, com ar vaidoso de protecção.
D. Anninha estava na sua cadeira de braços sobre o estrado. Em frente della, em cima da mesa, misturavam-se com os lápis e as lousas, raminhos de mangericão, rosas de Alexandria e galhos de alecrim, levados pelas discípulas. As rosas mais finas estavam collocadas num copo cheio de água. As adjunctas riscavam pedras, de cabeça baixa.
Apresentei a Rita á professora, dando-lhe o papelsinho que já viera escripto de casa, com o nome e a naturalidade da pequena. Eu gosava naquelle momento de um prestigio extraordinário, aquelle acto simples de matricula, em que eu intervinha directamente, fazia-me crescer deante dos olhos parvos da meninada ignorante. Desde então tomei grande preponderância sobre a Rita, que não fazia nada sem meu conselho!
Em cada anno que começa ha uma onda nova de meninas, que entram, e um grande vácuo de meninas que sahiram, algumas sem uma palavra ao menos de despedida!
Cada dia occorre-nos á lembrança uma ou outra collega que não tornámos a vêr!
E’ uma impressão delicada e estranha nas crianças, essa em que a novidade traz uma certa tristeza indefinivel. Felizmente, ainda lá encontrei Clara Sylvestre, com o seu formoso rostinho alvo e rosado, e o cabello castanho, amarrado no alto com uma fita côr de rosa. Mostrava-se agora ciumenta de mim com a Rita e toda ella, só para fazer-me pirraças, se dedicava a uma caboclinha risonha. De vez em quando fazíamos as pazes, e eram então abraços e beijos sem fim.
A professora começou a mostrar predilecção por mim, dando-me muitas vezes uma cadeira a seu lado para ajudal-a a tomar a licção das meninas do A. B. C.
Diziam que eu tinha muita paciência e muito geito. As crianças deram em trazer-me também raminhos de alecrim e perpétuas, mal amarradas com linha.
Assim correu o anno. Chegado o mez de Dezembro, tornou a época do descanço. Fiz meu segundo exame, com louvor. Minha mãe julgando-me sufficientemente instruída, quiz acostumar-me a ajudal-a, mas viu com tristeza que eu não tinha geito para os trabalhos a que me propunha.
Mandava-me vigiar a panella, mas a comida queimava-se ou o fogo extinguia-se; olhava-me sem reprehender-me e uma occasião disse-me com brandura:
— Tu não nasceste para isto.... mas, filha, é preciso que te habitues; bem vês, somos muito pobres e quando eu morrer deves saber sustentar-te com dignidade e firmeza.
Ao ouvil-a fallar em morte, desatei a chorar e prometti trabalhar; mas no dia seguinte entornei a panella nas brasas, que se apagaram.
Eu tinha então onze annos.
Nessa edade lidava arduamente a Carolina; mas a Carolina era.... a Carolina! um anjo condescendente e soffredor, que levava beliscões tendo por isso nodoas negras, em seu corpo de gafanhoto muito branco. A Carolina tinha juízo como uma senhora sensata, e coração immaculado; emfim, a Carolina não entrara nunca em uma casa como a da Lucinda, nem se vira em frente de um espelho, miserável e feia, ao lado de outra menina de sua edade, bella e orgulhosa!
Passei tristemente o resto das férias, e logo no primeiro dia de escola voltei á classe.
Chovia e estavam poucas meninas. Finda a licção, principiei a costura, a bainha de um lenço.
Uma adjunta conversava intimamente com a mestra, em um tom que me permittia ouvil-as sem indiscrição.
Fallava de si, de sua vida passada, dando graças a Deus por ter um emprego, cujo ordenado lhe consentia um certo conforto, evitando que o irmão, única pessoa da família, a protegesse dando-lhe cousas olhadas como supérfluas, por mais necessárias que fossem, pela cunhada rapariga invejosa e irônica, segundo phrases suas.
— Estou morta por tirar a cadeira, continuava, só assim viverei tranquilla.
A professora animou-a; ella retirou-se com um sorriso satisfeito, e eu fiquei pensativa. Nessa noite sonhei que era mestra: tinha uma casa grande, com jardim, onde cantavam doudamente, em uma alegria exhuberante e abençoada, os passarinhos. Quando accordei disse o sonho a minha mãe. Vi-lhe no rosto lampejar a alegria.
Foi assim que desabrochou em meu espirito essa flor immaculada e santa, de aroma fortalecedor e doce — o amor ao trabalho. Eu projectava fazer fortuna a ensinar meninas! Queria um palacete, com espelhos e moveis esquisitos, attrahia-me a figurinha nervosa e brilhante de Lucinda, aquella visão que me plantou na alma o arbusto de negros fructos, cujo sabor me envenenava — a inveja!
Sonhando ser mestra, eu não imaginava o descanço, o repouso ameno que eu daria a minha mãe como recompensa dos grandes sacrifícios feitos por ella para meu bem estar; eu não pensava em ser útil, em tornar-me necessária, imprescindível: eu não queria ser mestra para não morar num cortiço mal alumiado, infecto, humido, nesta terra onde ha tantas flores, tanta luz e tantas alegrias... O caso é que, fosse qual fosse a mão que me escreveu no pensamento a resolução de vir a ser professora, pertencesse ella á tentação diabólica do luxo ou á comprehensão de um dever, fosse qual fosse, eu a abençôo.
Continuei a estudar e fazia progressos. Os primeiros prêmios eram meus. Dava-os a minha mãe, que os guardava como relíquias em um cofre de madeira, onde tinha o retrato de meu pae e algumas cartas de familia, amarellecidas pelo tempo. Por isso dizia-me ás vezes sorrindo:
— Nesta caixinha estão o meu passado e o meu futuro.
Uma tarde, voltávamos do collegio, eu e a Rita, quando no meio da rua tivemos de parar estupefactas.
A ilhôa ia entre dois soldados, com o vestido esfarrapado, o cabello solto, o rosto sangrando, coberto de arranhões. As mangas arregaçadas mostravam os seus braços de lavadeira robusta, avermelhados e musculosos e havia um tal ar de fúria e de dôr no seu olhar, que ella nem viu a filha, que chamava por ella, agarrando-se a mim.
A’ porta do cortiço havia ajunctamento de povo; algumas pessoas riam-se. O Joaquim vendeiro vociferava, roxo de cólera empapando num lenço o sangue que lhe escorria do nariz.
Entrámos em casa, tremulas de susto. Soubemos tudo.
O Manéco tinha ido com a mãe ao medico; a ilhôa queixara-se: o pequeno não comia.... não dormia, tinha tremuras nas mãos, o ar pasmado, e entrava a emmagrecer de uma maneira espantosa. O medico depois de um rápido exame, declarou o doente incurável. Aquillo era o effeito do vicio, já não valia a pena dar-lhe remédios; que o deixasse beber á vontade, a morte não tardaria muito.
A ilhoa voltou arrastando o filho, atirou-o para a cama, recommendou-o á Carolina, e sahiu de novo para a rua. Estrangular o Joaquim entre os seus dedos vigorosos era o seu intento, mas de vagar, dizendo-lhe mesmo:
— Meu filho vae morrer por tua causa! mas antes que elle morra has de tu ir para o inferno!
A venda estava cheia de gente: ella não viu senão o dono, magro, amarello, alto, perto do balcão ceboso. Atirou-se a elle, esmurrando-o num extravasamento de cólera. Cahiam copos, garrafas, uma barulheira medonha que ia attrahindo os curiosos. Vieram os soldados, separaram-os ás pranchadas e lá a levaram para a policia com as mãos cheias de sangue e fios da barba do outro.
Dentro da casa, a Carolina chorava baixo, contendo o irmão que teimava em voltar para fora. Ella ouvia tudo, com o coração apertado, mas não faltando aos seus cuidados de menagére. Minha mãe foi acompanhal-a, ajudando-a a deter o Manéco.
Carolina deu o jantar á Rita, obrigou o irmão a tomar um caldo, e arrumou depois tudo no armário, limpando as lagrimas ao panno dos pratos. Numa das voltas, minha mãe notou-lhe:
— Que é que você tem nas pernas, Carolina? estão inchadas!
— Ha muito tempo já que estão assim... cada dia engrossam mais... já não posso calçar as meias. Isto não é nada.
— Já fallou ao doutor?
— Não.... mas já tivemos aqui uma vizinha com a mesma coisa, e o doutor disse que era da humidade. A gente não pôde mesmo morar noutro logar.... Isto não é nada.
Quando se tratava das suas doenças, ella dizia sempre, repetindo-se — isto não é nada.
Só no dia seguinte foi que a ilhôa voltou para perto dos filhos, e mal entrou desaffogou-se em lagrimas.














