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Memórias de Marta · Júlia Lopes de Almeida

Capítulo VIII

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Voava o tempo alegremente.

Luiz freqüentava a casa com assiduidade e levava-me de todas as vezes flores colhidas nas suas excursões, de que tinha sempre a contar um caso pittoresco.

Desappareceu-me a tosse e a febre; tornei-me mais gorda e corada, risonha e feliz! Logo de manhã cedo sahia, encontrava quasi sempre o Luiz, que caminhava a meu lado, fallando e fazendo-me fallar, rindo-se descuidosamente e affirmando que eu tinha espirito por dez homens.... Eu acreditava naquillo e sentia em verdade o que não experimentara nunca: muita facilidade em expressar-me e uma alegria saudável, nova, que me invadia toda. A’ tarde tornávamos a sahir; íamos á gare, ou ao alto da montanha ver a grande pluma branca do fumo da locomotiva apparecendo além nos tunneis.... D. Annita assestava o binóculo e ficava-se em contemplação. Luiz lia-me então uns versos feitos nesse dia; cousas banaes mas lisongeiras, que eu achava muito bonitas....

Dava-me depois o original, com um modo significativo; eu lia e relia aquillo, cada vez mais encantada. Hoje, quando qualquer d’esses papeis me cae nas mãos, sorrio da minha ingenuidade de então!

N’uma d’essas tardes, em que elle acabara de ler-me um madrigal amoroso e terno como um arrulo, formou-se subitamente uma tempestade medonha. Os trovões rebentaram furiosos.

As nuvens baixavam, negras, ennoveladas, grossas, lambendo os cimos dos montes, colorindo-os com um véu esfarrapado e fumarento, deixando apparecer nos seus pedaços rotos as manchas verde-negras da vegetação. Voavam em bando as aves grandes, assustadas, a baterem com as azas sobre as nossas cabeças, num frá-frá medonho!

Principiámos a descer rapidamente a íngreme collina. Falseavam no ar, zig-zagueando, fitas luminosas. Corríamos os três; d. Annita corajosa, Luiz risonho, eu espavorida.

Desde criança, que as tempestades tinham sobre mim uma influencia enorme. O meu temperamento melindroso parecia electrico. Eu maldizia a minha natureza timida e nervosa e não sei como pude correr, estando assustada e cega de medo, um medo indescriptivel! Parecia-me sem fim o caminho. A chuva principiava, cahindo em gottas grossas. Deparámos com a cabana de um negro lenheiro, um velhinho engilhado, bondoso, e recolhemo-nos alli. Luiz rindo sempre, d. Annita séria, eu de mãos postas.

Ia escurecendo cada vez mais. Em frente á porta aberta olhávamos para a estrada erma, á espera de uma estiada para continuarmos a caminhar.

Estaríamos talvez a um quarto de hora naquella espectativa quando uma figura de mulher atravessa a estrada.

Era uma hospede do hotel, rapariga nova, alta, bonita, rosto côr de leite e rosas, d’uma frescura encantadora, emmoldurado pelos anneis sedosos do cabello loiro-cinzento; filha de um paralytico norte-americano, que não sahia nunca e estava a ares no campo.

Ella andava sempre acompanhada por um grande cão da Terra Nova que lá ia a seu lado, a passo.

O lenheiro chamou-a, offerecendo-lhe agasalho; ella agradeceu com um gesto, dizendo que assistira lá do alto á formação da tempestade — que adorava aquillo!

Apezar de toda a minha afflicção, percebi que aquella rapariga singular e romântica produzira em Luiz uma profunda impressão. Elle curvara-se para fora e sahiu a acompanhal-a com a vista, não obstante os ralhos da prima....

Esperámos ainda uma hora, mas a chuva augmentava e decidimos partir.

Sahimos; a uns cem passos, se tanto, da nossa habitação, um enorme estampido que foi repercutindo de echo em echo, abalou a montanha.

Senti fogo nos olhos, dei um grito inconscientemente, e cahiria se me não amparasse Luiz, que tentou levar-me nos braços; tive forças para resistir e guiada por elle, cheguei á casa.

Passei a noite num somno, e accordei restaurada das grandes sensações nervosas que me haviam agitado. Da véspera só me restava uma impressão, e essa amável: a dos braços de Luiz amparando-me carinhosamente.... estremecia de ineffavel júbilo, de innenarravel contentamento! Voltavam-me á memória todos os incidentes do passeio e demorava-me a meditar no madrigal, dirigido a mim, ao meu coração bondoso e meigo....

Sem receios, desvanecida completamente a lembrança da americana, preparei-me e entrei na sala.

Nesse dia esperámos em vão por Luiz. Eu ia á janella, voltada para o interior e descia ao jardim, sem que em nenhuma das vezes lhe tivesse lobrigado a sombra.

D. Annita parecia não estranhar a falta do primo; e fingia talvez não perceber a minha impaciência. Em que inquietação passei! A quantas probabilidades attribui aquella demora! A mais atormentadora era a idéia de que estivesse doente.... sim, bem podia ser que lhe tivesse causado grande mal a chuva e o vento da ultima tarde....

Estávamos ao jantar quando sentimos passos no corredor. É elle! pensei, e o coração bateu-me com força.

Olhei alegremente para a porta e vi, desilludida, entrar um empregado da estação, que entregou ao dono da casa um telegramma da Corte; era da família, chamando-o á pressa, para ver a mãe, atacada nesse mesmo dia de uma congestão cerebral.

D. Annita resolveu logo seguir também e principiamos a arranjar as malas.

Deviamos partir no dia seguinte ao meio-dia, e consegui deixar nessa noite promptos todos os meus preparativos de viagem.

Pouco dormi; de manhã cedo abotoei o meu vestido escuro de gola alta, puz o meu grande chapéu de abas largas e sahi, affirmando que era para despedir-me do logar.

Nunca o sol me pareceu tão claro, tão luminoso e bello. Dizia-me não sei que voz intima que encontraria Luiz pela ultima vez, nessa solidão perfumada e tão digna do nosso amor! O adeus, imaginava eu, quebrará o encanto, e ouvirei emfim dos seus lábios a suprema palavra, o amo-te, que nos ligará por toda a vida!

Os pássaros cantavam alegremente, saltitando de galho em galho. Num espreguiçamento voluptuoso, as hastes de trepadeiras cobertas de campanulas azues, brancas e roxas iam-se entrelaçando, e no fundo escuro da folhagem erguiam-se como ciborios de marfim, os perfumosos copos de leite.

A cada curva do caminho eu divisava lá embaixo os grandes valles atufados em verdura, arqueando-se avelludadamente de montanha em montanha, até se esfumarem além num tom vaporoso e violaceo.

Nesse embevecimento das coisas e do sentimento que me dominava, eu fui-me approximando da casa amarellada, lá em cima, sobre o tunnel, dominando a vastidão cheia de luz. Chegando junto ao portão do hotel, entre-aberto, parei attonita, gelada, como se me tivessem vestido de neve subitamente.

Sentada num banco do jardim, muito perto do gradil da estrada, a filha do paralytico, com a cabecinha brilhando ao sol, e os pés mergulhados no pello farto e negro do seu grande Terra Nova, dialogava amorosamente com Luiz!

Elle rodeava-lhe a cintura com o braço, numa intimidade que me encheu de espanto! Ouvi-lhes as vozes unidas como um murmúrio causado pela mesma quebra d’água ou a mesma ondulação da brisa.

É que as palavras de ambos vinham ao fluxo da mesma onda, rolando em egual sentimento.

Segurei-me aos varaes de ferro para não cahir, senti uma vertigem; respirava alto, escutando-lhes sem as entender mas adivinhando-as claramente, de uma nitidez infernal, as suas expressões meigas e apaixonadas.

É verdade que eu apprendera alguma cousa de inglez com d. Annita que, vendo a minha boa vontade para os estudos, me propuzera bondosamente ensinar-me; mas a minha instrucção limitara-se a uma meia dúzia de termos familiares. Comtudo, isso habilitou-me a poder conservar na memória duas phrases, unicamente duas, de entre tantas que elles trocaram, e essas mesmo por serem compostas com uma ou outra palavra já minha conhecida.

— Do you love me? perguntava-lhe elle, a envolvel-a com um olhar humido, unctuoso como um favo de mel.

— Oh yes, yes.... with all my heart! respondia-lhe ella, languidamente, coando por entre as pestanas cerradas a luz azul dos seus bellos olhos rasgados.

Eu via-lhes os perfis; elles estavam de costas para mim; mas com os rostos voltados, quasi unidos, num embevecimento!

No pescoço roliço e branco da americana, brincavam os anneis do seu cabello preso no alto, e aquelles fios crespos, curtos, soltos, agitados pela viração, polvilhavam-n’a de oiro. Achei-a linda e enchi-me de raiva por aquella belleza.

Tapei os olhos com a mão muito fria e tremula, e cambaleante voltei, caminhando por um grande espaço ao acaso, sem cuidados, sem precauções. Era tal o estado de concentração de ambos que não ouviram os meus passos, nem a minha respiração forte e precipite! Maldita, maldicta hora aquella!

Desci olhando para o grande vácuo a meus pés, com tentações de despenhar-me naquelle abysmo azul. Faltava-me o ar. Agitei os braços invejando as aves que voavam lá em cima, longe d’este mundo traiçoeiro. Passei indifferente pelos chuveiros de flores doiradas, vaporosas, que pendiam dos galhos musgosos das arvores folhudas, e deixei-me cahir quasi desfallecida num combrosito grammado, á beira da estrada.

Demorei-me alli não sei quanto tempo; ouvindo vozes de pessoas que se approximavam levantei-me e segui para casa.

D. Annita estava impaciente á minha espera.

— São horas de nos irmos embora; eu estava com receio....

— De que?

— Não lhe tivesse acontecido alguma desgraça!

— Não me aconteceu nada, respondi-lhe, e, ai de mim! tinha-se desmoronado todo o meu futuro!

Em caminho da estação perguntei-lhe, procurando uma confirmação para a minha suspeita:

— Que quer dizer: Do you love me?

— Amaes-me? respondeu-me ella, sorrindo maliciosamente, e depois: Por que? algum inglez disse-lhe isso hoje?

— Qual! mas ouvi um inglez dizel-o a uma ingleza!

— Sim? e ella ficou silenciosa, baixou os olhos.... corou.... não é verdade? E sorria.

— Não.... ella replicou muito firme: yes.... yes... with all my heart.

— E que significam as ultimas palavras?

— Sim, sim, de todo o meu coração.

— Ora a Martha como poz sentido na conversa! Mas que gente era essa?

— Eu sei lá.... uns inglezes.

Chegámos á gare; o comboio ainda não estava.

Sentámo-nos no banco e pela vigésima vez contei, a pedido de d. Annita, os volumes que traziamos; o Sr. Jeronymo, muito triste, não se preoccupava com coisa alguma, consultava o relógio e praguejava contra a demora do trem.

Ao meio dia partimos. O respeitável e bondoso doutor Gunning veiu despedir-se de nós á gare, e umas crianças pobres trouxeram-nos flores. O comboio sibillou, oscillou e partiu.

Antes e depois dos tunneis viamos paizagens encantadoras, montes, valles, succedendo-se, arvores frondosas, e logo no fim do primeiro kilometro, á direita, a cascatinha soluçante, graciosa, aonde numa tarde viéramos com Luiz....

Minha mãe, avisada por mim desde a véspera á noite, esperava-me. Confundimos os nossos beijos e as nossas lagrymas.

Ella achou-me mais forte; eu achei-a mais magra e muito abatida, muito!

Conversámos a noite inteira.

Ella fallou-me com elogios no antigo freguez, o Miranda, que a protegera e se interessara por mim, perguntando-lhe sempre noticias e lendo as minhas cartas com prazer.... É agora nosso vizinho, accrescentava ella; um bom homem, aquelle.

De Luiz evitei sempre fallar.

No fim de uma semana recomeçaram as aulas.

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