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Memórias Póstumas de Brás Cubas · Machado de Assis

Capítulo CIV: Era ele!

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Restituí o grampo a Virgília, que o repregou nos cabelos, e preparou-se para sair. Era tarde; tinham dado três horas. Tudo estava esquecido e perdoado. D. Plácida, que espreitava a ocasião idônea para a saída, fecha subitamente a janela e exclama:

— Virgem Nossa Senhora! Aí vem o marido de Iaiá!

O momento de terror foi curto, mas completo. Virgília fez-se da cor das rendas do vestido, correu até a porta da alcova; D. Plácida, que fechara a rótula, queria fechar também a porta de dentro; eu dispus-me a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou. Virgília tornou a si, empurrou-me para a alcova, disse a D. Plácida que voltasse à janela; a confidente obedeceu.

Era ele. D. Plácida abriu-lhe a porta com muitas exclamações de pasmo:

— O senhor por aqui! Honrando a casa de sua velha! Entre, faça favor. Adivinhe quem está cá… Não tem que adivinhar, não veio por outra cousa… Apareça, Iaiá.

Virgília, que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, pálido, frio, quieto, sem explosão, sem arrebatamento, e circulou um olhar em volta da sala.

— Que é isto? — exclamou Virgília. — Você por aqui?

— Ia passando, vi D. Plácida à janela, e vim cumprimentá-la.

— Muito obrigada — acudiu esta. — E digam que as velhas não valem alguma cousa… Olhai, gentes! Iaiá parece estar com ciúmes — e acariciando-a muito —: este anjinho é que nunca se esqueceu da velha Plácida. Coitadinha! É mesmo a cara da mãe… Sente-se, senhor doutor…

— Não me demoro.

— Você vai para casa? — disse Virgília. — Vamos juntos.

— Vou.

— Dê cá o meu chapéu, D. Plácida.

— Está aqui.

D. Plácida foi buscar um espelho, abriu-o diante dela. Virgília punha o chapéu, atava as fitas, arranjava os cabelos, falando ao marido, que não respondia nada. A nossa boa velha tagarelava demais; era um modo de disfarçar as tremuras do corpo. Virgília, dominado o primeiro instante, tornara à posse de si mesma.

— Pronta! — disse ela. — Adeus, D. Plácida; não se esqueça de aparecer, ouviu?

A outra prometeu que sim, e abriu-lhes a porta.

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