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Memórias Póstumas de Brás Cubas · Machado de Assis

Capítulo CXXIX: Sem remorsos

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Não tinha remorsos. Se possuísse os aparelhos próprios, incluía neste livro uma página de química, porque havia de decompor o remorso até os mais simples elementos, com o fim de saber de um modo positivo e concludente por que razão Aquiles passeia à roda de Troia o cadáver do adversário,* e lady Macbeth passeia à volta da sala a sua mancha de sangue.** Mas eu não tenho aparelhos químicos, como não tinha remorsos; tinha vontade de ser ministro de Estado. Contudo, se hei de acabar este capítulo, direi que não quisera ser Aquiles nem lady Macbeth; e que, a ser alguma cousa, antes Aquiles, antes passear ovante o cadáver do que a mancha; ouvem-se no fim as súplicas de Príamo, e ganha-se uma bonita reputação militar e literária. Eu não ouvia as súplicas de Príamo, mas o discurso do Lobo Neves, e não tinha remorsos.

* * *

* A passagem está no canto XXIV da Ilíada e narra a morte de Heitor, filho do rei de Troia, Príamo, pelas mãos do grego Aquiles, para vingar a morte de seu amigo Pátroclo.

** No ato V, cena I da tragédia Macbeth (c. 1606), de Shakespeare, lady Macbeth enlouquece de remorso, depois de ter incentivado o marido a cometer vários crimes, visando obter a coroa da Escócia. Em sua loucura, ela anda de um lado para outro querendo livrar-se da mancha de sangue que imagina ter nas mãos.

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