Memórias Póstumas de Brás Cubas · Machado de Assis
Capítulo CXXXV: Oblivion
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E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas páginas, fecha o livro e não lê as restantes. Para ela extinguiu-se o interesse da minha vida, que era o amor. Cinquenta anos! Não é ainda a invalidez, mas já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um inglês dizia, entenderei que “cousa é não achar já quem se lembre de meus pais, e de que modo me há de encarar o próprio ESQUECIMENTO”.
Vai em versaletes esse nome. OBLIVION!* Justo é que se deem todas as honras a um personagem tão desprezado e tão digno, conviva da última hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora do atual reinado, e mais dolorosamente a que ostentou suas graças em flor sob o ministério Paraná, porque esta acha-se mais perto do triunfo, e sente já que outras lhe tomaram o carro. Então, se é digna de si mesma, não teima em espertar a lembrança morta ou expirante; não busca no olhar de hoje a mesma saudação do olhar de ontem, quando eram outros os que encetavam a marcha da vida, de alma alegre e pé veloz. Tempora mutantur.** Compreende que este turbilhão é assim mesmo, leva as folhas do mato e os farrapos do caminho, sem exceção nem piedade; e se tiver um pouco de filosofia, não inveja, mas lastima as que lhe tomaram o carro, porque também elas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION. Espetáculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito aborrecido.
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* Alusão a uma passagem de Christian Morals, III, XXII (c. 1670, publicada somente em 1716), de Sir Thomas Browne (1605-82), cuja obra abrange ampla gama de assuntos. A fonte de Machado de Assis deve ser Charles Lamb (1775-1834), que, em um de seus Essays of Elia (1823), intitulado “My relations”, cita, adaptando, a passagem de Browne, usando, inclusive, o versalete que o autor reproduz em Brás Cubas.
** Trata-se de um ditado latino, que quer dizer “os tempos mudam”.
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