Memórias Póstumas de Brás Cubas · Machado de Assis
Capítulo CLIV: Os navios do Pireu
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— Há de lembrar-se — disse-me o alienista — daquele famoso maníaco ateniense, que supunha que todos os navios entrados no Pireu eram de sua propriedade.* Não passava de um pobretão, que talvez não tivesse, para dormir, a cuba de Diógenes;** mas a posse imaginária dos navios valia por todas as dracmas da Hélade. Ora bem, há em todos nós um maníaco de Atenas; e quem jurar que não possuiu alguma vez, mentalmente, dous ou três patachos, pelo menos, pode crer que jura falso.
— Também o senhor? — perguntei-lhe.
— Também eu.
— Também eu?
— Também o senhor; e o seu criado, não menos se é seu criado esse homem que ali está sacudindo os tapetes à janela.
De fato, era um dos meus criados que batia os tapetes, enquanto nós falávamos no jardim, ao lado. O alienista notou então que ele escancarara as janelas todas desde longo tempo, que alçara as cortinas, que devassara o mais possível a sala, ricamente alfaiada, para que a vissem de fora, e concluiu:
— Este seu criado tem a mania do ateniense: crê que os navios são dele; uma hora de ilusão que lhe dá a maior felicidade da terra.
* * *
* A anedota do maníaco ateniense figura em diversos textos, sendo o mais antigo deles O navio ou os votos, de Luciano de Samósata (século II d.C.); Cláudio Eliano (século III d.C.) relata a mesma história em Várias histórias (livro IV, anedota 25); Camões (c. 1524-80) também se dedica ao tema nas “Oitavas ao desconcerto do mundo”; e Xavier de Maistre (1763-1852), em Viagem à roda do meu quarto, menciona a personagem, a quem se refere como “um certo ateniense”.
** Filósofo grego de Sínope, na atual Turquia, Diógenes viveu nos séculos V e IV a.C. Andava descalço, dormia debaixo dos pórticos, embrulhado na sua única e rota capa e tinha por domicílio habitual um tonel (ou cuba).
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