Memórias Póstumas de Brás Cubas · Machado de Assis
Capítulo XXII: Volta ao Rio
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Jumento de uma figa, cortaste-me o fio às reflexões. Já agora não digo o que pensei dali até Lisboa, nem o que fiz em Lisboa, na península e em outros lugares da Europa, da velha Europa, que nesse tempo parecia remoçar. Não, não direi que assisti às alvoradas do romantismo, que também eu fui fazer poesia efetiva no regaço da Itália; não direi cousa nenhuma. Teria de escrever um diário de viagem e não umas memórias, como estas são, nas quais só entra a substância da vida.
Ao cabo de alguns anos de peregrinação, atendi às súplicas de meu pai: “Vem”, dizia ele na última carta; “se não vieres depressa, acharás tua mãe morta!”. Esta última palavra foi para mim um golpe. Eu amava minha mãe; tinha ainda diante dos olhos as circunstâncias da última bênção que ela me dera, a bordo do navio. “Meu triste filho, nunca mais te verei”, soluçava a pobre senhora apertando-me ao peito. E essas palavras ressoavam-me agora, como uma profecia realizada.
Note-se que eu estava em Veneza, ainda recendente aos versos de lord Byron;* lá estava, mergulhado em pleno sonho, revivendo o pretérito, crendo-me na Sereníssima República. É verdade; uma vez aconteceu-me perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia. — Que doge, signor mio? — Caí em mim, mas não confessei a ilusão; disse-lhe que a minha pergunta era um gênero de charada americana; ele mostrou compreender, e acrescentou que gostava muitos das charadas americanas. Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a ponte dos Suspiros, a gôndola, os versos do lord, as damas do Rialto, deixei tudo e disparei como uma bala na direção do Rio de Janeiro.
Vim… Mas não; não alonguemos este capítulo. Às vezes, esqueço-me a escrever, e a pena vai comendo papel, com grave prejuízo meu, que sou autor. Capítulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e nós não somos um público in-folio, mas in-12,** pouco texto, larga margem, tipo elegante, corte dourado e vinhetas… principalmente vinhetas… Não, não alonguemos o capítulo.
* * *
* George Gordon, Lord Byron (1788-1824), foi um dos expoentes do romantismo inglês. Foi para Veneza (a Sereníssima República) em 1816 e residiu na Itália por seis anos.
** “In-12” ou “in duodecimo” é um tipo de livro em que a folha para impressão foi dobrada de tal modo que resulte em 24 páginas impressas. Entre os séculos XVII e XIX, esse tipo de livro tinha dimensões semelhantes às dos livros de bolso atuais.
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