Memórias Póstumas de Brás Cubas · Machado de Assis
Capítulo XXVI: O autor hesita
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Súbito ouço uma voz:
— Olá, meu rapaz, isto não é vida!
Era meu pai, que chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no baú e recebi-o sem alvoroço. Ele esteve alguns instantes de pé, a olhar para mim; depois estendeu-me a mão com um gesto comovido:
— Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.
— Já me conformei — foi a minha resposta, e beijei-lhe a mão.
Não tinha almoçado; almoçamos juntos. Nenhum de nós aludiu ao triste motivo da minha reclusão. Uma só vez falamos nisso, de passagem, quando meu pai fez recair a conversa na Regência:i foi então que aludiu à carta de pêsames que um dos regentes lhe mandara. Trazia a carta consigo, já bastante amarrotada, talvez por havê-la lido a muitas outras pessoas. Creio haver dito que era de um dos regentes. Leu-ma duas vezes.
— Já lhe fui agradecer este sinal de consideração — concluiu meu pai —, e acho que deves ir também…
— Eu?
— Tu; é um homem notável, faz hoje as vezes de imperador. Demais trago comigo uma ideia, um projeto, ou… sim, digo-te tudo; trago dous projetos, um lugar de deputado e um casamento.
Meu pai disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando às palavras um jeito e disposição cujo fim era cavá-las mais profundamente no meu espírito. A proposta, porém, desdizia tanto das minhas sensações últimas, que eu cheguei a não entendê-la bem. Meu pai não fraqueou e repetiu-a; encareceu o lugar e a noiva.
— Aceitas?
— Não entendo de política — disse eu depois de um instante —; quanto à noiva… deixe-me viver como um urso, que sou.
— Mas os ursos casam-se — replicou ele.
— Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa Maior…
Riu-se meu pai, e depois de rir, tornou a falar sério. Era-me necessária a carreira política, dizia ele, por vinte e tantas razões, que deduziu com singular volubilidade, ilustrando-as com exemplos de pessoas do nosso conhecimento. Quanto à noiva, bastava que eu a visse; se a visse, iria logo pedi-la ao pai, logo, sem demora de um dia. Experimentou assim a fascinação, depois a persuasão, depois a intimação; eu não dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia bolas de miolo de pão, a sorrir ou a refletir; e, para tudo dizer, nem dócil nem rebelde à proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posição política eram bens dignos de apreço; outra dizia que não; e a morte de minha mãe me aparecia como um exemplo da fragilidade das cousas, das afeições, da família…
— Não vou daqui sem uma resposta definitiva — disse meu pai. — De-fi-ni-ti-va! — repetiu, batendo as sílabas com o dedo.
Bebeu o último gole de café; repotreou-se e entrou a falar de tudo, do Senado, da Câmara, da Regência, da Restauração,ii do Evaristo,iii de um coche que pretendia comprar, da nossa casa de Mata-Cavalos… Eu deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente num pedaço de papel, com uma ponta de lápis; traçava uma palavra, uma frase, um verso, um nariz, um triângulo, e repetia-os muitas vezes, sem ordem, ao acaso, assim:
arma virumque canoiv
A
Arma virumque cano
arma virumque cano
arma virumque
arma virumque cano
virunque
Maquinalmente tudo isto; e, não obstante, havia certa lógica, certa dedução; por exemplo, foi o virumque que me fez chegar ao nome do próprio poeta, por causa da primeira sílaba; ia a escrever virumque — e sai-me Virgílio, então continuei:
Vir
Virgílio
Virgílio
Virgílio
Virgílio
Virgílio
Meu pai, um pouco despeitado com aquela indiferença, ergueu-se, veio a mim, lançou os olhos ao papel…
— Virgílio! — exclamou. — És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente Virgília.
* * *
i A Regência durou de 1831, quando d. Pedro I abdicou em favor de seu filho menor, d. Pedro de Alcântara, até 1840, quando foi declarada a maioridade dele, que subiu ao trono como Pedro II.
ii A “Restauração” é, possivelmente, uma alusão ao Partido Restaurador (dos caramurus), que queriam a volta de d. Pedro I ao poder.
iii Evaristo da Veiga (1799-1837) foi jornalista e político durante o Primeiro Reinado e a Regência.
iv “Arma virumque cano” [Eu canto as armas e o varão] é o verso inicial da Eneida, de Virgílio (71-19 a.C.), poema épico que conta a origem de Roma.
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