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Memórias Póstumas de Brás Cubas · Machado de Assis

Capítulo XXXIV: A uma alma sensível

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Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, há aí uma alma sensível, que está decerto um tanto agastada com o capítulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugênia, e talvez… sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cínico. Eu cínico, alma sensível? Pela coxa de Diana! Esta injúria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma cousa nesse mundo. Não, alma sensível, eu não sou cínico, eu fui homem; meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo gênero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comédia louçã, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um pandemonium, alma sensível, uma barafunda de cousas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Esmirna* até a arruda do teu quintal, desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de vária casta e feição. Não havia ali a atmosfera somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do sapo. Retira, pois, a expressão, alma sensível, castiga os nervos, limpa os óculos — que isso às vezes é dos óculos — e acabemos de uma vez com esta flor da moita.

* * *

* Segundo a lenda, a princesa Esmirna foi transformada em árvore, da qual nasceu o belíssimo Adônis, amado e protegido da deusa Afrodite (ou Vênus). Há algumas variantes, mas é recorrente o relato de que, depois da morte do jovem, de cada lágrima de Afrodite brota uma rosa, de vida breve como o próprio Adônis.

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