Memórias Póstumas de Brás Cubas · Machado de Assis
Capítulo XCII: Um homem extraordinário
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Já agora acabo com as cousas extraordinárias. Vinha de guardar a carta e o relógio, quando me procurou um homem magro e meão, com um bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O portador era casado com uma irmã do Cotrim, chegara poucos dias antes do Norte, chamava-se Damasceno, e fizera a revolução de 1831.i Foi ele mesmo que me disse isto, no espaço de cinco minutos. Saíra do Rio de Janeiro, por desacordo com o regente,ii que era um asno, pouco menos asno do que os ministros que serviram com ele. De resto, a revolução estava outra vez às portas. Neste ponto, conquanto trouxesse as ideias políticas um pouco baralhadas, consegui organizar e formular o governo de suas preferências: era um despotismo temperado, não por cantigas — como dizem alhures —, mas por penachos da Guarda Nacional. Só não pude alcançar se ele queria o despotismo de um, de três, de trinta ou de trezentos. Opinava por várias cousas, entre outras, o desenvolvimento do tráfico dos africanos e a expulsão dos ingleses.iii Gostava muito de teatro; logo que chegou foi ao Teatro de São Pedro, onde viu um drama soberbo, a Maria Joana,iv e uma comédia muito interessante, Kettly, ou a volta à Suíça.v Também gostara muito da Deperini,vi na Safo,vii ou na Ana Bolena,viii não se lembrava bem. Mas a Candiani! Sim, senhor, era papa-fina. Agora queria ouvir o Ernani, que a filha dele cantava em casa, ao piano: Ernani, Ernani, involami…ix E dizia isto levantando-se e cantarolando a meia voz. No Norte essas cousas chegavam como um eco. A filha morria por ouvir todas as óperas. Tinha uma voz muito mimosa, a filha. E gosto, muito gosto. Ah! Ele estava ansioso por voltar ao Rio de Janeiro. Já havia corrido a cidade toda, com umas saudades… Palavra! Em alguns lugares teve vontade de chorar. Mas não embarcaria mais. Enjoara muito a bordo, como todos os outros passageiros, exceto um inglês… Que os levasse o diabo, os ingleses! Isto não ficava direito sem irem todos eles barra fora. Que é que a Inglaterra podia fazer-nos? Se ele encontrasse algumas pessoas de boa vontade, era obra de uma noite a expulsão de tais godemes…x Graças a Deus, tinha patriotismo — e batia no peito —, o que não admirava porque era de família, descendia de um antigo capitão-mor muito patriota. Sim, não era nenhum pé-rapado. Viesse a ocasião, e ele havia de mostrar de que pau era a canoa… Mas fazia-se tarde, ia dizer que eu não faltaria ao jantar, e lá me esperava para maior palestra. Levei-o até a porta da sala; ele parou dizendo que simpatizava muito comigo. Quando casara, estava eu na Europa. Conheceu meu pai, um homem às direitas, com quem dançaraxi num célebre baile da Praia Grande…xii Coisas! Coisas! Falaria depois, fazia-se tarde, tinha de ir levar a resposta ao Cotrim. Saiu; fechei-lhe a porta…
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i Referência a uma série de conflitos que culminaram com a abdicação de d. Pedro I: de um lado, os brasileiros “liberais”, que reivindicavam do imperador uma política mais nacionalista, desgostosos com a tendência fortemente absolutista que tomava o seu governo; de outro, os portugueses “adotivos” (que tinham adotado a nacionalidade brasileira), solidários ao imperador e que o apoiavam sem restrições.
ii Ao falar em “Regente”, no singular, o narrador dá a entender que se trata do período da Regência Una, instaurada por um Ato Adicional (em 1834) à Constituição de 1824, que estabelecera a Regência Trina. O primeiro regente único, eleito em 1835, foi o padre Diogo Antônio Feijó, que ficou no poder até 1837; o segundo foi Pedro de Araújo Lima, marquês de Olinda, que a exerceu de 1837 a 1840.
iii O tráfico para o Brasil, embora tornado ilegal a partir de 1831, somente cessou em torno de 1850, após a aprovação da Lei Eusébio de Queirós. Essa lei deveu-se em boa parte à pressão exercida pela Inglaterra, que, interessada no desenvolvimento do trabalho livre para a ampliação do mercado consumidor, fizera aprovar a Lei Aberdeen (1845), proibindo o tráfico marítimo de escravos e arrogando-se o direito de fiscalizar o contrabando, sobretudo no oceano Atlântico.
iv Maria Joana ou a mulher do povo é um drama em cinco atos e seis quadros escrito por Adolphe d’Ennery (1811-99) e Julien de Mallian (1805-51). Segundo anúncios no Diário do Rio de Janeiro, foi encenada na cidade em 1858, não no Teatro de São Pedro, mas no mais popular Teatro de São Januário.
v Kettly, ou a volta à Suíça é uma comédia (vaudevile) de Félix Duvert e Paul Duport. Foi encenada na reinauguração do Teatro de São Pedro de Alcântara, em 1857.
vi Margherita Deperini, mezzo-soprano italiana, atuou na estreia da ópera Safo, de Pacini, no papel de Climene, suposta rival de Safo.
vii Existem duas óperas intituladas Safo, mas o texto faz referência à de Giovanni Pacini (1796-1867).
viii Ana Bolena é uma ópera em dois atos de Gaetano Donizetti (1797-1848), com libreto de Felice Romani (1788-1865). Conta a história de Ana Bolena, que, repudiada por Henrique VIII, é julgada por adultério, condenada e executada.
ix A ópera Ernani (1844), de Giuseppe Verdi (1813-1901), com libreto de Francesco Maria Piave (1810-76), foi encenada no Rio de Janeiro em 1854. A ária em questão, na voz de Elvira, está na cena III do ato I. Em tradução livre: “Ernani, Ernani, leva-me embora”.
x A palavra “godemes” é uma corruptela de “God-damned”, imprecação inglesa que significa “malditos”.
xi A mais popular dança de salão no Rio de Janeiro na época em que se situa o romance era a quadrilha, em que se formavam pares, em linha, uns à frente dos outros.
xii A Praia Grande é a Vila Real de Praia Grande, hoje a cidade de Niterói.
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