Noite na Taverna · Álvares de Azevedo
Capítulo VI: Johann
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Pour quoi? c’est que mon coeur au milieu des délices
D’un souvenir jaloux constamment oppressé’
Froid au bonheur présent va chercher ses supplices Dans l’avenir et le passe’.
ALEX. DUMAS.
— Agora a minha vez! Quero lançar também uma moeda em vossa urma: e o cobre azinhavrado do mendigo: pobre esmola por certo!
Era em Paris, num bilhar. Não sei se o fogo do jogo me arrebatar a, ou se o kirsch e o curaçau me queimaram demais as idéias Jogava contra mim um moço: chamava-se Artur.
Era uma figure loira e mimosa como a de uma donzela. Rosa infantil lhe avermelhava as faces, mas era uma rosa de cor desfeita. Leve buço lhe sombreava o lábio,, e pelo oval do rosto uma penugem doirada lhe assomava como a felpa que rebuça o pêssego.
Faltava um ponto a meu adversário pare ganhar. A mim, faltavam-me não sei quantos: sei são que eram muitos e pois requeria-se um grande sangue frio, e muito esmero no jogar.
Soltei a bola. Nessa ocasião o bilhar estremeceu…
O moço loiro, voluntariamente ou não, se encostara ao bilhar…A bola desviou-se, mudou de rumo: com o desvio dela perdi A raiva levou-me de vencida. Adiantei-me para ele. A meu olhar ardente o mancebo sacudiu os cabelos loiros e sorriu como de escárnio.
Era demais! Caminhei para ele: ressoou uma bofetada. O moço convulso caminhou para mim com um punhal, mas nossos amigos nos sustiveram.
— Isso e briga de marujo. O duelo, eis a luta dos homens de brio.
O moço rasgou nos dentes uma luva, e atirou-m’a a cara. Era insulto por insulto; lodo por lodo: tinha de ser sangue por sangue.
Meia hora depois tomei-lhe a mão com sangue frio e disse-lhe no ouvido:
— Vossas armas, senhor?
— Sabe-lo-eis no lugar.
— Vossas testemunhas?
— A noite e minhas armas.
— A hora?
— Já
— O lugar?
— Vireis comigo…Onde pararmos ai será o lugar…
— Bem, muito bem: estou pronto, vamos.
Dei-lhe o braço e saímos. Ao ver-nos tão frios a conversar creram uma satisfação. Um dos assistentes contudo entendeu-nos.
Chegou a nós e disse:
— Senhores, não há pois meio de conciliar-vos?
Nós sorrimos ambos.
— E uma criançada, tornou ele.
Nós não respondemos.
— Se precisardes de uma testemunha, estou pronto.
Nós nos curvamos ambos.
Ele entendeu-nos: viu que a vontade era firme: afastou-se.
Nós saímos.
Um hotel estava aberto. O moço levou-me para dentro.
— Moro aqui, entrai, disse-me.
Entramos.
— Senhor, disse ele, não há meio de paz entre nos: um bofetão e uma luva atirada as faces de um homem saco nódoas que só o sangue lava. E pois um duelo de morte.
— De morte, repeti como um eco.
— Pois bem: tenho no mundo só duas pessoas— minha mãe e Esperei um pouco.
O moço pediu papel, pena e tinta. Escreveu: as linhas eram poucas. Acabando a carta deu-m’a a ler.
— Vede—não e uma traição, disse.
— Artur, creio em vos: não quero ler esse papel.
Repeli o papel. Artur fechou a carta, selou o lacre com um anel que trazia no dedo. Ao ver o anel uma lágrima correu-lhe na face e caiu sobre a carta.
— Senhor, sois um homem de honra? Se eu morrer, tomai esse anel: no meu bolso achareis uma carta: entregareis tudo a …Depois dir-vos-ei a quem…
— Estais pronto? perguntei.
— Ainda não! antes de um de nos morrer e justo que brinde o moribundo ao ultimo crepúsculos da vida.
Não sejamos Abissínios: demais o sol no cinábrio do poente ainda e belo.
O vinho do Reno correu em águas d’oiro nas taças de cristal verde. O moço ergueu-se.
— Senhor, permita que eu faça uma saúde convosco.
— A quem?
— E um mistério—é uma mulher, e o nome daquela que se apertou uma vez nos lábios, a quem se ama, e um segredo. não a fareis?
— Seja como quiserdes, disse eu.
Batemos os copos. O moço chegou a janela. Derramou algumas gotas de vinho do Reno a noite. Bebemos.
— Um de nós fez a sue ultima saúde, disse ele. Boa noite pare um de nos bom leito, e sono sossegado pare c filho da terra!
Foi a uma secretária, abriu-a: tirou duas pistolas.
— Isto e mais breve, disse ele. Pela espada e mais longa a agonia. Uma delas esta carregada, a outra não. Tirá-las-emos a sorte. Atiraremos a queima-roupa.
— E um assassinato
— Não dissemos que era um duelo de morte, que um de nos devia morrer?
— Tendes razão. Mas dizei-me: onde iremos?
— Vinde comigo. Na primeira esquina deserta dos arrabaldes. Qualquer canto de rua e bastante sombrio para dois homens dos quais um tem de matar o outro.
A meia-noite estávamos fora da cidade: Ele pôs as duas pistolas no chão.
— Escolhei, mas sem tocá-las.
Escolhi.
— Agora vamos, disse eu.
— Esperai, tenho um pressentimento frio: e uma voz suspirosa me geme no peito. Quero rezar e uma saudade por minha mãe.
Ajoelhou-se. A vista daquele moço de joelhos—talvez sobre um túmulo—lembrei-me que eu também tinha mãe e uma irmã e que eu as esquecia. Quanto a amantes, meus amores eram como a sede dos cães das ruas, saciavam-se na água ou na lama Eu só amara mulheres perdidas.
— É tempo, disse ele.
Caminhamos frente a frente. As pistolas se encostaram nos peitos—as espoletas estalaram: um tiro só estrondou, ele caiu quase morto
— Tomai, murmurou o moribundo, e acenava-me para o bolso.
Atirei-me a ele. Estava afogado em sangue. Estrebuchou três vezes e ficou frio. Tirei-lhe o anel da mão. —Meti-lhe a mão no bolso como ele dissera. Achei dois bilhetes.
A noite era escura: não pude lê-los.
Voltei a cidade. A luz baça do primeiro lampião vi os dois bilhetes. O primeiro era a carta para sua mãe. O outro estava aberto: li.
“A uma hora da noite na rua de………….
“n.° 60, 1.° andar: acharas a porta aberta.
Tua G.”
Não tinha outra assinatura.
Eu não soube o que pensar. Tive uma idéia: era uma infâmia.
Fui a entrevista. Era no escuro. Tinha no dedo o anel que trouxera do morto…Senti uma mãozinha acetinada tomar-me pela mão, subi. A porta fechou-se.
Foi uma noite deliciosa! A amante do loiro—era virgem! Pobre Romeu! Pobre Julieta! Parece que essas duas crianças levavam a noite em beijos infantis e em sonhos puros!
(Johann encheu o copo: bebeu-o, mas estremeceu)
Quando eu ia sair, topei um vulto a porta.
— Boa noite, cavalheiro, eu vos esperava há muito. Essa voz pareceu-me conhecida. Porem eu tinha a cabeça desvairada
Não respondi: o caso era singular. Continuei a descer: o vulto acompanhou-me. Quando chegamos a porta vi luzir a folha de uma faca. Fiz um movimento e a lamina resvalou-me no ombro. A luta fez-se terrível na escuridão. Eram dous homens que se não conheciam; que não pensavam talvez terem-se visto um dia a luz, e que não haviam mais ver-se porventura ambos vivos.
O punhal escapou-lhe das mãos, perdeu-se no escuro: subjuguei-o. Era um quadro infernal, um homem na escuridão abafando a boca do outro com a mão, sufocando-lhe a garganta com o joelho, e a outra mão a tatear na sombra procurando um ferro.
Nessa ocasião senti uma dor horrível: frio e dor me correram pela mão. O homem morrera sufocado, e na agonia me enterrara os dentes pela carne. Foi a custo que desprendi a mão sanguenta e descarnada da boca do cadáver. Ergui-me.
Ao sair tropecei num objeto sonoro. Abaixei-me para ver o que era. Era uma lanterna furta-fogo. Quis ver quem era o homem. Ergui a lâmpada…
O ultimo clarão dela banhou a cabeça do defunto…e apagou-se…
Eu não podia crer: era um sonho fantástico toda aquela noite. Arrastei o cadáver pelos ombros levei-o pela laje da calcada ate ao lampião da rua, levantei-lhe os cabelos ensanguentados do rosto… (Um espasmo de medo contraiu horrivelmente a face do narrador—tomou o copo, foi beber: os dentes lhe batiam como de frio: o copo estalou-lhe nos lábios).
Aquele homem—sabei-lo! era do sangue do meu sangue—era filho das entranhas de minha mãe como eu—era meu irmão: uma idéia passou ante meus olhos como um anátema. Subi ansioso ao sobrado. Entrei. A moca desmaiara de susto ouvindo a luta. Tinha a face fria como o mármore. Os seios nus e virgens estavam parados e gélidos como os de uma estátua A forma de neve eu a sentia meio nua entre os vestidos desfeitos, onde a infâmia asselara a nódoa de uma flor perdida.
Abri a janela—levei-a ate aí…
Na verdade que sou um maldito! Olá, Archibald, dai-me um outro copo, enchei-o de Cognac enchei-o até a borda! Vede: sinto frio, muito frio: tremo de calafrios c o suor me corre nas faces! Quero o fogo dos espíritos! a ardência do cérebro ao vapor que tonteia…quero esquecer!
— Que tens, Johann? tiritas como um velho centenário!
O que tenho? o que tenho? não o vedes, pois?
Era linha irmã!
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