Quincas Borba · Machado de Assis
Capítulo I
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Rubião fitava a enseada[1], – eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre[2], à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava[3] o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.
– Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...
[1] Pequena praia capaz de abrigar um porto.
[2] Do francês, significa roupão ou camisola de dormir.
[3] Fazer uma comparação, analisar, relembrar.
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