Quincas Borba · Machado de Assis
Capítulo CXVIII
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Adeus, padre Chagas! Vou à história do casamento. Que Maria Benedita gostava de Carlos Maria, é coisa vista ou pressentida desde aquele baile da Rua dos Arcos, em que ele e Sofia valsaram tanto. Vimo-la na manhã seguinte, pronta a ir para a roça; a prima apaziguou-a com a promessa de que lhe estava arranjando um noivo. Maria Benedita cuidou que era o valsista da véspera, e ficou esperando. Não lhe confessou nada, – por vergonha, a princípio, – e depois por lhe não fazer perder o efeito da novidade, quando Sofia houvesse de descobrir o nome da pessoa. Se confessasse desde logo, podia acontecer também que a outra afrouxasse na tarefa, e lá se perdia a causa. Não façamos caso disto; são pequenos cálculos de moça.
Sobreveio a epidemia das Alagoas. Sofia organizou a comissão, que trouxe novas relações à família Palha. Incluída entre as senhoras que formavam uma das subcomissões, Maria Benedita trabalhou com todas, mas granjeou em especial a estima de uma delas, Dona Fernanda, esposa de um deputado. Dona Fernanda tinha pouco mais de trinta anos, era jovial, expansiva, corada e robusta; nascera em Porto Alegre, casara com um bacharel das Alagoas, deputado agora por outra província, e segundo corria, prestes a ser ministro de Estado. A naturalidade do marido foi o pretexto para metê-la na comissão; e bem acertado foi, porque ela pedia como quem manda, não tinha acanhamento nem admitia recusa. Carlos Maria, que era seu primo, foi visitá-la logo que ela chegou ao Rio de Janeiro. Achou-a mais formosa ainda que em 1865, último ano em que a vira, e talvez fosse verdade; concluiu que o ar do sul era feito para enrijar as pessoas, duplicar-lhe as graças, e prometeu ir lá acabar os seus dias.
– Vamos para lá, que lhe arranjarei casamento, disse ela. Conheço uma moça de Pelotas, que é um bijou, e só casa com moço da Corte.
– Comigo, naturalmente?
– Da Corte e de olhos grandes. Olhe que não estou brincando. É uma guasca[114] de primeira ordem. Tenho aqui o retrato dela.
Dona Fernanda abriu o álbum e mostrou o retrato da pessoa.
– Não é feia, concordou ele.
– Só?
– Sim, é bonita.
– Onde é que você bota os seus chinelos velhos, primo?
Carlos Maria sorriu sem responder; não gostou da expressão. Quis passar a outro assunto, mas Dona Fernanda tornou ao casamento da amiga de Pelotas. Mirava o retrato, coloria-o de palavra, dizendo como eram os olhos, os cabelos, a tez[115]; e depois fez uma pequena biografia de Sonora. Tinha este bonito nome. O padre que a batizou, hesitou em dar-lho, apesar do respeito e influência do pai da menina, rico estancieiro; mas, afinal cedeu, considerando que as virtudes da pessoa podiam levar o nome ao rol dos santos.
– Crê que ela vá ao rol dos santos? perguntou Carlos Maria.
– Se casar com você, creio.
– Não me explica nada; casando com o diabo sucederá a mesma coisa, e com mais certeza, por causa do martírio. Santa Sonora, não é feio nome, responde bem ao sentido. Santa Sonora... Em todo caso, prima...
– Você tem raça de judeu; cale-se, interrompeu ela. Recusa então a minha guasca? continuou indo pôr o álbum no seu lugar.
– Não recuso; deixe-me ir indo com o meu celibato[116], que é meio caminho do céu.
Dona Fernanda soltou uma gargalhada.
– Deus de misericórdia! Você acredita mesmo que vai para o céu?
– Já cá estou, há vinte minutos. Pois que é esta sala, tranquila, fresca, tão longe da gente que anda lá fora? Aqui conversamos os dois, sem ouvir blasfêmias, sem aturar espíritos aleijados, tísicos, escrofulosos, insuportáveis, o próprio inferno, em suma. Aqui é o céu, – ou um pedaço do céu; uma vez que nós cabemos nele, vale pelo infinito. Conversamos de Santa Sonora, de São Carlos Maria e de Santa Fernanda, que, para contrastar com São Gonçalo, fez-se casamenteira das moças. Onde é que há outro céu como este?
– Em Pelotas.
– Pelotas fica tão longe! suspirou ele estendendo as pernas e pondo os olhos no lustre da sala.
– Está bom, é só a primeira investida; darei outras, até você acabar de querer.
Carlos Maria sorriu e olhou para as borlas caídas do cordão de seda que ela trazia à cintura, atado por um laço frouxo; ou para ver as borlas, ou para notar a gentileza do corpo. Viu bem, ainda uma vez, que a prima era uma bela criatura. A plástica levou-lhe os olhos, – o respeito os desviou; mas, não foi só a amizade que o fez demorar ainda ali, e o trouxe novamente àquela casa. Carlos Maria amava a conversação das mulheres, tanto quanto, em geral, aborrecia a dos homens. Achava os homens declamadores, grosseiros, cansativos, pesados, frívolos, chulos, triviais. As mulheres, ao contrário, não eram grosseiras, nem declamadoras, nem pesadas. A vaidade nelas ficava bem, e alguns defeitos não lhes iam mal; tinham, ao demais, a graça e a meiguice do sexo. Das mais insignificantes, pensava ele, há sempre alguma coisa que extrair. Quando as achava insípidas ou estúpidas, tinha para si que eram homens mal-acabados.
Entretanto, as relações de Dona Fernanda e Maria Benedita iam-se estreitando. Esta, além de acanhada, andava triste por aquele tempo; foi justamente a disparidade de caráter e de situação que as prendeu uma à outra. Dona Fernanda possuía, em larga escala, a qualidade da simpatia; amava os fracos e os tristes, pela necessidade de os fazer ledos e corajosos. Contavam-se dela muitos atos de piedade e dedicação.
– A senhora que tem? perguntou ela um dia à amiguinha. Quase nunca ri, anda sempre com os olhos espantados, pensando...
Maria Benedita respondeu que não tinha nada, que era o seu modo; e sorria dizendo isto, por simples condescendência. Aludiu à perda da mãe, como uma das causas de suas melancolias. Dona Fernanda entrou a levá-la a toda parte, a trazê-la para jantar, a dar-lhe lugar no camarote, se ia ao teatro; e graças a isso, e ao seu gênio galhofeiro, sacudiu da alma da moça os corvos aborrecidos que lá avoejavam. Costume e afeição depressa as fizeram íntimas. Não obstante, Maria Benedita continuou a calar o seu mistério.
– Seja qual for o mistério, pensou um dia Dona Fernanda, acho que o melhor é casá-la com o Carlos Maria; a Sonora que espere.
– Você precisa casar, Maria Benedita, disse-lhe dali a dois dias, de manhã, na chácara, em Mata-Cavalos; Maria Benedita tinha ido ao teatro com ela, e passara lá a noite. – Não quero estremecimentos; precisa casar e há de casar... Desde anteontem que estou para lhe dizer isto, mas estas coisas conversadas em sala ou na rua não têm força. Aqui na chácara é diferente. E se você tem ânimo de trepar comigo um pedaço do morro, então é que ficaremos bem. Vamos?
– Está fazendo calor...
– É mais poético, menina. Ah! carioca sem sangue! Vocês só têm água nas veias. Pois fiquemos aqui neste banco. Sente-se; assim, eu fico aqui ao pé, armada para tudo. Casa ou morre. Não me replique. Você não é feliz, – continuou mudando o tom; por mais que faça, eu vejo que você passa a vida sem gosto. Venha cá, diga-me com franqueza, tem inclinação a alguém? Se tem, confesse, que eu mando procurar a pessoa.
– Não tenho.
– Não? Pois é justamente o que nos serve. Não precisa pôr escritos no coração; conheço um bom inquilino...
Maria Benedita voltou-se de todo para ela, com os lábios entreabertos e os olhos escancarados. Parecia recear da proposta ou ansiar por ela. Dona Fernanda, não atinando com o verdadeiro estado da amiga, pegou-lhe na mão primeiro, e pediu que lhe dissesse tudo. De força que amava a alguém, era claro, via-se-lhe nos olhos, cumpria confessá-lo, instava, rogava, – intimaria, se preciso fosse. A mão de Maria Benedita esfriara, os olhos cavavam o chão, e, por alguns instantes, nenhuma delas disse nada.
– Vamos, fale, repetiu Dona Fernanda.
– Não tenho que dizer.
Dona Fernanda fazia gestos de incredulidade[117]; apertava-a cada vez mais, passou-lhe a mão pela cintura, e ligou-a muito a si; disse-lhe baixinho, dentro do ouvido, que era como se fosse sua própria mãe. E beijava-a na face, na orelha, na nuca, encostava-lhe a cabeça ao ombro, acarinhava-a com a outra mão. Tudo, tudo, queria saber tudo. Se o namorado estava na lua, mandaria buscá-lo à lua, – fosse onde fosse, – exceto no cemitério, mas, se estivesse no cemitério, dar-lhe-ia outro muito melhor, que faria esquecer o primeiro em poucos dias. Maria Benedita ouvia agitada, palpitante, não sabendo por onde escapasse, – prestes a dizer, e calando a tempo, como se defendesse o seu pudor. Não negava, não confessava – mas, como também não sorria, e tremia de comoção, era fácil adivinhar meia verdade, ao menos.
– Mas então não sou sua amiga, não tem confiança em mim? Faça de conta que sou sua mãe.
Maria Benedita pouco mais resistiu; gastara as forças e sentia a necessidade de revelar alguma coisa. Dona Fernanda escutou-a comovida. O sol vinha já lambendo as cercanias do banco, não tardou que lhes trepasse aos sapatos, à barra dos vestidos e aos joelhos; mas nenhuma deu por ele. O amor as absorvia; a exposição de uma tinha para a outra um enlevo raro. Era uma paixão não sabida, não compartida, não adivinhada; paixão que ia perdendo de índole[118] e de espécie para se converter em adoração pura. A princípio, quando ela via a pessoa amada, passava por dois estados mui diversos, – um que não podia definir, alvoroço, tonteira, pancadas no coração, quase um desmaio; o segundo era de contemplação. Agora era quase que só este. Tinha chorado muito, consigo, perdera noites e noites de saudades; pagou caro a ambição das suas esperanças. Mas não perderia nunca a certeza de que ele era superior a todos os demais homens, um ente divino, que, ainda não fazendo caso dela, mereceria sempre ser adorado.
– Bem, disse Dona Fernanda, quando a amiga se calou de todo. Vamos ao essencial, que é não ficar penando à toa. Não, queridinha, isto de adorar a um homem que não faz caso da gente, é poesia. Deixe-se de poesia. Olhe que só você perde no negócio, porque ele casa com outra, os anos passam, a paixão monta na garupa deles, e um dia, quando você menos pensar, acorda sem amor nem marido. E quem é esse bárbaro?
– Isso não digo, respondeu Maria Benedita, levantando-se do banco.
– Pois não diga, acudiu Dona Fernanda, pegando-lhe nos pulsos e fazendo-a sentar nos seus joelhos. A questão principal é casar; – não podendo ser com esse será com outro.
– Não, não caso.
– Só com ele?
– Nem sei se com ele, respondeu Maria Benedita, depois de alguns instantes. Gosto dele, como gosto de Deus, que está no céu.
– Virgem Santíssima! Que blasfêmia[119]! Duas blasfêmias, menina; a primeira é que não se deve amar a ninguém como a Deus, – a segunda é que um marido, ainda sendo mau, sempre é melhor que o melhor dos sonhos.
[114] Pessoas nascida no Rio Grande do Sul; gaúcha.
[115] A pele fina e delicada e do rosto.
[116] Pessoa adulta que não se casou, conhecido como “solteiro“..
[117] Aquele que não acredita em algo ou alguém.
[118] Modo de ser de um ser humano desde seu nascimento; popularmente seu o “gênio“ de alguém;
[119] Proferir palavras ofensivas e insultantes contra uma pessoa ou um objeto dignos de respeito.
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