Quincas Borba · Machado de Assis
Capítulo XVI
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–Quincas Borba! Quincas Borba! eh! Quincas Borba! bradou[31] entrando em casa.
Nada de cachorro. Só então é que ele se lembrou de havê-lo mandado dar à comadre Angélica. Correu à casa da comadre, que era distante. De caminho acudiram-lhe todas as ideias feias, algumas extraordinárias. Uma ideia feia é que o cão tivesse fugido. Outra extraordinária é que algum inimigo, sabedor da cláusula e do presente, fosse ter com a comadre, roubasse o cachorro, e o escondesse ou matasse. Neste caso, a herança... Passou-lhe uma nuvem pelos olhos; depois começou a ver mais claro.
– Não conheço negócios de justiça, pensava ele, mas parece que não tenho nada com isso. A cláusula supõe o cão vivo ou em casa; mas se ele fugir ou morrer, não se há de inventar um cão; logo, a intenção principal... Mas são capazes de fazer chicana[32] os meus inimigos. Não cumprida a cláusula...
Aqui a testa e as costas das mãos do nosso amigo ficaram em água. Outra nuvem pelos olhos. E o coração batia-lhe rápido, rápido. A cláusula começava a parecer-lhe extravagante. Rubião pegava-se com os santos, prometia missas, dez missas... Mas lá estava a casa da comadre. Rubião picou o passo; viu alguém; era ela? era, era ela, encostada à porta e rindo.
– Que figura que o senhor vem fazendo, meu compadre? Meio tonto, jogando com os braços.
[31] Dizer aos gritos.
[32] Ato de impedir ou dificultar o andamento de um processo, com argumento ou questão irrelevante; ato de má-fé.
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