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Memórias de Marta · Júlia Lopes de Almeida

Capítulo XII

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Casei-me uma bella tarde de verão. Poucas pessoas assistiram ao acto, além de minha mãe, do Sr. Jeronymo e da mulher, que foi minha madrinha.

Despedindo-se, d. Annita disse-me num abraço:

— Auguro-lhe muita felicidade; o Sr. Miranda parece ser um optimo homem!

Passámos uma semana feliz; meu marido consagrava-me uma affeição serena; era delicado e bom. Nunca no meu lar soaram as alegres e sonoras phrases dos noivos apaixonados, nem tampouco houve nunca um arrufo.

Minha mãe tinha uma expressão de ventura, por tal forma manifestada no seu rosto muito magro e pallido, que me commovia. Quando passava privações, fome e frio, trabalhando sempre para sustentar-me, concentrava na tristeza o seu coração; na alegria, porém, abria-o aos olhos de toda a gente!

A queixa é uma fraqueza, a pegada impressa no chão lodoso da terra; o silencio soffredor é o vôo, no azul cândido do infinito.

A minha santa, a minha inegualavel amiga, atravessou todas as misérias sustendo-se sempre nas azas. E’ que naquelle corpo estreito, fraquissimo, doente, havia uma alma forte, um coração sublime!

A minha maior felicidade consistiria em remuneral-a com largos juros de todos os sacrifícios feitos por mim, por isso preparava-lhe um resto de vida plácido e feliz; mas coitadinha! vendo-me amparada, com um auxilio certo e honrado, deixou-se descançar da grande lucta que havia tantos annos travara com a morte!

Singular organisação a sua! Emquanto dependi do seu trabalho, da sua vida, da sua protecção, movia-se sempre activa, desde a madrugada até á noite, numa lida cruel; agora, que não se julgava precisa, deixou cahir os braços e confessou-se exhausta! E’ que toda a sua vida tinha sido só artificio, força de vontade, nada mais.

Foi no oitavo dia do meu casamento que ella adoeceu; estávamos ao jantar e vimol-a cahir para o lado com uma syncope. Quiz soccorrel-a, não pude: tinha as pernas muito tremulas e sem acção; gritei, gritei muito, com o rosto banhado em lagrimas e o corpo innundado de um suor afflictivo e frio. Meu marido tomou-a nos braços e, commovido, levou-a para a cama, num quarto próximo.

Minha mãe voltou depressa a si, chamou-me, procurando animar-me e convencer-me de que aquillo não era coisa de cuidado! mas veiu o medico, e, menos caridoso, affirmou-me que a doente soffria de uma lesão antiga e que se admirava sinceramente de que vivesse ainda!

— Aquelle coração está completamente arruinado ha longos annos; e podemos considerar como um milagre tamanha resistência a tão profundo mal. Aquella senhora tem sido de aço, realmente!

Eu ouvia-o tremula, encostando-me á parede para não cahir. Meu marido fez-lhe notar a minha perturbação; elle lamentou-me e explicou que era de seu dever prevenir-nos para qualquer emergência.

Voltei cambaleante para o quarto da minha adorada; ella adormecera, sob a acção da morphina injectada nos seus braços nus, muito frios, pendentes por fora da roupa.

Desde então não me arredei do seu lado, assistindo ao medonho desenlace d’aquella vida de martyr. A’s vezes, com as faltas de ar, parecia morrer; ficava roxa, depois pallida; inclinava o corpo para a frente e com a respiração cortada, o rosto transtornado pela agonia, a fronte banhada de suor, os braços gélidos, olhava-me e sorria.

As crises succediam-se; as pernas tinham-lhe inchado muito e não podia andar. Passava dia e noite numa poltrona, curvada para a frente sobre as almofadas.

Um dia chamou-me para bem perto, afagou-me com as mãos arredondadas pela inchação, contemplou-me com amor, fixa e demoradamente; depois, estendeu-me os lábios tintos de uma côr violacea, beijou-me e fez-me signal para que eu sahisse; attonita, sahi — e ella expirou.

Dei uma volta pela sala, inconsciente, obedecendo á vontade d’aquella santa.

Voltei: encontrei-a reclinada para traz, sobre o espaldar da cadeira, serena, adormecida; approximei-me mais, inclinei-me para ella e comprehendi a horrível verdade — estava morta!

Meu marido entrara atraz de mim e amparou-me nos braços; tive ataques violentos, toda a tarde, rasgando o vestido, mordendo-me, batendo com a cabeça na cabeceira da cama e nas paredes, cerrando os dentes a todos os remédios e alimentos, num desespero atrocíssimo!

A’s Ave-Marias levantei-me e fui postar-me ao lado da minha adorada morta; não me arredei d’alli, de joelhos entre o leito e a janella aberta por onde entrava a viração perfumada da noite semeada de estrellas.

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