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Memórias de Marta · Júlia Lopes de Almeida

Nhá Tudinha

13 de 15

As guabirobas estão cheias de flores, erguendo entre a verdura os seus cândidos pennachos côr de neve; a mangaba está com fructa, a sua fructa ardente e cáustica: e aqui e acolá põem manchas roseas e vermelhas sobre a gramma dos campos a flor da jalapa, grande como uma rosa, e a bella Paratudo, da côr do fogo.

A madrugada rompe, doirando a vastidão interminável do céu. Voam pássaros, piando alto; as tesouras agitam no ar as pennas das suas longas caudas elegantes, os tucanos buscam os ninhos dos innocentes bem-te-vis numa insaciável gana, as patativas despretenciosas, da côr triste da terra, cantam deliciosamente, e os gaviões pardos, entre aves de outras espécies que se cruzam, abrem no espaço as suas azas, com serenidade.

Pelas tristes paizagens paulistas, longos campos cobertos de arbustos rasteiros, onde os cajus, as maçãs e o araçá dão espontaneamente em pés de meio metro de altura, e os juazeiros sacodem as suas florinhas mimosas por esses grandes terrenos despovoados e extensos, o cupim constroe as suas casas em monticulos de terra, e voejam borboletas grandes, de um azul vivo resplandecente.

Raiava a madrugada e erguia-se do seio da terra um cheiro agreste e bom.

Por uma trilha estreita, cortando a herva com uma fina lista roixa, caminha um caipira moço, com o cabello escorrido e negro, cahido nos hombros, a calça arregaçada, a camisa aberta no peito, e na cinta a faca de ponta numa bainha de couro. Alto, musculoso, imberbe, elle tem os movimentos decididos, o andar direito e apressado. Deante d’elle estende-se, sempre verde, num declive suave, a longa planície descoberta, e ao longe, muito longe, em um ponto azulado, nublado pela distancia, a sua vista de camponio forte descortina a cidade de Pirassununga.

Elle tinha dito á nhá Tudinha que esperasse ao alvorecer, perto do rio das Pedras... e já ouvia o soluçar da água cantando num ritornello a sua monótona e compassada melodia. Chegando ao ponto indicado, viu com pena que ella não estava lá.

— Nhá Tuda!.... Nhá Tudinha! gritou elle.

Ninguém lhe respondeu. A água cahia em cachoeira, de pedra em pedra, rumorejante; e na margem, uma palmeira esguia, testemunha solitária d’aquella scena, agitava á viração a sua copa estrellada num movimento negativo, como se dissesse ao rapaz:

— D’aqui do alto eu vejo a estrada toda; a Tudinha não vem!

O caipira assobiou três vezes, nuns trillos agudissimos. Era um signal convencionado; poz-se depois á escuta: respondeu-lhe outro trillo, mais grave, mais limpido, comquanto mais fraco.

Elle levantou os hombros, impaciente: era uma ave que lhe respondia entre a folhagem do arvoredo visinho.

Esperou muito tempo; como ella não chegasse, elle voltou. Mas, á tarde, não pode resistir e tornou ao rio das Pedras, com um lenço de chita cheio de jabuticabas colhidas por elle mesmo na matta. Languidamente encostada á palmeira da margem, a Tudinha esperava-o. Trigueira, com os cabellos negros cahidos em duas longas trancas desatadas, que lhe emmolduravam o rosto e lhe iam até quasi aos pés, o vestido desbotado, redondo, os pés descalços, as duas mãos encruzadas sobre a cabeça; ella parecia meditativa e recebeu o namorado com tristeza.

— Eu vim dizê adeus p’ra mêcê, começou elle, nóis vamo tudo juncto cum seu João....

— É-á! gente! quando?!

— Nóis vai simbòra aminhã dê minhãsinha....

— Quando é que mêcê vorta, seu Tônico?

— Passando esta semana, é na outra. Desde já hoje que eu vim cá, mais mêcê não tava ahi não....

— Eu fui num baque em casa dê padrinho; mais despois de ponhar lá os trem que mãe mandou, eu esperei mêcê....

— Eu tava maginando que mêcê não queria sabe mais dê mim....

— Chó! que sperança!

— Então é veldade que seu pae, nhô Quim, qué casá mêcê?

Ella fez um mochocho, abaixando affirmativamente a cabeça.

— Como nóis sê ama, nóis não se arreceia di nada, não é ansim? Eu vorto logo, e áhi nòis casemo.

Ella sentou-se silenciosa na gramma, desatou o lenço de chita da trouxa e começou a tirar jabuticabas que ia comendo de vagar.

— Mecê sabe que eu sou um sacudido!... se mecê casa cum tá nhô Berto, eu mato elle!

Como o caipira se exaltasse, a Tudinha estremeceu, e dos seus olhos negros rolaram lagrimas grossas.

— Tá vendo só! proquê é que mêcê tá chorando?

— Proque mêcê tá que nem doido; respondeu ella disfarçando a sua commoção.

— Não chore não!

Ella levantou-se e ergueu do chão o challe, que poz na cabeça.

— Então mêcê já vai já!?

— Dé certo!

— Antão-se adeus.

— Adeus. Venha logo, viu?

Passou-se uma semana, e o pae da Tudinha convidou vários amigos para assistirem ao casamento da filha com o nhô Berto, homem sério e bem visto no logar.

A Tuda, diminutivo caseiro de Gertrudes, apresentou-se muito triste, de vestido branco, bem engommado, brincos de ouro e laços azues. Tinham de ir a cavallo, porque a capella de Santa Cruz das Palmeiras ficava a uma légua do sitio onde moravam. Noivos e convidados seguiram pela estrada a trote largo. Riam todos. Só a noiva ia pensativa, de rosto pallido e olhos pisados. A cerimonia correu sem estorvo. Na villa gabaram a belleza da noiva. Voltaram alegremente, só a Tudinha continuava pensativa.

Na frente do prestito galopavam dois convidados, que ao chegarem em frente á casa dos noivos deram para o ar os tiros de garrucha do estylo. Ao jantar houve vinho e comida á farta: o famoso dourado do Mogyguassú, com arroz de forno, leitão assado, gallinhas com palmito e mais gelêa e ovos queimados.

A’ noitinha os violeiros, meio cá meio lá, romperam a cantar versos no terreiro, mas um maldicto chuvisco deu de cahir, e entraram todos para a sala térrea do nhô Quim.

A mãe da noiva accendeu um lampeão, emprestado pelo fazendeiro, seu Carrinho tocou sanfona e as caipiras começaram a dançar, muito sérias, com o lencinho na mão.

Eram já nove horas, quando de fora, do meio do escuro, alguém chamou o noivo.

Elle sahiu, e os demais continuaram a cantar e a rir.

A Tudinha, a um canto, ouvia a prosa e a musica, com o rosto pousado nas mãos e os cotovellos fincados nos joelhos.

De repente notaram a falta do Berto.

— Uê, gentes! exclamou um caipira, onde que está nhô Berto?!

— Carece de vigia lá fora, respondeu outro; elle sahiu faiz já um pedaço.

— Nhô Berto!.... nhô Berto!.... nhô Berto! começaram a gritar da porta; não ouvindo resposta, sahiram e, a pequena distancia de casa, tropeçaram no corpo do noivo, assassinado e estendido no chão.

Transportaram-n’o para dentro, cheios de pavor. Quem seria o assassino? Porque não gritara o infeliz, pedindo soccorro?

— Tarveiz... que os grito delle fosse abafado pelas nossa vóiz, lembrou um violeiro: e os outros repetiram soturnamente:

— Tarveiz.

Juraram depois vingar o morto, dispostos a trabalhar até descobrirem o infame que o matara. Rodeavam a viuva num circulo estreito, murmurando com suspiros.

— A pobre! A coitada! não fique patife não, nhá Tudinha! crie córáge!

E affirmavam-lhe que haviam de vingar o Berto, expondo projectos verdadeiramente bárbaros:

Um amigo do assassinado picaria o assassino em postas mais pequenas do que as unhas; um outro propunha-se a furar-lhe os olhos, e todos, em um pacto de vingança terrível, juravam monstruosidades sobre o cadáver esfaqueado de Berto.

Tudinha, muito pallida, não vertia uma lagrima; olhava para o marido com os olhos seccos e tinha no rosto uma expressão de quem reflecte com infinita amargura.

O pae então, para a consolar, fallou-lhe em ir elle também pelo matto á busca do malvado, que arrastaria amarrado até aos seus pés, para que ella o visse morrer crivado de facadas.

— Vamos campiá elle, vamos, vamos! gritaram todos.

A Tudinha, estremecendo á tal resolução, disse alto, com voz áspera mas decisiva:

— Não é pérciso! Eu sei quem é!

— Quem é?! quem é?! perguntavam em coro; mas a viuva calou-se, deixando pender a cabeça sobre o peito.

Interrogavam-n’a em vão, ora de uma maneira supplice, ora de uma maneira ameaçadora.

A mãe chorava, rogando-lhe que dissesse a verdade; as irmãs agarravam-se-lhe ás saias, fazendo egual pedido; ella olhava como indifferente para aquelle grupo.

O pae, cançado de a ver obstinar-se no silencio, puxou-a para junto do morto e prometteu amaldiçoal-a se não a ouvisse pronunciar o nome do assassino.

A Tuda olhou para o morto e não respondeu. Exasperado, o pae deu-lhe uma bofetada; houve entre os circumstantes um murmúrio, mas a viuva continuou silenciosa.

— Mêcê falla ou não falla?!....

Como a filha não fallasse, o caipira, vendo-se desrespeitado, ferido no seu amor próprio, tornou a esbofeteal-a á vista de toda a gente e sacudiu-a pelos cabellos, dando-lhe pontapés.

Tudinha soffreu tudo muito callada. O velho recrudesceu de furor; dava-lhe com um chicote nas costas, nas mãos, na cara. E voltando-se para os amigos, disse furioso e convincto:

— Ella tanto ha de apanha, que até ha de conta tudo!

Endireitando o busto, a Tudinha respondeu com arrogância e desdém:

— Chó! que sperança!

— Antão-se, diabo, elle ha de fica sem castigo?

— Não.... respondeu a Tudinha a meia voz.

Temendo a violência do pae, alguns amigos levaram-n’o dalli, deixando a Tuda em companhia do morto.

Mal tinha raiado a madrugada, quando a viuva, sacudindo-se dos braços da mãe e das irmãs, sahiu sosinha para Pirassununga. De lá voltou com uns soldados e foi bater á porta da casa do Antonico.

O sol já batia com força nas paredes de taipa, e uma cigarra estridulava no sapé do telhado.

— Nhô Tunico? abra a porta!

Ao som d’aquella voz doce, o Tunico não hesitou — e escancarou a casa. Os soldados prenderam-n’o, e elle, aturdido, não negou o crime.

Tudinha assistiu ao interrogatório, extremamente pallida, mas firme, e fixando no rosto do namorado os seus bellos olhos negros....

Depois, assassino e soldados sahiram. Tunico levava as mãos amarradas, para maior segurança. Caminhavam a pé. Tudinha acompanhou-os até longe, chorando muito. Ao separarem-se, elle deitou-lhe um olhar indefinivel, cheio de paixão e de ódio. Ella pediu licença aos guardas para dizer uma palavra ao criminoso: desejava contar-lhe o que se passara na véspera, convencel-o de que seria morto pelos amigos do Berto se ficasse alli; que ella o denunciava para o livrar dos outros que o picariam em postas miúdas, que lhe furariam os olhos, e também porque era justa e julgava de seu dever punil-o, comquanto soffresse muito com isso... muito... muito!

A Tudinha quiz dizer essas cousas, mas não pôde, nem as saberia explicar; ajoelhou-se, chorando, aos pés de Tunico, que se affastou d’ella sem a ter ouvido. E o caso é que, quando o criminoso entrava na cadeia da cidade, a Tudinha, rolando num declive por entre os cândidos pennachos côr de neve das guabiróbas floridas, mergulhava pesadamente no ponto mais fundo do rio.

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