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Memórias de Marta · Júlia Lopes de Almeida
L’embarras du choix
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Estou correcta.... unhas polidas, cabello frisado... dentes bem claros... deixa-me agora vestir o meu vestido de rendas brancas.... O de rendas ou o azul? Alberto gosta de me ver de azul... mas... não; eu hoje prefiro o de rendas; a renda é o que, decididamente, a moda inventou de mais elegante e seductor para as nossas toilettes... Rendas brancas ou rendas negras, que coisa ha mais distincta? E, é verdade, por que não me hei de vestir de preto? Tenho ali aquelle bello ramo de cravos vermelhos para o cinto... mas o preto é luctuoso e eu estou contente! Depois... Alberto não gosta de me ver de escuro... Vá lá, visto mesmo o.... realmente não sei qual me irá melhor!... Carolina!
— A senhora chamou?
— Sim; olha cá, qual é o vestido que na tua opinião me vae melhor?
— Oh! minha senhora, eu não sei... todos lhe vão bem.
— Não é isso que eu pergunto, mas qual entre todos é mais elegante?
— O encarnado vae-lhe a matar....
— Não, não! o encarnado é muito vistoso... tem uma côr grosseira...
— Então o azul!
— O azul?...
— Se a senhora quer que lhe falle com franqueza, eu ainda gosto mais do cinzento.
— Esse está muito usado.
— Então o côr de rosa.
— E’ impróprio...
— O roxo?
— Tem as mangas muito estreitas!
— Nesse caso... só se a senhora vestisse o bordado.
— Qual é?
— O que tem muitos vidrilhos.
— Ah! não! é muito pesado.
— Pois não sei qual ha de ser.... E’ verdade! o preto!
— O preto é triste. O dia está lindíssimo e quente. Quero um vestido leve. Não te lembras de outro?
— Lembrei-me mesmo neste momento do de xadrez!
— Ora! um vestido de viagem!
— Sim... mas é bonito.
— Outro!
— O havana.
— Não me falles em vestidos de lã!
— A h! a senhora quer de seda!... O riscado?
— Não!
— O creme?
— Não!
— Eu..... sim; elles são tantos!
— Por que não citaste o branco de renda?
— É exacto. É verdade que...
— Que, o que?
— Que é que não tem lá muita graça.... E depois, não sei, parece-me impróprio.... a senhora é viuva....
— Basta! não lhe perguntei isso; vá-se embora. Espere! veja que horas são.
— Quatro e meia.
— Tão tarde! Chegue depressa á casa de Mme. Clemence, e diga-lhe que venha immediatamente fallar-me.
Bem, enquanto a criada vai chamar a modista, deixa-me escrever ao Alberto.
“Meu Alberto. — Uma enxaqueca importuna obriga-me a estar hoje só: venha jantar commigo depois d’amanhã. — Sua, Mathilde.”
Maldito dia! Daqui a uma hora eu estaria tão alegre ao lado d’elle! A que miséria cheguei.... não ter um vestido que vestir! Aquella idiota da Carolina acha desgracioso o de rendas. Por que hei de eu dar importância á opinião de uma criada?! estúpida! o que é certo, é que o vestido é lindo! diz a tola que não é próprio e é talvez por isso que eu não o visto. Ha singulares approximações, muitas vezes, dos espiritos brutos com os espíritos finos. Pôde ser que Alberto não goste também de me ver com vestido branco..... todo branco! E’ a côr das noivas.... das virgens..... a côr immaculada, e eu sou viuva!
Sou viuva, mas tenho vinte annos, e não amei nunca o homem com quem me casaram....
Esta formula de: “com quem me casaram” é já muito gasta; terei o cuidado de não dizer assim deante de Alberto. A verdade é que, só agora é que eu sinto uma alvorada no meu coração, é que raiou no meu peito o bemdicto sol do amor! Sou viuva! mas, que importa? sou moça, amo, sou feliz e gosto de me fazer bonita.... Depois, não quero ser hypocrita; acabou-se! Guardo as cores sombrias para quando tiver setenta annos. Aos vinte, quando se é rica e venturosa, devemos mostrar na toilette as cores que temos n’alma!
Estou farta de ouvir que a obrigação da mulher na sociedade é ser bella. Bella sem affectação, pelo menos apparentemente. Ora eu tenho olhos brilhantes, faces rosadas, cabellos côr de ouro, estou na plena juventude, e só porque sou viuva hei de andar de negro como os corvos, eu que amo as flores e a volubilidade como os irisados colibris?!
O maçador do meu padrinho dizia sempre na sua abominável rhetorica:
— “A sociedade! palavra terrivel e complexa, onda negra feita de preconceitos, ódios e invejas, que anda a rolar por este mundo, em toda a parte egual, sem lavar nunca os corações viciosos e ennodoando sempre as reputações innocentes!”
Dizia-me isto aconselhando-me todavia a que a respeitasse. Mas meu padrinho morreu, e hei de eu, que detesto a tal sociedade, pertencer-lhe exclusivamente, dar-lhe satisfação dos minimos actos da minha vida, pol-a ao corrente do que vejo, do que penso, do que faço?! Hei de, para satisfazel-a, enfronhar-me sempre em preto, roixo ou marron, usar chapéos modestos, de cores tristes? E será com isso que lhe hei de grangear attenções e respeito? Uma toilette clara, um chapéo de fôrma audaciosa bastarão para quebrar-me o pedestal em que a honra da minha familia me collocou? E serei eu tão tola, que me curve a essas miudezas e me submetta a tão parvos preconceitos? Por Deus; não! A moda foi inventada para o capricho das mulheres, e eu sou caprichosa! A minha tia Gertrudes dizia que eu era a futilidade ligada á indecisão! Mas a tia Gertrudes era uma solteirona, chegada ao tempo em que o methodo e a commodidade constituem os únicos prazeres da vida! Por isso, vi-a sempre usar as mesmas cores e os mesmos chalés; só para não se dar ao trabalho de escolher outros! Pobre tia! Censurava-me por eu gostar de alcaparras, espargos e trufas, precisamente porque o seu estômago doente não lhe permittia comel-as também! Oh! não quero chegar a velha. A velhice é uma degradação, desde que não nos fique um pouco de espirito! A tia Gertrudes, coitada, não lhe ficara nem siquer a bondade, que é também, depois do espirito, o único perfume que nos pôde attrahir para os velhos! Ella não sabia perdoar!
Neste mundo quem não sabe perdoar não pode ser bem querido; todos peccamos, precisamos todos de indulgência! Ah! tia Gertrudes! se do outro mundo tu me vês, fica sabendo que a indecisão passou, desde que se não trate de escolher toilette para agradar a Alberto; mas, que o que tu denominavas futilidade.... isso quero eu commigo, enquanto tiver dinheiro e amor aos trapos, como intitulavas os meus mais ricos vestidos!
Sinto passos.... lá vem a Clemence!
— Obrigada por ter vindo tão promptamente: mandei chamal-a para perguntar-lhe se me pôde fazer um vestido para amanhã.
— Oh! oui, de que côr e que étoffe?
— Côr e fazenda novas!
— Verde?
— Já tenho.
— Violeta?
— Já tenho!
— Torre Eiffel?
— Já tenho.
— Chaudron?
— Já tenho!
— Cizento?
— Já tenho!
Tenho de todas as cores e de todos os feitios; quero que me invente uma coisa nova completamente nova! que seja eu a primeira a usar.... comprehendeu bem?
— Parfaitement! ah! eu servirei madame! Vestido de tule heliotrope, enfeitado de fitinhas estreitas, verdes.
— Que disparete!
— Non gosta? ah! est très gentil!
— Deus meu! não me comprehendeu! Mme. Clemence! Eu tenho o espirito insaciável em questões de modas! Tudo que haja ha dois dias já não me serve! Uma toilette original, Mme. Clemence! uma toilette nova, novíssima! Invente!
— Em que gênero quer?
— Ora, em que gênero!
— Bien! je sais! amanhã ás quatro horas du soir eu mando trazer seu vestido. Mme. ha de ficar très contente! au revoir!
— Mme. Clemence, adeus!
— Carolina!
— Minha senhora?
— Que horas são?
— Quatro.
— Mme. Clemence ainda não mandou o vestido?
— Acaba de chegar.
— Dá-m’o cá; já o viste?
— Já.
— Que côr tem?
— Tem uma côr assim como a de seus cabellos!
— E’ loiro?!
— E’.... eu não sei.... veja-o, minha senhora, olhe, aqui o tem!
— Decididamente a Clemence está doida!
Que uniformidade horrorosa! Tens razão, Carolina, é quasi da côr dos meus cabellos! Dá-me o espelho! Perfeitamente! é de um amarello cendré! Onde foi o diabo da mulher inventar semelhante côr!?
— Pois olhe! hontem, quando a senhora lhe disse que inventasse ella uma côr, eu julguei isso impossível! O que as francezas não façam, é certo que ninguém mais fará!
— Cala-te! Devolvo-lhe o vestido; está muito carregado! Da-me agora o meu de rendas, o branco, e o adereço de pérolas.
As rendas e as pérolas são, decididamente, o que a moda inventou de mais seductoramente galante para o nosso uso!
— Aqui está tudo, minha senhora! Mando então o outro vestido á modista?
— Não, não, deixa-o; os vestidos nunca são demais!
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