Bem-vindo de volta

Entre com o seu email

Ao continuar você concorda com nossos Termos e Condições e Política de Privacidade

Esqueceu a senha? Resetar
Não tem conta? Criar conta

Criar conta

Crie sua conta para salvar seu progresso

Ao continuar você concorda com nossos Termos e Condições e Política de Privacidade

Prefere ler com marcador de progresso ou baixar o livro?

Memórias de Marta · Júlia Lopes de Almeida

L’embarras du choix

15 de 15

Estou correcta.... unhas polidas, cabello frisado... dentes bem claros... deixa-me agora vestir o meu vestido de rendas brancas.... O de rendas ou o azul? Alberto gosta de me ver de azul... mas... não; eu hoje prefiro o de rendas; a renda é o que, decididamente, a moda inventou de mais elegante e seductor para as nossas toilettes... Rendas brancas ou rendas negras, que coisa ha mais distincta? E, é verdade, por que não me hei de vestir de preto? Tenho ali aquelle bello ramo de cravos vermelhos para o cinto... mas o preto é luctuoso e eu estou contente! Depois... Alberto não gosta de me ver de escuro... Vá lá, visto mesmo o.... realmente não sei qual me irá melhor!... Carolina!

— A senhora chamou?

— Sim; olha cá, qual é o vestido que na tua opinião me vae melhor?

— Oh! minha senhora, eu não sei... todos lhe vão bem.

— Não é isso que eu pergunto, mas qual entre todos é mais elegante?

— O encarnado vae-lhe a matar....

— Não, não! o encarnado é muito vistoso... tem uma côr grosseira...

— Então o azul!

— O azul?...

— Se a senhora quer que lhe falle com franqueza, eu ainda gosto mais do cinzento.

— Esse está muito usado.

— Então o côr de rosa.

— E’ impróprio...

— O roxo?

— Tem as mangas muito estreitas!

— Nesse caso... só se a senhora vestisse o bordado.

— Qual é?

— O que tem muitos vidrilhos.

— Ah! não! é muito pesado.

— Pois não sei qual ha de ser.... E’ verdade! o preto!

— O preto é triste. O dia está lindíssimo e quente. Quero um vestido leve. Não te lembras de outro?

— Lembrei-me mesmo neste momento do de xadrez!

— Ora! um vestido de viagem!

— Sim... mas é bonito.

— Outro!

— O havana.

— Não me falles em vestidos de lã!

— A h! a senhora quer de seda!... O riscado?

— Não!

— O creme?

— Não!

— Eu..... sim; elles são tantos!

— Por que não citaste o branco de renda?

— É exacto. É verdade que...

— Que, o que?

— Que é que não tem lá muita graça.... E depois, não sei, parece-me impróprio.... a senhora é viuva....

— Basta! não lhe perguntei isso; vá-se embora. Espere! veja que horas são.

— Quatro e meia.

— Tão tarde! Chegue depressa á casa de Mme. Clemence, e diga-lhe que venha immediatamente fallar-me.

Bem, enquanto a criada vai chamar a modista, deixa-me escrever ao Alberto.

“Meu Alberto. — Uma enxaqueca importuna obriga-me a estar hoje só: venha jantar commigo depois d’amanhã. — Sua, Mathilde.”

Maldito dia! Daqui a uma hora eu estaria tão alegre ao lado d’elle! A que miséria cheguei.... não ter um vestido que vestir! Aquella idiota da Carolina acha desgracioso o de rendas. Por que hei de eu dar importância á opinião de uma criada?! estúpida! o que é certo, é que o vestido é lindo! diz a tola que não é próprio e é talvez por isso que eu não o visto. Ha singulares approximações, muitas vezes, dos espiritos brutos com os espíritos finos. Pôde ser que Alberto não goste também de me ver com vestido branco..... todo branco! E’ a côr das noivas.... das virgens..... a côr immaculada, e eu sou viuva!

Sou viuva, mas tenho vinte annos, e não amei nunca o homem com quem me casaram....

Esta formula de: “com quem me casaram” é já muito gasta; terei o cuidado de não dizer assim deante de Alberto. A verdade é que, só agora é que eu sinto uma alvorada no meu coração, é que raiou no meu peito o bemdicto sol do amor! Sou viuva! mas, que importa? sou moça, amo, sou feliz e gosto de me fazer bonita.... Depois, não quero ser hypocrita; acabou-se! Guardo as cores sombrias para quando tiver setenta annos. Aos vinte, quando se é rica e venturosa, devemos mostrar na toilette as cores que temos n’alma!

Estou farta de ouvir que a obrigação da mulher na sociedade é ser bella. Bella sem affectação, pelo menos apparentemente. Ora eu tenho olhos brilhantes, faces rosadas, cabellos côr de ouro, estou na plena juventude, e só porque sou viuva hei de andar de negro como os corvos, eu que amo as flores e a volubilidade como os irisados colibris?!

O maçador do meu padrinho dizia sempre na sua abominável rhetorica:

— “A sociedade! palavra terrivel e complexa, onda negra feita de preconceitos, ódios e invejas, que anda a rolar por este mundo, em toda a parte egual, sem lavar nunca os corações viciosos e ennodoando sempre as reputações innocentes!”

Dizia-me isto aconselhando-me todavia a que a respeitasse. Mas meu padrinho morreu, e hei de eu, que detesto a tal sociedade, pertencer-lhe exclusivamente, dar-lhe satisfação dos minimos actos da minha vida, pol-a ao corrente do que vejo, do que penso, do que faço?! Hei de, para satisfazel-a, enfronhar-me sempre em preto, roixo ou marron, usar chapéos modestos, de cores tristes? E será com isso que lhe hei de grangear attenções e respeito? Uma toilette clara, um chapéo de fôrma audaciosa bastarão para quebrar-me o pedestal em que a honra da minha familia me collocou? E serei eu tão tola, que me curve a essas miudezas e me submetta a tão parvos preconceitos? Por Deus; não! A moda foi inventada para o capricho das mulheres, e eu sou caprichosa! A minha tia Gertrudes dizia que eu era a futilidade ligada á indecisão! Mas a tia Gertrudes era uma solteirona, chegada ao tempo em que o methodo e a commodidade constituem os únicos prazeres da vida! Por isso, vi-a sempre usar as mesmas cores e os mesmos chalés; só para não se dar ao trabalho de escolher outros! Pobre tia! Censurava-me por eu gostar de alcaparras, espargos e trufas, precisamente porque o seu estômago doente não lhe permittia comel-as também! Oh! não quero chegar a velha. A velhice é uma degradação, desde que não nos fique um pouco de espirito! A tia Gertrudes, coitada, não lhe ficara nem siquer a bondade, que é também, depois do espirito, o único perfume que nos pôde attrahir para os velhos! Ella não sabia perdoar!

Neste mundo quem não sabe perdoar não pode ser bem querido; todos peccamos, precisamos todos de indulgência! Ah! tia Gertrudes! se do outro mundo tu me vês, fica sabendo que a indecisão passou, desde que se não trate de escolher toilette para agradar a Alberto; mas, que o que tu denominavas futilidade.... isso quero eu commigo, enquanto tiver dinheiro e amor aos trapos, como intitulavas os meus mais ricos vestidos!

Sinto passos.... lá vem a Clemence!

— Obrigada por ter vindo tão promptamente: mandei chamal-a para perguntar-lhe se me pôde fazer um vestido para amanhã.

— Oh! oui, de que côr e que étoffe?

— Côr e fazenda novas!

— Verde?

— Já tenho.

— Violeta?

— Já tenho!

— Torre Eiffel?

— Já tenho.

— Chaudron?

— Já tenho!

— Cizento?

— Já tenho!

Tenho de todas as cores e de todos os feitios; quero que me invente uma coisa nova completamente nova! que seja eu a primeira a usar.... comprehendeu bem?

— Parfaitement! ah! eu servirei madame! Vestido de tule heliotrope, enfeitado de fitinhas estreitas, verdes.

— Que disparete!

— Non gosta? ah! est très gentil!

— Deus meu! não me comprehendeu! Mme. Clemence! Eu tenho o espirito insaciável em questões de modas! Tudo que haja ha dois dias já não me serve! Uma toilette original, Mme. Clemence! uma toilette nova, novíssima! Invente!

— Em que gênero quer?

— Ora, em que gênero!

— Bien! je sais! amanhã ás quatro horas du soir eu mando trazer seu vestido. Mme. ha de ficar très contente! au revoir!

— Mme. Clemence, adeus!

— Carolina!

— Minha senhora?

— Que horas são?

— Quatro.

— Mme. Clemence ainda não mandou o vestido?

— Acaba de chegar.

— Dá-m’o cá; já o viste?

— Já.

— Que côr tem?

— Tem uma côr assim como a de seus cabellos!

— E’ loiro?!

— E’.... eu não sei.... veja-o, minha senhora, olhe, aqui o tem!

— Decididamente a Clemence está doida!

Que uniformidade horrorosa! Tens razão, Carolina, é quasi da côr dos meus cabellos! Dá-me o espelho! Perfeitamente! é de um amarello cendré! Onde foi o diabo da mulher inventar semelhante côr!?

— Pois olhe! hontem, quando a senhora lhe disse que inventasse ella uma côr, eu julguei isso impossível! O que as francezas não façam, é certo que ninguém mais fará!

— Cala-te! Devolvo-lhe o vestido; está muito carregado! Da-me agora o meu de rendas, o branco, e o adereço de pérolas.

As rendas e as pérolas são, decididamente, o que a moda inventou de mais seductoramente galante para o nosso uso!

— Aqui está tudo, minha senhora! Mando então o outro vestido á modista?

— Não, não, deixa-o; os vestidos nunca são demais!

Você terminou Memórias de Marta! 🎉

Que tal escolher a próxima leitura? Separamos alguns livros parecidos aqui embaixo.

Ver resumo e análise do livro

Mais livros de romance

Bem-vindo de volta

Entre com o seu email

Ao continuar você concorda com nossos Termos e Condições e Política de Privacidade

Esqueceu a senha? Resetar
Não tem conta? Criar conta