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Memórias de Marta · Júlia Lopes de Almeida
Prólogo de um romance
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A casa de maternidade de Mme. Levy era muito conhecida no Rio de Janeiro.
A proprietária, mulher ganhadora, abundante de carnes que lhe vestiam o esqueleto em grossos refegos sobrepostos, morava ao fundo, nas dependências do grande casarão. Tinha um filho só, magro e adunco, em que o typo judaico imprimira traços mais vigorosos. Ella era viuva, esperta e calculista, o que não impedia que tivesse de longe em longe algum rasgo de generosidade, acolhendo qualquer mulher pobre a quem fazia o parto e dava a cama e o caldo. Fallava muito alto, ria com alegria, desprezava as dores das parturientes, chamando-as de miseravelmente pequeninas. Trabalhava muito, não queria outra parteira em casa, ia-se contentando com enfermeiras baratas...
Uma tarde, acabava ella a sua laranja, ao jantar, confidenciando ao filho o seu projecto de passar a casa e ir para a França, quando entrou uma enfermeira mulata, na salinha estreita em que os patrões comiam.
— Então, como está D. Henriqueta? perguntou a parteira.
— Continua muito afflicta....
— Lá para as dez horas ficará aliviada...
— O peior é que a Catharina está também com as dores.
— Que! a indigente?!
— Sim, senhora.
— Diabo de mulher, não podia escolher peior occasião! Olha.... o melhor é reunir as duas no mesmo quarto, o cinco. Eu não posso estar ao mesmo tempo em dois logares differentes! D. Henriqueta é rica, mas é sem cerimonia...
— Sim, senhora...
A enfermeira sahiu, e a parteira descascou pachorrentamente outra laranja.
— Hoje temos dança.... Estou com tanta dôr nos quadris!...
O filho não a aconselhou a que chamasse outra parteira; disse com ar ennojado:
— Também, porque foi acolher uma indigente?!
Meia hora depois, Mme. Levy bamboleava o seu enorme corpo entre as duas camas do quarto numero cinco.
O quarto era vasto, com janellas de peitoril. Uma das camas tinha cortinado de filo inglez, grosso e liso; a outra não; era um leito estreito, posto ali ás pressas para a indigente.
Junto á cama de cortinado, D. Henriqueta chorava, rezando alto, de joelhos. Junto da caminha de ferro, a pobre Catharina agüentava as dores em pé, com as costas achatadas de encontro á parede fria, e as mãos cruzadas sobre o ventre enorme.
— Que é isso? Tenha coragem, D. Henriqueta! disse a parteira, fazendo soar as palavras sonoramente.
— Não tenho nada! saia d’ahi! a senhora não sabe o que eu soffro!
— Ora! não tenho eu um filho? E não passam todas as mulheres por isso mesmo?
— Não! isto é castigo! eu vou morrer! eu sei que vou morrer! mereço a morte!
— Qual morrer! veja alli a Catharina como espera com tanta paciência.... castigo o que! daqui a dias chega o seu marido do Rio Grande e ha de ficar todo babão com o seu bebe!
— Qual marido! eu menti! não tenho marido! eu quero-me confessar, porque vou morrer!
A parteira calou-se, attonita.
— Eu também já não tenho marido.... murmurou a Catharina, queixosamente. Morreu ha três mezes de febre amarella....
— Vê D. Henriqueta? Aquella também já não tem marido....
— Mas não tem medo!
— Tenho medo de não ter leite para criar meu filho!...
— Ouve o que ella diz? e a senhora é rica, poderá ter uma ama para a sua creança, objectou a parteira.
— De que me vale, se o pae me abandonou e eu não tenho coragem de voltar para perto de minha boa mãe?...
— Eu já não tenho mãe, e vi morrer três filhos! Tenha paciência.... tornou a Catharina, torcendo-se de dores.
— Não tenho paciência! gritou a outra; e calou-se. Eu já não posso ouvil-as! Quero dizer tudo! Peço-lhe, Mme. Levy! se eu morrer, vá a casa dos meus parentes, que me mandaram para aqui.... Diga-lhes que escrevam a minha mãe participando a minha morte.... mas que não inventem outra causa... tisica, ouviu?
Mme. Levy riu-se e tagarellou, affirmando que ainda haveria de ver a vovó beijar alli mesmo, naquelle quarto, o rosto redondo do netinho.
— Minha mãe não me perdoará!
— Todas as mães perdoam, soluçou a Catharina.
— Quando eu sahi de casa, disse que vinha passear e ver o Rio... mas vim para esconder o meu crime! o meu crime! E os meus parentes, com quem contava, metteram-me aqui... para se livrarem de mim.... infames! Todos são falsos!
— Quando meu marido morreu, fiquei só no mundo... é preciso não se querer mal a ninguém. Ha sempre quem nos ampare!
A parteira zangou-se. D. Henriqueta cahira em um accesso nervoso, debatendo-se com fúria.
Só depois de uma hora conseguiram deital-a.
Era uma moça formosa, muito delicada e franzina. A enfermeira da casa ajudava a parteira, segurando na doente, que mal podia conter.
A Catharina, que tinha, apezar de muito magra e mal tratada, os seus largos quadris de mulher fecunda, mordia em silencio a ponta do lençol, abafando os gritos, já deitada também por ordem da parteira. A outra gritava, gritava, segurando-se nervosamente á enfermeira, maldizendo-se, repetindo a sua historia, desvendando o mysterio de seu amor.
A’ meia noite, depois de uma lucta tremenda com a natureza brutal, nasceu o filhinho da pobre D. Henriqueta.
Mme. Levy levantava-se extenuadissima, com o recém-nascido nos braços; quando a Catharina pediu soccorro, num grito estridulo e doloroso.
A enfermeira riu-se. Nunca se vira cousa egual! Antes de acudir á Catharina, Mme Levy enrolou o filho de D. Henriqueta num cobertor, aos pés da cama, e mandou a enfermeira buscar lá fora um objecto. Depois, gemendo de cansaço, curvou-se para a indigente.
Foi com um movimento de extrema fadiga que a parteira, acabando também de fazer o parto da outra, e já extenuada, quasi sem vista, enrolou o filho da indigente no mesmo cobertor vermelho em que já estava a creancinha, e sentou-se um bocado, com as mãos no ar, esperando a enfermeira.
— Ambos rapazes.... bem. Ao menos estes não passarão nunca por tão bons bocadinhos. Então, agora está contente? perguntou ella alto, voltando-se para a D. Henriqueta. Deve estar! Eu mesma vou escrever a sua mãe. A senhora é rica, poderá até ir viver com o seu filho no estrangeiro, onde ninguém a conheça... e então me dirá se é ou não é feliz, hein? vamos para Pariz? Verá como aquillo é bom... Olhe, o que não é bom, é o cansaço que eu tenho, estou morta de dores! Quer que eu escreva a sua mãe? Que me diz?
A moça não respondeu.
— Dorme?
Mme. Levy curvou-se e escutou. Não lhe ouvindo a respiração, approximou uma vela da cara da moça. Estava morta.
— Ora esta!
O corpo delgado e branco da infeliz repousava serenamente. Porque e como se tinha escapado aquella vida?
Mme. Levy chamou logo gente e exigiu médicos. Queria que a esclarecessem. O parto tinha sido difficil, mas natural. Houve um grande borborinho. A enfermeira, num canto, lavava as duas criancinhas na mesma água, ajudada por uma preta, misturando as camisolas e os cueiros.
Mme. Levy estava louca de raiva contra aquelle caso esquisito, que não sabia explicar! Entrava e sahia do quarto, fallava alto, queria passar a casa a outra tola, que se regalasse com aquellas scenas! morrer-lhe uma creatura nas mãos! sem causa... sem nada! No meio daquelle turbilhão de palavras, ouviu-se a voz triste da indigente Catharina rezar pela morta uma Ave-Maria e dizer depois:
— Mme. Levy?... mostre-me o meu filho, sim?
— Seu filho? mas...
A parteira parou de repente e poz-se a olhar para as crianças. Houve um instante de silencio.
— Então, Mme. Levy?
— As crianças estão promptas, disse a enfermeira, approximando-se.
— Mostre-me o meu! supplicou a Catharina!... Qual é o meu, Mme. Levy?!
— O seu... espere...
— A senhora vacilla?
— Sim.... deixe-me reparar bem... e, depois de uma pausa, disse: qual destes será o della?
A enfermeira encolheu os hombros.
— Meu Deus! eu quero o meu filho! o meu filho!
Catharina quiz levantar-se e exclamava sempre, com as mãos postas:
— O meu filho! o meu filho! eu quero o meu filho! Dêm-me o meu filho!
— Perdoe-me, mulher; mas eu estava tão cançada... espere...
— O meu filho! Pelo amor de Deus, madame, lembre-se!
— Espere... já lhe disse!...
Catharina tinha as mãos crispadas, e olhava como doida para as duas creanças redondinhas e inertes.
A parteira, por mais esforços que fizesse, não distinguia as creanças.
Eram ambas morenas, ambas cabelludinhas, ambas rapazes, ambas com as feições inchadas e confundiveis dos recém-nascidos.
Por fim, para acabar com aquillo, madame Levy resolveu-se a apontar um dos pequeninos.
— O seu... é este.
Mas a pobre Catharina adivinhou a resolução da parteira. O coração saltava-lhe no peito.
— A senhora mente... eu bem vejo que não sabe qual é o meu... e eu quero o meu... e eu quero o meu... o meu... o meu...!
A scena prolongou-se horrivelmente; mostraram por fim as duas creanças á Catharina, dizendo-lhe: “Veja para qual a impelle o seu coração!”
O olhar da infeliz ia desvairado, de uma creança para a outra. O suor humedecia-lhe a testa, correndo em gottas frias; ouvia-se-lhe o coração bater no peito magro. Não conhecia o filho.
A enfermeira lembrou então com a brutalidade de sua ignorância:
— Tire á sorte... todos somos eguaes!
— Não! eu quero o meu filho!
— Então decida-se!... para se mandar o outro para a roda... é tarde... vamos!
A indigente revolveu-se com desespero; as fontes latejavam-lhe; ella pasmou depois o olhar, como perscrutando o seu triste e desamparado futuro... pobre... fraca e viuva...
— Então? tornou a parteira, já zangada, qual das duas creanças toma? Decida-se!
— As duas... murmurou por fim Catharina com um suspiro, abrindo os braços magros.














