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Memórias de Marta · Júlia Lopes de Almeida
Capítulo V
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Os mezes foram correndo. Eu estudava muito, mas, ou pelo esforço intellectual, ou por fraqueza physica, estava sempre nervosa, irritada e magra. A minha preoccupação constante era ser victima de um desastre imprevisto.
Nunca cheguei a casa que não esperasse encontrar minha mãe morta, nunca atravessei uma rua que não imaginasse ser esmagada por um carro, nunca desejei uma viagem que não temesse um naufrágio.
Escondia essas coisas com recato, mas não podia fugir dellas, numa obsessão imperiosissima!
Minha mãe não comprehendia bem o meu mal, então procurava distrahir-me. Eu ia agora raramente á casa da ilhoa. O Manéco perturbava-me; sempre a tremer, muito desmaiado, com as orelhas descabidas para a frente, a cabeça raspada á escovinha, cheia de falhas de cabello, das cicatrizes dos seus trambolhões. Tinha o olhar parado, muito aberto; os ossos pareciam furar-lhe a pelle, franzida e molle, de um branco opilado.
Doia-me vêr aquella pobre criança, cerrando os dentes aos alimentos, sumida dentro da sua velha roupinha, que parecia crescer a cada uma das sacudidelas que elle lhe imprimia.
Uma tarde, tínhamos sahido e voltámos depois das dez horas. Vimos luz no quarto da ilhoa, mas eu soffria de uma enxaqueca tão forte, que nem nos lembramos de indagar a causa daquillo.
Na manhã seguinte, como fosse domingo, não sahi. Fazia frio e eu estava lendo por dentro da janella, emquanto minha mãe preparava o almoço. Vi então passar um caixão de defuncto para a casa da ilhoa.
Estremeci; o caixão pareceu-me de gente grande, e o Manéco, havia muito tempo condemnado, era tão miúdo!... Fui ver.
O quarto da cozinha continuava limpo; somente as gravuras das paredes careciam de reforma. Ao fundo, perto do caixote da loiça, o dono da casa olhava fixamente para o chão, com as mãos pousadas nos joelhos afastados.
A Rita encolhia-se a um canto, com os seus formosos olhos muito abertos, e a Carolina movia o formidável trambolho das suas pernas, agora muito inchadas, tirando roupas de um bahú; enchendo a bacia d’água, incensando a casa.
A porta do tabique estava aberta, e bem em frente, na cama estreita da irmã, o Manéco dormia o ultimo somno, tão magro, tão branco, tão fino, que mal se distinguia nos lençóes.
A ilhoa sentou-se aos pés da cama contemplando o cadáver.
— Quando morreu?! perguntei á Carolina, mostrando-lhe o irmão.
— Hoje de madrugada, já ha muitos dias que elle não conhecia ninguém.... tremia... parecia que estava com um frio!
— Quando nasceu era tão gordo! suspirou a mãe. Todas as vizinhas m’o invejavam... O meu rapaz!
Entretanto, a Carolina lavava o irmão com um panno molhado, e vestia-o com muito cuidado, como se temesse desprender-lhe os braços ou as pernas....
Pesava um abatimento extraordinário sobre aquella gente.
Nenhum grito, nenhum accesso, nenhum ataque perturbou a tristeza grave, a solemnidade d’aquella morte tão esperada e tão triste.... Estavam todos cansados, silenciosos e quietos.
Chegou emfim a hora das despedidas. A Rita beijou o irmão na testa, fechando os olhos, com um leve estremecimento que lhe percorreu o corpo. A Carolina beijou-o na bocca, innundando-o de lagrimas. O pae abençoou-o muito commovido; a mãe então suspendeu nos braços aquelle corpo immovel de uma magreza transparente, e conchegou-o ao peito, como se o quizesse guardar; depois beijou-o longamente, longamente, e foi depol-o no caixão, sem flores, sem um crucifixo, sem nada...
Foi a primeira vez que eu a vi beijar um filho. Tive vontade de chorar; e sahi.
No dia seguinte entrei pallida na aula. A mestra, notando o meu abatimento, disse-me que eu fora nomeada e que principiava a vencer ordenado.
Fiquei logo contente, tão perturbada, que pouco entendi das licções e fui de uma benevolência excessivamente agradável para as minhas discípulas. Olhava impaciente para o relógio, como se o meu olhar impellisse os ponteiros para o desejado ponto! Almejava dar a grande nova a minha mãe.
Eu ia e vinha da escola com duas meninas da minha visinhança, a quem o irmão ia buscar sempre ás três horas; mas logo nesse grande dia o rapazito tardava e eu tinha ímpetos de sahir sósinha! Ao principio deixava minha mãe o ferro e ia levar-me e buscar-me; não queria que eu andasse só; depois travei conhecimento com essas pequenas, filhas de um carpinteiro, um bom homem honesto e franco, que morava no mesmo quarteirão da nossa rua.
A pouco e pouco esvasiou-se a aula, e o filho do carpinteiro, sem se lembrar das irmãs! Fechei as gavetas da mesa, puz-me em ordem de partida.... sahiram as ultimas pessoas, ficamos só as três! Na sala, ainda ha pouco ruidosa, reinava um silencio apenas cortado pelo tic-tac do grande relógio de parede, collocado sobre o crucifixo de marfim, em frente ao retrato lithographado do Imperador.
As duas filhas do carpinteiro abriam a bocca bocejando e encostavam-se ás carteiras envernizadas, esperando ouvir a voz do irmão a chamar por ellas. Assim estivemos até ás quatro horas! Ellas com fome, eu desesperada de impaciência reprimida! Logo que o pequeno chegou, sahi quasi a correr, arrastando commigo as minhas companheiras.
Ao vêr minha mãe, lancei-me nos seus braços, participando-lhe tudo. Que jubiloso instante, esse em que eu, tremula de commoção, disse poder contribuir para a nossa subsistência. Fallei voluvelmente, loquazmente, beijando-a repetidas vezes nas faces, na bocca, nos olhos, com uma effusão de ternura pouco vulgar em mim.
Depois de uns instantes, mais calma, chamada á reflexão pela sua placidez, combinámos sair no dia seguinte, domingo, a procurar na vizinhança do collegio uma casa pequena, independente e clara. Acabava-se a humilhação do cortiço; em breve deixaria de passar por aquelle grande portão que me fazia corar de vergonha.
Para esse fim, saimos na manhã seguinte.
Estavam a concluir uma casa pequena, alegre e bonitinha, quasi em frente ao collegio.
Convinha-nos. Dirigimo-nos ao senhorio. O aluguel absorvia-me o ordenado inteiro! Saimos desconsoladas e pensativas. Calculávamos em silencio as probabilidades de realizarmos a mudança.
Tornámos a passar pelo chalet e paramos a vel-o. Era elegante, côr de pérola, com uma veneziana de cada lado da porta e em cima os lambrequins de madeira, aos bicos, guarnecendo o beiral do telhado.
Continuámos a andar, sem dizer palavra.
Realmente precisávamos tomar uma resolução; mas como o chalet não estava ainda concluído, decidimos esperar, sempre dizendo que não nos convinha, mas com o sentido nelle.
Assim estivemos muitos dias, até que uma circumstancia inesperada obrigou-me ao arrojo de o alugar.
Eu tinha ido á tarde com a professora á Escola Normal, e tomava notas da explicação de physica, quando, levantando a cabeça, vi olhar attentamente para mim um rapaz desconhecido, alto, elegante, com uns grandes olhos muito brilhantes; baixei immediatamente os meus para o livro de apontamentos, contra a vontade, porém, erguia-os de vez em quando e fixava-os rapidamente no ponto da sala de onde me vinha o doce brilho daquelle par de estrellas luminosas. Deliciosa e atormentadora hora!
Uma collega, a meu lado, comprehendeu a minha perturbação, e ria-se baixinho. Ao sairmos disse-me ella maliciosamente:
— Bravo! elle é muito chic! Empregou muito bem o seu amor, minha senhora!
E fez-me rasgadamente uma cortezia, deixando-me embaraçada.
O amor!.... Imprudente rapariga, que me foi ella dizer! que mysteriosa porta abriu deante de mim!
Quem seria aquelle rapaz? que fazia alli? Não o soube nunca. O que é certo é que os seus olhos não se desfitavam de mim, e que eu tremia, corava, desfallecia de confusão e de enleio.
De repente, vi-me rodeada por todas as alumnas da classe. Ellas davam-me os parabéns, sorrindo, segredavam-me cousas de que eu não podia entender o sentido; pediam-me que lhes mostrasse as cartas recebidas, beliscavam-me chamando-me sonsinha!
Eu não sabia defender-me; estava assustada e curiosa, como se tivesse de ouvir uma verdade!
Por fim, a minha mestra appareceu á porta, mesmo ao pé do tal rapaz dos olhos negros e chamou-me. Obedeci e passei perto delle de cabeça baixa, como se tivesse praticado um crime; não sentia o chão sob os pés, ia aérea, ia nervosa, ia doente, ouvindo o pigarro indiscreto de todas as minhas companheiras aggrupadas no corredor.
Quando me vi na rua, respirei o ar livre da noite, uma noite muito estrellada, com verdadeira alegria.
Tomámos o bond; olhei para traz, elle entrara também! Apeámo-nos na esquina, elle apeou-se e seguiu-nos! Senti momentaneamente um grande júbilo, mas veiu-me em seguida um pavoroso medo de transpor á sua vista o negro, o medonho portão do cortiço, aberto como uma guela esfamada a todas as misérias e a todos os vicios!
Diminui a marcha vacillante. A professora perguntou-me o que eu tinha, pretextei uma enxaqueca, e ella deu-me bondosamente o braço. E assim nos fomos, a pouco e pouco, approximando da minha triste casa, d’aquelle quarto mettido no fundo de uma viella lamacenta.
Chegámos por fim ao portão do cortiço, paramos ambas; ella despediu-se, dando-me um beijo carinhoso e aconselhando-me cuidado: que dormisse bem abafada, que tivesse cautela com as constipações; e seguiu apressada com um ar differente do costumado. Eu entrei sem olhar para traz, com o rosto em fogo e o coração aos saltos, em batimentos desequilibrados.
O rapaz dos olhos brilhantes passou; ouvi-lhe os passos, e vi-lhe a sombra desenhada fugitivamente n’uma parede branca. Nunca mais o tornei a ver na Escola nem em parte alguma; mas foi elle quem me decidiu a alugar definitivamente o pequeno chalet côr de pérola, de venezianas verdes e lambrequins de madeira a guarnecer o beiral do telhado.
Entretanto, só agora, atravez de tantos dias de amarga experiência, me nasce no espirito esta duvida que não me alvoroça, e me faz ter piedade de mim mesma.
— Seria a mim ou á D. Anninha que aquelle rapaz dos olhos negros seguia?
E tudo me faz crer.... que era a ella!














