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Memórias de Marta · Júlia Lopes de Almeida
Capítulo VI
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Fizemos a mudança. Agora entrava sem frouxidão a luz do dia na nossa morada alegre, com um bello cheiro a nova, toda envernizada e limpa. A mobília destacava-se de velha, rara e feia naquelle ninho risonho e fresco; mas.... ora! isso a pouco e pouco se iria arranjando também.
Minha mãe trabalhava sempre; assim era preciso para sustentar-nos. A nossa vida não decorria num scenario tão lugubre, mas estava longe de poder ser considerada feliz.
Que desejava eu até ahi?
Um cantinho independente e asseiado. Tinha-o; que ambicionaria mais?
A ventura, que anda sempre arredia dos que nasceram sob uma estrella como a que me illuminou desde os primeiros passos.
Ha sempre uma aspiração no fundo da noss’alma. Eu sentia-a. Ao principio indeterminada, vaga, doce, como a dúbia claridade violacea do amanhecer; mas o colorido suave cresceu, cresceu gradualmente até ao afogueado brilho do incêndio terrível e implacavelmente consumidor.
Eu amava! Amava aquelle rapaz elegante que me plantou no coração um sentimento desconhecido e cruel! Passaram dias e mezes e nunca mais o encontrei. Foi porque me viu entrar para o cortiço, explicava-me eu....
Esse amor parecerá absurdo a quem não tiver, como eu tive sempre, a preoccupação da fealdade; a quem não se sentir isolada na vida, longe de todos os primores da graça, da distincção ou da intelligencia.
Eu, alem de feia, era inhabilidosa. Nunca soube fazer um laço, cortar um vestido, pregar uma flor. A pequenez dos meus olhos de um verde sujo, a côr trigueira das minhas faces de maçãs salientes, a longura dos meus braços finos e o modo desengraçado do meu andar, que eu nunca soube corrigir, asseguravam-me que ninguém pousaria em mim a vista com prazer; que eu cortaria a vida, de ponta a ponta, sem deter os passos de quem quer que fosse num movimento espontâneo de sympathia....
Convenço-me de que, naquelle rapaz, eu não amei o homem: amei o Amor, o meu triumpho, a hypothese de ser amada — que é o melhor sonho de todas as mulheres, mesmo daquellas que brilham, que são formosas, que fascinam....
Amei o Amor, e vivi embalada nesse idyllio sem que os meus actos regulares e serenos trahissem as minhas commoções.
Continuei sempre na mesma escola; era a primeira a entrar e a ultima a sair: trabalhava com animo, com afinco. Estudava muito, porque a minha intelligencia não me permittia o mais pequeno descuido: comprehendi que só com muita applicação alcançaria o meu fito; e lembrava-me, attonita, do que a mestra dissera a minha mãe quando fiz o meu primeiro exame: Tem muito talento!... Engano; o que eu tive sempre, isso sim, foi muito boa vontade.
Insinuei-me. A mestra apontava-me como exemplo ás alumnas e ás adjunctas. Aquillo incommodava-me; suscitei invejasitas e deram-me maliciosamente a alcunha de “a santinha”. Fingi ignorar tudo isso e prosegui na mesma placidez e assiduidade.
Assim cheguei á edade de vinte annos, passando o melhor tempo da vida a estudar para ensinar, ou curvada sobre a costura, ao lado de minha mãe, que enfraquecia muito e trabalhava sempre.... Eu não tinha amigas intimas, nem amores; não dançava nunca, não lia novellas.... só no fundo da minh’alma, se espelhava, como a luz crepuscular num lago, o luar saudoso e brando que ia a pouco e pouco esmorecendo, vestígio deixado pela claridade intensa d’aquelles olhos que tanto mal me fizeram e que tão vagarosamente se me iam apagando da memória!
A minha mãe inquietava-se com o meu estado e comprehendia-o. Porisso pediu á mestra que instasse commigo para jantar, uma ou outra vez, com ella e que nas noites de reunião tivesse a bondade de se lembrar de mim.
A mestra prometteu satisfazel-a e cumpriu a promessa, deixando-me ambas ignorante d’essa combinação.
Dias depois disse-me a directora:
— Venha hoje passar a noite comnosco, Martha: reúno alguns amigos e não quero que falte.
Acceitei, embaraçada, o convite. Não transpuzera nunca os humbraes das portas interiores. De toda a casa conhecia o que as alumnas conheciam. A mestra era bondosa mas impunha-se ao respeito e evitava intimidades. Cumpria rigorosamente os seus deveres e não perdoava a quem não fizesse o mesmo. Ensinara-me desde o A B C e tinha porisso grande império sobre mim.
Empenhara-se na minha carreira; fallara aos examinadores a meu respeito; protegia-me, levando-me á tarde á Escola, como se acompanhasse uma filha, com a melhor vontade; e apezar de tudo não me convidara nunca para ficar a seu lado, contendo-me numa certa reserva e distancia.
Aquelle convite espantou-me, mas prometti ir, como se realmente pudesse ser notada a minha falta!
A’ noite vesti o meu melhor vestido, um de linho azul, comprado com o producto do crochet, feito no recreio das meninas; puz no pescoço uma gravata de cassa branca, no peito uma rosa perfumada e fresca e dirigi-me, acompanhada até á porta pela minha santa mãe, que prometteu voltar a buscar-me ás onze horas da noite, dizendo que me esperaria em baixo, na sala da entrada, onde a não vissem senão os criados.
Aquillo entristeceu-me, mas como não ser assim, se a coitada não tinha um vestido apresentavel?
Subi sosinha a grande escada da casa da professora. Ia envergonhada e tremula, sem saber porque; no meio da escada tive vontade de voltar para traz, de correr para minha mãe. Nas reuniões é sempre o momento da entrada o mais custoso para as raparigas tímidas e inexperientes, como eu.
Depois, lá dentro, confunde-se a gente com a multidão, e sente prazer nisso.
Cheguei acima a uma saleta de espera, illuminada por um lampeão pendente, de vidro fosco.
Atraz das cortinas, numa janella sobre o jardim, conversavam alto, rindo, alguns rapazes. Parei interdicta; para que lado deveria seguir? Da esquerda e da direita vinham rumores de vozes e de passos.... um dos rapazes, percebendo a minha hesitação, veiu offerecer-me o braço e levou-me pelo corredor até ao toilette.
Entrei, procurei a minha mestra; não estava alli; sentei-me a um canto e puz-me a olhar para tudo.
Muitas senhoras, novas quasi todas, vestidas de claro, com braços nús, mangas de renda, grandes bouquets de flores, na cinta, ou no peito. Uma em frente ao espelho, arripiava o cabello fazendo-o mais crespo; outra passava o pompon de pó de arroz nas faces e no collo; outra pregava alfinetes num bouquet de cravos amarellos posto artisticamente no canto do carrê do corpinho; outras conversavam alto, abrindo e fechando os leques, como grandes borboletas de azas irrequietas; todas coradas, risonhas, elegantes, e felizes. Vendo-as dizia eu commigo: — A mocidade é isto!
E a alegria, o goso, a belleza, o conjuncto de todas as primicias ideaes que pôde ter a vida! Juventude! não sou digna de ti!
A’s minhas reflexões respondeu lá fora a musica.
O quarto de toilette ficou depressa vazio; foram todas dançar. Fiquei eu, sentada no mesmo canto, encolhidamente.
Observei o que me rodeava, as paredes forradas de papel côr de rosa assetinado, com filetes doirados; a mobília austríaca, coberta com rendas, as mesmas que eu ajudara a fazer na aula; o tapete de rosas de lã, em que eu trabalhara também e que alli estava perto do sofá; o grande toucador cheio de objectos de phantasia, vidros de essências e ramos de flores. Levantei-me e dirigi-me para o espelho. Que differença entre mim e as outras todas! Subitamente lembrei-me de Lucinda e voltei depressa as costas para o crystal puro em que se refletia a minha pobre imagem.
Como ha doze annos, via-me humilhada, feia. Tinha o cabello liso, entrançado na nuca, á Santa Catharina; o vestido simples, largo no corpo, as mangas muito compridas; o rosto lustroso sem aquella côr suave, aquelle avelludado doce do pó de arroz.
Tornei silenciosa para a mesma cadeira, sentando-me triste e disilludida.
Minutos depois correram o reposteiro; ergui a cabeça e vi deante de mim a dona da casa. Levantei-me respeitosamente. Beijou-me, e passando-me o braço pela cintura levou-me para a sala. Quiz resistir, balbuciei qualquer coisa que ella não percebeu, e achei-me no salão.
A mestra ria-se, parecia outra, mostrava-se jovial, alegre, adorável. Pegou-me na mão repousando-a sobre a seda côr de ameixa do seu vestido, de uma maneira protectora e meiga.
Contou-me que era dia dos annos do marido, o Sr. Jeronymo de Andrade, e que uns collegas seus, empregados da mesma secretaria, tinham-lhe feito uma sorpreza, indo em commissão levar-lhe um busto em bronze do pae, um velho de fronte serena e altiva.
— O meu sogro, dizia ella, tinha um coração de ouro e era o que se pode chamar um homem bellissimo.
Coitado, foi infeliz!
Morreu na guerra deixando viuva e doze filhos pobres! Os dois mais velhos tinham ido com elle, que já era então coronel. Quando minha sogra os viu voltar sem o pae ficou como uma doida, coitadinha! Olhe: ella lá está; é aquella velhinha de preto com rendas na cabeça.... Chorou muito ao ouvir o discurso do Silva e Souza que foi quem fez a entrega do busto.... tenho realmente pena que você não tivesse vindo mais cedo; assim teria presenciado essa scena, na verdade commovedora.
O Silva é aquelle rapaz de barba preta á franceza, que está conversando com a senhora ao lado, a de côr de violeta.... é minha cunhada, mulher de um advogado, o Dr. Torres....
Vê aquellas três meninas? são de um outro cunhado meu, medico; tem quatro filhas, cada qual mais bonita....
Vê aquella de côr de rosa, perto da janella?
— Sim.... a que está com uma ventarola de pennas....
— Exactamente. É minha afilhada, Clothilde; tem uma esmeradissima educação e é muito boa, um anjo!
Apresentou-me depois a outra sobrinha, a Leonor; cedeu-lhe o logar e afastou-se para differente grupo.
A minha nova companheira era deliciosamente delicada, muito alva, muito loira, de olhos rasgados, humidos, d’um azul escuro, abysmal; cintura fina, expressão angélica e vaporosa. Trajava de branco, como uma noiva, e engrinaldava-lhe a cabeça luminosa, uma haste flexível de jasmins alvissimos.
Conversou amavelmente commigo, até que a vieram buscar para a dança.
Sentaram-se pessoas indifferentes a meu lado. Uma formosa menina, morena que os rapazes rodeavam conversando lisongeiramente....
Organizaram uns lanceiros, e faltava numa roda um par. A dona da casa lembrou-se de mim e veiu buscar-me, apresentando-me um velho conselheiro que fora roubar á mesa do jogo.
Estremeci de medo. Disse-lhe que não sabia.... que não podia... que me achava doente....
— Não faz mal! estamos em família; o conselheiro terá a bondade de guial-a.
— Mas...
— Não temos mas. Vá lá, é preciso que danse, uma vez é a primeira.
O conselheiro tinha um sorriso amarello, frio, embirrativo. Não estava disposto, resolvera-se a dansar por obedecer á intimação.
Rompeu a musica; fui, como para um sacrifício, para o meio da sala. Experimentava um mal-estar terrível, percorriam-me a espinha uns arrepios de frio pronunciadores de febre.
Os vis-à-vis sorriam-se com discrição; eu empalledecia e corava simultaneamente: o conselheiro dançava evidentemente aborrecido.
A minha tortura prolongou-se e cada vez mais, á proporção que se complicava o desenho intrincado da quadrilha. Querendo ir para a esquerda ia para a direita; voltava-me indecisa e reparava que se riam dos meus enganos, da minha desastrada gaucherie.
Logo que vibrou o ultimo acorde levou-me o conselheiro quasi apressadamente para a primeira cadeira vazia que viu, e sumiu-se no longo corredor, em direcção á saleta do jogo.
Serviram o chá. Tirei d’uma bandeja de doces umas pastilhas enfeitadas e guardei-as na algibeira, para leval-as a minha mãe. Quando levantei a cabeça notei que uns rapazes me olhavam desdenhosamente, sorrindo do meu movimento.
Baixei os olhos, comprehendendo que praticara uma grande asneira, já então irremediável; nisso ouvi uma senhora edosa perguntar distrahidamente ao marido:
— Que horas são?
— Duas, respondeu elle com todo o descanço e serenidade.
Estremeci. Duas horas, e minha mãe esperava-me ás onze! Levantei-me, procurei em vão a dona da casa, atravessei o salão e desci rapidamente a escada.
Atraz de mim ficava uma multidão alegre, os risos, as flores, as luzes, tudo que, por ephemero, encanta a mocidade.
Sentada em um banco do vestibulo, envolta em um chaile preto de franja rala, minha mãe esperava-me, curvada e fria, olhando para o chão.
Bati-lhe no hombro, beijei-a na face, pedindo-lhe perdão da demora.
— Não faz mal, respondeu-me, contanto que te divertisses....
Em casa contei-lhe tudo. Ella ouviu-me, ajudando-me a despir-me, e deitou-se tranquilla ao meu lado.
No outro dia era eu, como sempre, a primeira a entrar na aula. Logo que a professora chegou, pedi-lhe, envergonhada, desculpa de ter sahido, na véspera, da sua festa, sem me despedir; e contei-lhe tudo. Ella sorriu, perguntou se eu me tinha divertido, mostrando não ter notado a minha falta, nem mesmo ter dado pela minha ausência!
Aquillo desapontou-me, voltei para o meu trabalho, dizendo de mim para mim:
— Decididamente, foi só para isto que eu nasci!














