Bem-vindo de volta

Entre com o seu email

Ao continuar você concorda com nossos Termos e Condições e Política de Privacidade

Esqueceu a senha? Resetar
Não tem conta? Criar conta

Criar conta

Crie sua conta para salvar seu progresso

Ao continuar você concorda com nossos Termos e Condições e Política de Privacidade

As Primaveras · Casimiro de Abreu

Parte 2

2 de 5

XI

Moreninha, Moreninha,
Tu és do campo a rainha,
Tu és senhora de mim;
Tu matas todos d’amores,
Faceira, vendendo as flores
Que colhes no teu jardim.

Quando tu passas n’aldeia
Diz o povo à boca cheia:
– “Mulher mais linda não há
“Ai! vejam como é bonita
“Co’as tranças presas na fita,
“Co’as flores no samburá! –

Tu és meiga, és inocente
Como a rola que contente
Voa e folga no rosal;
Envolta nas simples galas,
Na voz, no riso, nas falas,
Morena – não tens rival!

Tu, ontem, vinhas do monte
E paraste ao pé da fonte
À fresca sombra do til;
Regando as flores, sozinha,
Nem tu sabes, Moreninha,
O quanto achei-te gentil!

Depois segui-te calado
Como o pássaro esfaimado
Vai seguindo a juriti;
Mas tão pura ias brincando,
Pelas pedrinhas saltando,
Que eu tive pena de ti!

E disse então: – Moreninha,
Se um dia tu fores minha,
Que amor, que amor não terás!
Eu dou-te noites de rosas
Cantando canções formosas
Ao som dos meus ternos ais.

Morena, minha sereia,
Tu és a rosa da aldeia,
Mulher mais linda não há;
Ninguém t’iguala ou t’imita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!

Tu és a deusa da praça,
E todo o homem que passa
Apenas viu-te... parou!
Segue depois seu caminho
Mas vai calado e sozinho
Porque sua alma ficou!

Tu és bela, Moreninha,
Sentada em tua banquinha
Cercada de todos nós;
Rufando alegre o pandeiro,
Como a ave no espinheiro
Tu soltas também a voz:

– “Oh quem me compra estas flores?
“São lindas como os amores,
“Tão belas não há assim;
“Foram banhadas de orvalho,
“São flores do meu serralho,
“Colhi-as no meu jardim.” –

Morena, minha Morena,
És bela, mas não tens pena
De quem morre de paixão!
– Tu vendes flores singelas
E guardas as flores belas,
As rosas do coração?!...

Moreninha, Moreninha,
Tu és das belas rainha,
Mas nos amores és má
– Como tu ficas bonita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!

Eu disse então: – “Meus amores,
“Deixa mirar tuas flores,
“Deixa perfumes sentir!”
Mas naquele doce enleio,
Em vez das flores, no seio,
No seio te fui bulir!

Como nuvem desmaiada
Se tinge de madrugada
Ao doce albor da manhã
Assim ficaste, querida,
A face em pejo acendida,
Vermelha como a romã!

Tu fugiste, feiticeira,
E decerto mais ligeira
Qualquer gazela não é;
Tu ias de saia curta...
Saltando a moita de murta
Mostraste, mostraste o pé!

Ai! Morena, ai! meus amores,
Eu quero comprar-te as flores,
Mas dá-me um beijo também;
Que importam rosas do prado
Sem o sorriso engraçado
Que a tua boquinha tem?...

Apenas vi-te, sereia,
Chamei-te – rosa da aldeia –
Como mais linda não há.
– Jesus! Como eras bonita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!

Indaiassú – 1857.

Na Rede

XII

Nas horas ardentes do pino do dia
    Aos bosques corri;
E qual linda imagem dos castos amores,
Dormindo e sonhando cercada de flores
    Nos bosques a vi!

Dormia deitada na rede de penas
    – O céu por dossel,
De leve embalada no quieto balanço
Qual nauta cismando num lago bem manso
    Num leve batel!

Dormia e sonhava – no rosto serena
    Qual um serafim;
Os cílios pendidos nos olhos tão belos,
E a brisa brincando nos soltos cabelos
    De fino cetim!

Dormia e sonhava – formosa embebida
    No doce sonhar,
E doce e sereno num mágico anseio
Debaixo das roupa batia-lhe o seio
    No seu palpitar!

Dormia e sonhava – a boca entreaberta
    O lábio a sorrir;
No peito cruzados os braços dormentes,
Compridos e lisos quais brancas serpentes
    No colo a dormir!

Dormia e sonhava – no sonho de amores.
    Chamava por mim,
E a voz suspirosa nos lábios morria
Tão terna e tão meiga qual vaga harmonia
    De algum bandolim!

Dormia e sonhava – de manso cheguei-me
    Sem leve rumor;
Pendi-me tremendo e qual fraco vagido,
Qual sopro da brisa, baixinho ao ouvido
    Falei-lhe de amor!

Ao hálito ardente o peito palpita...
    Mas sem despertar;
E como nas ânsias dum sonho que é lindo,
A virgem na rede corando e sorrindo...
    Beijou-me – a sonhar!

Junho – 1858.

A Voz do Rio

XIII

Num Álbum

Nosso sol é de fogo, o campo é verde,
O mar é manso, nosso céu azul!
– Ai! porque deixas este pátrio ninho
Pelas friezas dos vergéis do sul?

Lá nessa terra onde o Guaíba chora
Não são as noites, como aqui, formosas,
E as duras asas do Pampeiro iroso
Quebra as tulipas e desfolha as rosas.

A lua é doce, nosso mar tranqüilo,
Mais leve a brisa, nosso céu azul!...
– Tupá! quem troca pelo pátrio ninho
As ventanias dos vergéis do sul?!

Lá novos campos outros campos ligam
E a vista fraca na extensão se perde!
E tu sozinha viverás no exílio
– Garça perdida nesse mar que é verde! –

Nossas campinas como doces noivas
Vivem c’os montes sob o céu azul!
– Há vida e amores neste pátrio ninho
Mais rico e belo que os vergéis do sul!

Essas palmeiras não tem tantos leques,
O sol das Pampas marcou seu brilho,
Nem cresce o tronco que susteve um dia
O berço lindo em que dormiu teu filho!

Nossas florestas sacudindo os galhos
Tocam c’os braços este céu azul!...
– Se tudo é grande neste pátrio ninho
Porque deixai-o p’ra viver no sul?!...

Embora digas – essa terra fria
Merece amores, é irmã da minha –
Quem dar-te pode este calor do ninho,
A luz suave que o teu berço tinha?!

Eu – Guanabara – no meu longo espelho
Reflito as nuvens deste céu azul;
– Ó minha filha! Acalentei-te o sono,
Porque me deixas p’ra viver no sul?!...

Lá, quando a terra s’embuçar nas sombras
E o sol medroso s’esconder nas águas,
Teu pensamento, como o sol que morre,
Há de cismando mergulhar-se em mágoas!

Mas se forçoso t’é deixar a pátria
Pelas friezas dos vergéis do sul,
Ó minha filha! não t’esqueças nunca
Destas montanhas, deste céu azul.

Tupá bondoso te derrame graças,
Doce ventura te bafeje e siga,
E nos meus braços – ao voltar do exílio –
Saudando o berço que teu lábio diga:

“Volvo contente para o pátrio ninho,
“Deixei sorrindo esses vergéis do sul;
“Tinha saudades deste sol de fogo...
“Não deixo mais este meu céu azul!...

Rio – 1858.

Sete de Setembro

XIV

A D. Pedro II

I

Foi um dia de glória! – O povo altivo
Trocou sorrindo as vozes de cativo
    Pelo cantar das festas!
O leão indomável do deserto
Bramiu soberbo, dos grilhões liberto,
    No meio das florestas!

Lá no Ipiranga do Brasil o Marte
Enrolado nas dobras do estandarte
    Erguia o augusto porte;
Cercada a fronte dos lauréis da glória
Soltou tremendo brado da vitória:
    – Independência ou morte!

O santo amor dos corações ardentes
Achou eco no peito dos valentes
    No campo e na cidade;
E nos salões – do pescador nos lares,
Livres soaram hinos populares
    À voz da liberdade!

II

Anos correram; – no torrão fecundo
Ao sol de fogo deste novo-mundo
    A semente brotou;
E franca e leda, a geração nascente
À copa altiva da árvore frondente
    Segura se abrigou!

A roda da bandeira sacrossanta
Um povo esperançoso se levanta
    Infante e a sorrir!
A nação do letargo se desperta,
E – livre – marcha pela estrada aberta
    Às glórias do porvir!

O país, n’alegria todo imerso,
Velava atento à roda só dum berço.
    Era o vosso, Senhor!
Vós do tronco feliz doce renovo,
Vede agora, Senhor, na voz do povo
    Quão grande é seu amor!

Rio – 1858.

Poesia e Amor

XV

A tarde que expira,
A flor que suspira,
O canto da lira,
Da lua o clarão;
Dos mares na raia
A luz que desmaia,
E as ondas na praia
Lambendo-lhe o chão;

Da noite a harmonia
Melhor que a do dia,
E a viva ardentia
Das águas do mar;
A virgem incauta,
As vozes da flauta,
E o canto do nauta
Chorando o seu lar;

Os trêmulos lumes,
Da fonte os queixumes,
E os meigos perfumes
Que solta o vergel;
As noites brilhantes,
E os doces instantes
Dos noivos amantes
Na lua de mel;

Do templo nas naves
As notas suaves,
E o trino das aves
Saudando o arrebol;
As tardes estivas,
E as rosas lascivas
Erguendo-se altivas
Aos raios do sol;

A gota de orvalho
Tremendo no galho
Do velho carvalho,
Nas folhas do ingá;
O bater do seio,
Dos bosques no meio
O doce gorjeio
Dalgum sabiá;

A órfã que chora,
A flor que se cora
Aos raios da aurora,
No albor da manhã;
Os sonhos eternos,
Os gozos mais ternos,
Os beijos maternos
E as vozes de irmã;

O sino da torre
Carpindo quem morre,
E o rio que corre
Banhando o chorão;
O triste que vela
Cantando à donzela
A trova singela
Do seu coração;

A luz da alvorada,
E a nuvem dourada
Qual berço de fada
Num céu todo azul;
No lago e nos brejos
Os férvidos beijos
E os loucos bafejos
Das brisas do sul;

Toda essa ternura
Que a rica natura
Soletra e murmura
Nos hálitos seus,
Da terra os encantos,
Das noites os prantos,
São hinos, são cantos
Que sobem a Deus!

Os trêmulos lumes,
Da veiga os perfumes,
Da fonte os queixumes,
Dos prados a flor,
Do mar a ardentia
Da noite a harmonia,
Tudo isso é – poesia!
Tudo isso é – amor!

Indaiassú – 1857.

Orações

XVI

A***

A alma, como o incenso, ao céu s’eleva
Da férvida oração nas asas puras,
E Deus recebe como um longo hosana
O cântico de amor das criaturas.

Do trono d’ouro que circundam anjos
Sorrindo ao mundo a Virgem-Mãe s’inclina
Ouvindo as vozes d’inocência bela
Dos lábios virginais duma menina.

Da tarde morta o murmurar se cala
Ante a prece infantil, que sobe e voa
Fresca e serena qual perfume doce
Das frescas rosas de gentil coroa.

As doces falas de tua alma santa
Valem mais do que eu valho oh! querubim!
Quando rezares por teu mano
Não t’esqueças também – reza por mim!

Bálsamo

XVII

Eu vi-a lacrimosa sobre as pedras
Rojar-se essa mulher que a dor ferira!
A morte lhe roubara dum só golpe
Marido e filho, encaneceu-lhe a fronte,
E deixou-a sozinha e desgrenhada
– Estátua da aflição aos pés dum túmulo! –
O esquálido coveiro p’ra dois corpos
Ergueu a mesma enxada, e nessa noite
A mesma cova os teve!
                E a mãe chorava,
E mais alto que o choro erguia as vozes!

* * *

No entanto o sacerdote – fronte branca
Pelo gelo dos anos – a seu lado
Tentava consolá-la
                A mãe aflita
Sublime desse belo desespero
As vozes não lhe ouvia; a dor suprema
Toldava-lhe a razão no duro trance.

“Oh! padre! – disse a pobre s’estorcendo
Co’a voz cortada dos soluços d’alma –
“Onde o bálsamo, as falas d’esperança,
“O alívio à minha dor?!”
                Grave e solene,
O padre não falou – mostrou-lhe o céu!

Rio – 1858

Deus!

XVIII

Eu me lembro! eu me lembro! – Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia
E erguendo o dorso altivo, sacudia
A branca escuma para o céu sereno

E eu disse a minha mãe nesse momento:
“Que dura orquestra! Que furor insano!
“Que pode haver maior que o oceano,
“Ou que seja mais forte do que o vento?!” –

Minha mãe a sorrir olhou p’r’os céus
E respondeu: – Um Ser que nós não vemos
“É maior do que o mar que nós tememos,
“Mais forte que o tufão! Meu filho, é – Deus!” –

Dezembro – 1858.

Primaveras

XIX

Primavera! juventud Del anno,
Mocidad! primavera della vita.

Metastasio

I

A primavera é a estação dos risos,
Deus fita o mundo com celeste afago,
Tremem as folhas e palpita o lago
Da brisa louca aos amorosos frisos.

Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores.
E doce e bela no tapiz das flores
Melhor perfume a violeta exala.

Na primavera tudo é riso e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte da aldeã modesta.

A natureza se desperta rindo,
Um hino imenso a criação modula,
Canta a calhandra, a juriti arrula,
O mar é calmo porque o céu é lindo.

Alegre e verde se balança o galho,
Suspira a fonte na linguagem meiga,
Murmura a brisa: – Como é linda a veiga!
Responde a rosa: – Como é doce o orvalho!

II

Mas como às vezes sobre o céu sereno
Corre uma nuvem que a tormenta guia,
Também a lira alguma vez sombria
Solta gemendo de amargura um treno.

São flores murchas; – o jasmim fenece,
Mas bafejado s’erguerá de novo
Bem como o galho do gentil renovo
Durante a noite, quando o orvalho desce.

Se um canto amargo de ironia cheio
Treme nos lábios do cantor mancebo,
Em breve a virgem do seu casto enlevo
Dá-lhe um sorriso e lhe intumesce o seio

Na primavera – na manhã da vida –
Deus às tristezas o sorriso enlaça,
E a tempestade se dissipa e passa
À voz mimosa da mulher querida.

Na mocidade, na estação fogosa,
Ama-se a vida – a mocidade é crença,
E a alma virgem nesta festa imensa
Canta, palpita, s’extasia e goza.

1º de Julho – 1858.

Cena Íntima

XX

Como estás hoje zangada
E como olhas despeitada
    Só p’ra mim!
– Ora diz-me: esses queixumes,
Esses injustos ciúmes
    Não têm fim?

Que pequei eu bem conheço,
Mas castigo não mereço
    Por pecar;
Pois tu queres chamar crime
Render-me à chama sublime
    Dum olhar!

Por ventura te esqueceste
Quando de amor me perdeste
    Num sorrir?
Agora em cólera imensa
Já queres dar a sentença
    Sem me ouvir!

E depois, se eu te repito
Que nesse instante maldito
    – Sem querer –
Arrastado por magia
Mil torrentes de poesia
    Fui beber!

Eram uns olhos escuros
Muito belos, muito puros,
    Como os teus!
Uns olhos assim tão lindos
Mostrando gozos infindos,
    Só dos céus!

Quando os vi fulgindo tanto
Senti no peito um encanto
    Que não sei!
Juro falar-te a verdade...
Foi decerto – sem vontade –
    Que eu pequei!

Mas hoje, minha querida,
Eu dera até esta vida
    P’ra poupar
Essas lágrimas queixosas,
Que as tuas faces mimosas
    Vêm molhar!

Sabe ainda ser clemente,
Perdoa um erro inocente
    Minha flor!
Seja grande embora o crime
O perdão sempre é sublime
    Meu amor!

Mas se queres com maldade
Castigar quem – sem vontade –
    Só pecou;
Olha, linda, eu não me queixo,
A teus pés cair me deixo...
    Aqui ‘stou!

Mas se me deste, formosa,
De amor na taça mimosa
    Doce mel;
Ai! deixa que peça agora
Esses extremos d’outrora
    O infiel:

Prende-me... nesses teus braços
Em doces, longos abraços
    Com paixão;
Ordena com gesto altivo...
Que te beije este cativo
    Essa mão!

Mata-me sim... de ventura,
Com mil beijos de ternura
    Sem ter dó,
Que eu prometo, anjo querido,
Não desprender um gemido,
    Nem um só!

Juramento

XXI

Tu dizes oh Mariquinhas
Que não crês nas juras minhas,
Que nunca cumpridas são!
Mas se eu não te jurei nada,
Como hás de tu, estouvada,
Saber se eu as cumpro ou não?!

Tu dizes que eu sempre minto,
Que protesto o que não sinto,
Que todo o poeta é vário,
Que é borboleta inconstante;
Mas agora, neste instante,
Eu vou provar-te o contrário.

Vem cá, sentada a meu lado
Com esse rosto adorado
Brilhante de sentimento,
Ao colo o braço cingido,
Olhar no meu embebido,
Escuta o meu juramento.

Espera: – inclina essa fronte...
Assim!... – Pareces no monte
Alvo lírio debruçado!
– Agora, se em mim te fias,
Fica séria, não te rias,
O juramento é sagrado.

“– Eu juro sobre estas tranças,
“E pelas chamas que lanças
“Desses teus olhos divinos;
“Eu juro, minha inocente,
“Embalar-te docemente
“Ao som dos mais ternos hinos!

“Pelas ondas, pelas flores,
“Que se estremecem de amores
“Da brisa ao sopro lascivo;
“Eu juro, por minha vida,
“Deitar-me a teus pés, querida,
“Humilde como um cativo!

“Pelos lírios, pelas rosas,
“Pelas estrelas formosas,
“Pelo sol que brilha agora,
“– Eu juro dar-te, Maria,
“Quarenta beijos por dia
“E dez abraços por hora!”

O juramento está feito,
Foi dito co’a mão no peito
Apontando ao coração;
E agora – por vida minha,
Tu verás oh! moreninha,
Tu verás se o cumpro ou não!...

Rio – 1857.

Perfumes e Amor

XXII

Na Primeira Folha dum Álbum

A flor mimosa que abrilhanta o prado
Ao sol nascente vai pedir fulgor;
E o sol, abrindo da açucena as folhas,
Dá-lhe perfumes – e não nega amor.

Eu que não tenho, como o sol, seus raios,
Embora sinta nesta fronte ardor,
Sempre quisera ao encetar teu álbum
Dar-lhe perfumes – desejar-lhe amor.

Meu Deus! nas folhas deste livro puro
Não manche o pranto da inocência o alvor,
Mas cada canto que cair dos lábios
Traga perfumes – e murmure amor.

Aqui se junte, qual num ramo santo,
Do nardo o aroma e da camélia a cor,
E possa a virgem, percorrendo as folhas,
Sorver perfumes – respirar amor.

Encontre a bela, caprichosa sempre,
Nos ternos hinos d’infantil frescor
Entrelaçados na grinalda amiga
Doces perfumes – e celeste amor.

Talvez que diga, recordando tarde
O doce anelo do feliz cantor:
– “Meu Deus! nas folhas do meu livro d’alma
Sobram perfumes – e não falta amor!”

Junho – 1858.

Segredos

XXIII

Eu tenho uns amores – quem é que os não tinha
Nos tempos antigos? – Amar não faz mal;
As almas que sentem paixão como a minha
Que digam, que falem em regra geral.
    – A flor dos meus sonhos é moça e bonita
    Qual flor entreaberta do dia ao raiar,
    Mas onde ela mora, que casa ela habita,
    Não quero, não posso, não devo contar!

Seu rosto é formoso, seu talhe elegante,
Seus lábios de rosa, a fala é de mel,
As tranças compridas, qual livre bacante,
O pé de criança, cintura de anel;
    – Os olhos rasgados são cor das safiras
    Serenos e puros, azuis como o mar;
    Se falam sinceros, se pregam mentiras,
    Não quero, não posso, não devo contar!

Oh! ontem no baile com ela valsando
Senti as delícias dos anjos do céu!
Na dança ligeira qual silfo voando
Caiu-lhe do rosto seu cândido véu!
    – Que noite e que baile! – Seu hálito virgem
    Queimava-me as faces no louco valsar,
    As falas sentidas que os olhos falavam
    Não posso, não quero, não devo contar!

Depois indolente firmou-se em meu braço,
Fugimos das salas, do mundo talvez!
Inda era mais bela rendida ao cansaço
Morrendo de amores em tal languidez!
    – Que noite e que festa! e que lânguido rosto
    Banhado ao reflexo do branco luar!
    A neve do colo e as ondas dos seios
    Não quero, não posso, não devo contar!

A noite é sublime! – Tem longos queixumes,
Mistérios profundos que eu mesmo não sei:
Do mar os gemidos, do prado os perfumes,
De amor me mataram, de amor suspirei!
    – Agora eu vos juro... Palavra! – não minto
    Ouvi-a formosa também suspirar;
    Os doces suspiros que os ecos ouviram
    Não quero, não posso, não devo contar!

Então nesse instante nas águas do rio
Passava uma barca, e o bom remador
Cantava na flauta: – “Nas noites d’estio
O céu tem estrelas, o mar tem amor!” –
    – E a voz maviosa do bom gondoleiro
    Repete cantando: – “viver é amar!” –
    Se os peitos respondem à voz do barqueiro...
    Não quero, não posso, não devo contar!

Trememos de medo... a boca emudece
Mas sentem-se os pulos do meu coração!
Seu seio nevado de amor se intumesce...
E os lábios se tocam no ardor da paixão!
    – Depois... mas já vejo que vós, meus senhores,
    Com fina malícia quereis me enganar.
    Aqui faço ponto; – segredos de amores
    Não quero, não posso, não devo contar!

Rio – 1857.

Clara

XXIV

Não sabes, Clara, que pena
Eu teria se – morena
Tu fosses em vez de clara!
Talvez... Quem sabe?... não digo...
Mas refletindo comigo
Talvez nem tanto te amara!

A tua cor é mimosa,
Brilha mais da face a rosa,
Tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
És clara da cor da neve!

A morena é predileta,
Mas a clara é do poeta:
Assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
Mas a morena é da terra
Enquanto a clara é dos anjos!

Mulher morena é ardente:
Prende o amante demente
Nos fios do seu cabelo;
– A clara é sempre mais fria,
Mas dá-me licença um dia
Que eu vou arder no teu gelo!

A cor morena é bonita,
Mas nada, nada te imita
Nem mesmo sequer de leve.
– O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
És clara da cor da neve!

A Valsa

XXV

A M.***

Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co’as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!
– Não negues
Não mintas...
– Eu vi!...

Valsavas:
– Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias
P’ra outro
Não eu!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
– Não negues,
Não mintas...
– Eu vi!...

Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem?!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
– Não negues,
Não mintas...
– Eu vi!...

Calado,
Sozinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!
Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!
– Não negues,
Não mintas...
– Eu vi!...

Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa,
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida
No chão!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
– Não negues,
Não mintas...
– Eu vi!...

Rio – 1858.

Borboleta

Prefere ler com marcador de progresso ou baixar o livro?