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O Chamado de Cthulhu · H.P. Lovecraft

Parte 2

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à peça, que a polícia de imediato percebeu que dera de cara com um culto sinistro totalmente desconhecido para eles e infinitamente mais diabólico que o mais negro dos círculos africanos de vodu. Sobre a sua origem, além das estórias esdrúxulas e inacreditáveis arrancadas aos membros capturados, absolutamente nada pôde ser descoberto. Daí a ansiedade da polícia por qualquer conhecimento de coisas antigas que pudesse ajudá-la a identificar o símbolo aterrador e, através dele, descobrir a fonte daquele culto.

O inspetor Legrasse não estava de forma alguma preparado para a sensação que a sua intervenção causou. Um simples olhar ao objeto fora suficiente para lançar os homens de ciência ali reunidos num estado de tensa excitação, e eles não perderam tempo em se amontoar ao redor dele para encarar de perto a diminuta imagem cuja profunda estranheza e aparência de antigüidade genuína e abismal indicavam panoramas arcaicos ainda por revelar. Nenhuma escola conhecida de escultura animara aquele terrível objeto, e no entanto séculos, até milênios pareciam gravados em sua baça e esverdeada superfície de pedra não identificada.

A imagem, que foi finalmente passada devagar de mão em mão para exame mais atento e cuidadoso, tinha entre quinze e dezoito centímetros de altura e era de elaborado artesanato.

Representava um monstro vagamente antropóide, mas com uma cabeça semelhante à de um polvo e cujo rosto era uma massa de tentáculos, de corpo escamoso com aspecto elástico, prodigiosas garras nas patas dianteiras e traseiras, e asas longas e estreitas atrás. Essa coisa, que parecia imbuída de assustadora e inatural malignidade, tinha uma corpulência algo intumescida e estava agachada ameaçadoramente sobre um bloco retangular

ou pedestal coberto de caracteres indecifráveis. As pontas das asas tocavam a beirada traseira do bloco, o assento ocupava o centro e as compridas e recurvadas garras das patas traseiras dobradas sobre si mesmas, agarravam a beirada dianteira e estendiam-se por um quarto da altura do pedestal. A cabeça cefalópode estava inclinada para frente, de modo que as extremidades dos tentáculos faciais varriam as costas das maciças patas dianteiras que agarravam os joelhos dos membros traseiros. 0 aspecto geral era anormalmente vivido, e ainda mais sutilmente assustador pelo fato de sua origem ser totalmente desconhecida. Embora sua vasta, espantosa e incalculável antigüidade fosse inegável, a estatueta não apresentava ligação com nenhum tipo de arte pertencente à mocidade da civilização, ou, na verdade, a qualquer época.

O seu próprio material era um mistério, pois a pedra lisa e negro-esverdeada com pintas douradas ou iridescentes e estrias não se assemelhava a nada familiar à geologia ou à mineralogia. Os caracteres ao longo da base eram igualmente intrigantes, e nenhum dos cientistas ali presentes, apesar de representarem metade do conhecimento mundial nesse campo, teve a menor noção sequer da mais remota filiação lingüística deles. Tal como o tema e o material, esses caracteres pertenciam a alguma coisa horrivelmente distante e alheia à humanidade como a conhecemos, algo que sugeria de forma assustadora antigos e profanos ciclos de vida dos quais nosso mundo e nossas concepções não fazem parte.

No entanto, enquanto os vários cientistas balançavam a cabeça e admitiam-se derrotados perante o enigma trazido pelo inspetor, havia na reunião um homem a quem pareceram estranhamente familiares aquelas monstruosas forma e escrita,

e que então falou com certa hesitação do pouco que sabia a respeito. Ele era o falecido William Channing Webb, professor de antropologia na Universidade de Princeton e explorador de considerável renome.

O professor Webb participara, quarenta e oito anos antes, de uma expedição à Groenlândia e à Islândia em busca de inscrições rúnicas, que não conseguiu achar; e ao percorrer a costa oeste da Groenlândia havia encontrado uma singular tribo de esquimós degenerados cuja religião, uma curiosa forma de culto ao diabo, provocou-lhe calafrios com sua repelência e deliberada sede de sangue. Tratava-se de um credo do qual os outros esquimós pouco sabiam, e que só mencionavam com estremecimentos de horror, dizendo que vinha de eras terrivelmente antigas, anteriores à criação do mundo. Além de ritos inenarráveis e sacrifícios humanos, havia alguns esquisitos rituais hereditários dirigidos a um supremo diabo ancião ou tornasuk, dos quais o professor Webb fizera uma cuidadosa transcrição fonética com a ajuda de um idoso angekok ou bruxo-sacerdote, grafando os sons em caracteres romanos o melhor que pôde. Porém, o que mais interessava era o fetiche que esse culto idolatrava e em torno do qual dançavam quando a aurora boreal lambia os picos gelados. Segundo declarou o professor, tratava-se de um tosco baixo relevo de pedra que compreendia uma figura medonha e algumas inscrições crípticas; e, até onde podia afirmar, coincidia, nos aspectos essenciais, com a coisa bestial que se tornara centro das atenções na reunião.

Essas informações, recebidas com assombro e emoção pelos presentes à reunião, foram ainda mais emocionantes para o inspetor Legrasse, que imediatamente começou a assediar o seu informante com perguntas. Tendo anotado e transcrito um ritual

oral entre os sectários brejeiros que seus homens haviam prendido, pediu ao professor que procurasse lembrar o melhor que pudesse das sílabas anotadas entre os esquimós diabolistas. Seguiu-se então uma exaustiva comparação de detalhes e um momento de boquiaberto silêncio, quando tanto o detetive quanto o cientista concordaram na identidade virtual da frase comum aos dois ritos infernais tão distantes um do outro como se pertencessem a mundos diferentes. O que, essencialmente, tanto os bruxos esquimós quanto os sacerdotes brejeiros da Louisiana entoavam aos seus ídolos era algo semelhante ao que vai abaixo, sendo as divisões entre palavras supostas por analogia com as quebras tradicionais na frase quando cantada em voz alta:

“Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’naglfhtagn.”

Nesse ponto Legrasse levava vantagem sobre o professor Webb, pois vários dos seus prisioneiros mestiços haviam-lhe repetido o que celebrantes mais velhos haviam-lhes dito sobre o significado dessas palavras. Esse texto dizia mais ou menos o seguinte:

“Na sua casa em R’lyeh, Cthulhu morto espera sonhando.”

Então, em resposta às urgentes solicitações de todos, o inspetor Legrasse narrou, tão detalhadamente quanto possível, sua experiência com os idólatras dos pântanos, contando uma estória à qual pude ver que o meu tio atribuía enorme importância. Fazia lembrar os sonhos mais desvairados dos mitômanos e teosofistas, além de revelar um grau surpreendente de imaginação cósmica, que nunca se esperaria entre aqueles marginais e párias da sociedade.

No dia 1 ° de novembro de 1907 chegara à polícia de Nova Orleans um chamado frenético da região de pântanos e lagoas

ao sul. Os grileiros de lá, na maioria descendentes primitivos, mas de boa índole, dos homens de Lafitte, estavam tomados do mais absoluto pânico por causa de uma coisa desconhecida que viera sobre eles à noite. Tratava-se de vodu, aparentemente, mas de uma espécie de vodu muito mais terrível do que qualquer outra que já tinham visto; e algumas de suas mulheres e crianças haviam desaparecido desde que o malévolo tantã começara a bater incessantemente bem para dentro das sombrias florestas, onde nenhum morador da região se aventurava. Ouviam-se gritos insanos e berros apavorantes, cânticos que gelavam o sangue e chamas demoníacas que bruxuleavam; e ninguém mais suportava aquilo, acrescentou o assustado mensageiro.

Então um grupo de vinte policiais, em duas carruagens e um automóvel, havia partido no Fim da tarde com o trêmulo grileiro como guia. No fim da estrada transitável desceram e chapinharam por milhas em silêncio, em meio aos terríveis bosques de ciprestes onde nunca raiava o dia. Medonhas raízes e malignas barbas-de-velho dificultavam a caminhada, e de vez em quando uma pilha de pedras úmidas ou fragmentos de uma parede apodrecida intensificavam, com sua sugestão de povoação sórdida, uma angústia que cada árvore mal formada e a profusão de fungos contribuía para criar. Por fim, a aldeia dos grileiros, um ajuntamento miserável de cabanas, ficou à vista, e moradores histéricos acorreram para refugiar-se em volta do grupo de lanternas balouçantes. O som abafado dos tantãs já se ouvia ao longe, bem longe; e um grito agudo como um guincho vinha em intervalos desiguais quando o vento mudava de direção. Também um clarão avermelhado parecia filtrar-se através da pálida vegetação rasteira, oriundo de avenidas intermináveis de noite selvagem. Todos os assustados grileiros

recusaram-se terminantemente a dar um passo sequer rumo àquele culto ímpio, de modo que o inspetor Legrasse e seus dezenove colegas embrenharam-se sem guia nas arcadas negras de terror pelas quais nenhum deles jamais passara antes.

A região em que agora se aventuravam os policiais era tradicionalmente de má reputação, desconhecida e inexplorada pelos brancos. Corriam lendas sobre um lago oculto nunca contemplado por mortais, no qual vivia uma gigantesca e disforme criatura poliposa branca com olhos luminosos; e os grileiros sussurravam que diabos com asas de morcego voavam para fora de cavernas nas entranhas da terra à meia-noite para adorar aquele ser. Diziam que ele estivera lá antes de D’Iberville, antes de La Salle, antes dos índios e antes mesmo dos saudáveis animais e pássaros das florestas. A criatura era o pesadelo encarnado e vê-la significava morrer. Mas também fazia os homens sonharem, por isso sabiam que deviam manter-se afastados. A atual orgia vodu ocorria, de fato, no limite daquela área amaldiçoada, daí o próprio local do culto ter talvez aterrorizado os grileiros mais do que os sons chocantes e os incidentes.

Só a poesia ou a loucura poderiam descrever fielmente os barulhos ouvidos pelos homens de Legrasse ao avançarem pelos atoleiros negros rumo ao clarão vermelho e aos tantãs abafados.

Existem sons característicos de homens e característicos de bestas, e é pavoroso escutar um quando a fonte deveria produzir o outro. A fúria animal e a licenciosidade orgiástica ali eram atiçadas a níveis demoníacos por uivos e êxtases guinchantes que reverberavam por aqueles bosques cobertos de noite como tempestades pestilenciais emanadas dos abismos do inferno. De vez em quando as ululações menos organizadas cessavam, e do

que parecia um coro bem treinado de vozes roucas, elevava-se como uma ladainha aquela frase ou ritual nefando:

“Ph’nglul’ mglw’nafh Cthulhu R’lych wgah’naglfhtagn. “

Foi então que os homens, tendo alcançado um local onde as árvores eram mais finas, de repente avistaram o próprio espetáculo. Quatro deles cambalearam, um desfaleceu e dois emitiram um grito frenético que a louca cacofonia da orgia afortunadamente encobriu. Legrasse jogou água do pântano no rosto do homem desmaiado e todos ficaram trêmulos e quase hipnotizados de horror.

Numa clareira natural do pântano havia uma ilha de relva com cerca de meio hectare, sem árvores e toleravelmente seca. Nela saltava e se retorcia uma indescritível horda de anormalidade humana, que só um Sime ou um Angarola poderiam pintar. Sem roupa alguma, aquelas criaturas híbridas zurravam, berravam e se contorciam ao redor de uma monstruosa fogueira circular, no meio da qual erguia-se, revelado por ocasionais frestas na cortina de chamas, um imponente monólito de granito com uns dois metros e meio de altura; em cima dele, numa pequenez incongruente, jazia a nefasta estatueta. De um amplo círculo de dez cadafalsos dispostos a intervalos regulares, com o monólito cingido de chamas ao centro, pendiam de ponta-cabeça os corpos atrozmente mutilados dos indefesos grileiros que haviam desaparecido. Era dentro desse círculo que a roda de adoradores pulava e rugia da esquerda para a direita numa bacanal sem fim entre o anel de cadáveres e o anel de fogo.

Pode ter sido só imaginação, como podem ter sido apenas ecos, que induziram um dos homens, um excitável hispânico, a julgar ter ouvido respostas antifonais ao ritual, vindas de um distante e

penumbroso ponto no fundo da floresta de antigas lendas e horrores. Mais tarde encontrei e interroguei esse homem, Joseph D. Galvez, que mostrou ter uma imaginação delirante; de fato, ele chegou ao extremo de sugerir ter escutado um leve rufiar de grandes asas e vislumbrado olhos fulgurantes bem como um montanhoso vulto branco além das árvores remotas mas eu suponho que ele andara assimilando muita superstição local.

Na verdade, a pausa horrorizada dos homens foi de duração relativamente curta. O dever vinha em primeiro lugar; e embora houvesse quase cem celebrantes naquela horda, a polícia confiou em suas armas de fogo e investiu resolutamente contra a nauseante turba. Por cinco minutos o alarido e o caos resultantes foram indescritíveis. Golpes selvagens foram vibrados, tiros foram disparados e fugas ocorreram, mas no final Legrasse pôde contar uns quarenta e sete soturnos prisioneiros, os quais forçou a vestirem-se depressa e formar uma fila entre duas fileiras de policiais. Cinco dos adoradores jaziam mortos e dois gravemente feridos foram carregados em padiolas improvisadas por seus camaradas. A imagem sobre o monólito foi, é lógico, cuidadosamente removida e levada embora por Legrasse.

Interrogados na chefatura de polícia após uma jornada tensa e extenuante, verificou-se que todos os prisioneiros eram de classe social ínfima, mestiços e mentalmente perturbados. A maioria era de marinheiros, e um magote de negros e mulatos, quase todos das índias Ocidentais ou portugueses das ilhas de Cabo Verde, dava uma tintura de vodu ao culto heterogêneo.

Antes, porém, que muitas perguntas fossem feitas, ficou claro que se tratava de algo muito mais profundo e antigo do que o fetichismo negro. Degradadas e ignorantes que eram, aquelas criaturas atinham-se com surpreendente consistência à idéia central de seu credo abominável.

Eles adoravam, segundo disseram, os Grandes Antigos, que viveram muitas eras antes da existência do homem e que chegaram ao recém-criado mundo vindos do céu. Esses Antigos haviam agora desaparecido no interior da terra e sob o mar; porém, mesmo mortos, haviam transmitido seus segredos em sonhos ao primeiro homem, que instaurou um culto que jamais morrera. Era esse o culto que professavam, e os prisioneiros afirmaram que ele sempre existira e sempre existiria, oculto em distantes locais desertos e sombrios por todo o mundo, até o tempo em que o sumo sacerdote Cthulhu, de sua escura morada na poderosa cidade de R’lyeh, sob as águas do mar, se levantasse e pusesse de novo a terra sob seu domínio. Um dia ele chamaria, quando as estrelas estivessem prontas, e o culto secreto estaria sempre à espera para libertá-lo.

Até lá, nada mais seria dito. Havia um segredo que nem a tortura poderia extrair. A humanidade não estava de forma alguma sozinha entre os seres conscientes da terra, pois formas saíam das trevas para visitar os poucos fiéis. Mas esses não eram os Grandes Antigos. Nenhum homem jamais vira os Antigos. O ídolo esculpido representava o grande Cthulhu, mas ninguém poderia dizer se os outros eram ou não exatamente como ele. Ninguém era capaz hoje em dia de ler a antiga escrita, porém as coisas eram transmitidas por tradição oral. O cântico ritual não era o segredo – este nunca era falado em voz alta, apenas sussurrado.

O cântico significava apenas isto: “Na sua casa em R’lyeh, Cthulhu morto espera sonhando”.

Apenas dois dos prisioneiros foram considerados sãos o bastante para serem enforcados; os demais foram internados em diversas instituições. Todos negaram participação nos assassinatos rituais e asseveraram que estes haviam sido obra dos Asas Negras, que tinham vindo a eles oriundos do seu imemorial ponto de encontro na floresta assombrada. Mas desses misteriosos aliados nenhum relato coerente pôde ser obtido. A maior parte do que a polícia conseguiu averiguar veio de um mestiço fabulosamente idoso chamado Castro, que afirmava ter viajado a portos longínquos e falado com líderes imortais do culto nas montanhas da China.

O velho Castro recordava-se de fragmentos de medonhas lendas que empalideciam as especulações dos teosofistas e faziam homem e mundo parecerem recentes e efêmeros. Houve épocas em que outros Seres dominavam a terra, e Eles haviam erigido cidades colossais. De acordo com o que os chineses imortais lhe haviam dito, vestígios desses Seres podiam ainda ser encontrados nas rochas ciclópicas em ilhas do Pacífico. Todos Eles haviam morrido muitas eras antes da chegada do homem, mas havia artes capazes de fazê-los reviver quando as estrelas retornassem às posições certas no ciclo da eternidade. Eles mesmos tinham vindo das estrelas e trazido consigo Suas imagens.

Esses Grandes Antigos, prosseguiu Castro, não se compunham inteiramente de carne e ossos. Tinham forma – não o provava aquela imagem talhada nas estrelas? -, mas essa forma não era feita de matéria. Quando as estrelas assumiam a configuração correta, Eles podiam transportar-se de um mundo para outro pelo espaço sideral; mas quando as estrelas não eram favoráveis, Eles não podiam viver. Contudo, embora já não

vivessem, Eles nunca verdadeiramente morriam. Jaziam todos em suas moradas de pedra na grande cidade de R’lyeh, preservados pelos encantamentos do poderoso Cthulhu para uma gloriosa ressurreição quando as estrelas e a terra estivessem mais uma vez prontas para Eles. Chegado esse tempo, porém, alguma força exterior precisaria liberar Seus corpos. Os encantamentos que Os preservavam intactos também Os impediam de fazer o movimento inicial, e tudo que podiam fazer era ficar despertos nas trevas e meditar, enquanto milhões de anos se escoavam. Sabiam de tudo o que acontecia no universo, pois comunicavam-se por telepatia. Mesmo naquele instante conversavam em Suas tumbas. Quando, após infindáveis eras de caos o primeiro homem surgiu, os Grandes Antigos falaram aos mais sensíveis dentre eles dando forma aos seus sonhos, pois só assim Sua linguagem conseguia alcançar as mentes carnosas dos mamíferos.

Em seguida, sussurrou Castro, aqueles primeiros homens formaram o culto ao redor de pequenos ídolos que os Grandes lhes haviam mostrado, ídolos trazidos de estrelas sombrias na noite dos tempos. Aquele culto jamais morreria até que as estrelas ficassem propícias de novo, e então os sacerdotes secretos tirariam o grande Cthulhu da Sua tumba para que Este fizesse reviver os Seus súditos e retomasse o Seu domínio sobre a terra. O tempo seria fácil de reconhecer, pois por essa época a humanidade já teria se tornado como os Grandes Antigos: livres, selvagens, além do bem e do mal, ignorando leis e preceitos morais, com todo mundo gritando, matando e farreando em meio a feroz alegria. Então os Antigos, libertados, ensinar-lhes-iam novas formas de berrar e matar e farrear com alegria desenfreada, e toda a terra se inflamaria num holocausto de êxtase e liberdade. Até lá, cabia ao culto, mediante ritos apropriados, manter viva a memória daqueles procedimentos antediluvianos e prefigurar a profecia da volta d’Eles.

Em priscas eras homens eleitos haviam falado com os sepultados Antigos em sonhos, mas então algo acontecera: a grande cidade de pedra de R’lyeh, com seus monólitos e sepulcros, afundara sob as ondas, e as águas profundas, repletas do único mistério primordial que nem o pensamento pode atravessar, haviam interrompido o intercâmbio espectral.

Mas a memória nunca morreu, e os sumos sacerdotes diziam que a cidade emergiria de novo quando as estrelas se alinhassem corretamente. Então vieram das profundezas da terra os seus espíritos negros, bolorentos e trevosos, cheios de rumores ancestrais colhidos em cavernas sob esquecidos leitos oceânicos. Mas deles o velho Castro não ousou falar muito.

Calou-se apressadamente, e não houve persuasão ou sutileza capaz de extrair-lhe mais informações sobre o assunto.

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