O Chamado de Cthulhu · H.P. Lovecraft
Parte 3
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Curiosamente, evitou também mencionar o tamanho dos Antigos. A respeito do culto, afirmou crer que sua sede ficava nos desertos inacessíveis da Arábia, onde Irem, a Cidade dos Pilares, sonha oculta e intacta. Não tinha relação com os cultos de bruxaria europeus e, exceto por seus membros, era virtualmente desconhecido. Nenhum livro jamais aludiu diretamente a ele, embora os chineses imortais dissessem que havia duplos sentidos no Necronomicon, do árabe louco Abdul Alhazred, que os iniciados poderiam interpretar como quisessem, especialmente o polêmico dístico:
Não está morto o que pode eternamente jazer, E com estranhas eras pode até a morte morrer.
Legrasse, bastante impressionado e não pouco estupefato, havia investigado em vão sobre as afiliações históricas do culto.
Aparentemente Castro dissera a verdade ao afirmar que era totalmente secreto. As autoridades da Universidade de Tulane não puderam dar esclarecimento algum tanto a respeito do culto quanto da imagem, e agora o detetive viera consultar as maiores autoridades do país, sem nada obter além da estória da Groenlândia contada pelo professor Webb.
O interesse febril despertado na reunião por Legrasse e sua narrativa, corroborada pela estatueta, encontra eco na subseqüente correspondência dos que estavam presentes, embora haja escassa menção ao incidente na publicação formal da sociedade. Cautela é a preocupação máxima daqueles que estão acostumados à charlatanice e impostura ocasionais.
Legrasse emprestou a imagem por algum tempo ao professor Webb, mas com a morte deste, foi-lhe devolvida e com ele permanecia quando a vi, não faz muito tempo. É uma coisa verdadeiramente medonha, e inequivocamente aparentada à escultura sonhada e esculpida pelo jovem Wilcox.
Não me surpreendeu que a narrativa do escultor tivesse alvoroçado o meu tio, pois que idéias poderiam ocorrer-lhe, após saber o que Legrasse descobrira sobre o culto, ao ouvir um rapaz sensível dizer-lhe que sonhara não somente a figura e os hieróglifos exatos da imagem encontrada no pântano e do demoníaco baixo-relevo da Groenlândia, como também escutara em seus sonhos pelo menos três das palavras precisas da fórmula emitida tanto pelos diabolistas esquimós quanto pelos mestiços da Louisiana? Foi a coisa mais natural que o professor Angell iniciasse uma investigação aprofundada, ainda que eu privadamente suspeitasse que o jovem Wilcox ouvira falar do
culto de maneira indireta e tivesse inventado uma série de sonhos para intensificar e manter o mistério, às custas do meu tio. As narrativas de sonhos e os recortes coletados pelo professor eram, é claro, forte corroboração; mas o meu racionalismo e a extravagância da coisa toda levaram-me a adotar o que julguei ser a conclusão mais sensata. Assim, depois de estudar detidamente o manuscrito mais uma vez e de correlacionar as anotações teosóficas e antropológicas na narrativa feita por Legrasse sobre o culto, fiz uma viagem a Providence para ver o escultor e repreendê-lo devidamente por divertir-se às custas de um homem letrado e idoso.
Wilcox ainda vivia sozinho no edifício Fleur-de-Lys, na Rua Thomas, uma hedionda imitação vitoriana da arquitetura bretã do século xv1, que pavoneia sua fachada de estuque em meio às lindas casas coloniais na antiga colina, e à sombra do mais esplêndido campanário georgiano dos Estados Unidos.
Encontrei-o trabalhando em seus aposentos, e de imediato constatei, a julgar pelas suas peças espalhadas, que seu talento era de fato profundo e original. Acredito que um dia ele será aclamado como um dos grandes decadentistas, pois cristalizou na argila e um dia refletirá no mármore os pesadelos e fantasias que Arthur Machen evoca na prosa e Clark Ashton Smith torna visível no verso e na pintura.
Moreno, franzino e de aspecto algo desleixado, ele se voltou languidamente ao me ouvir bater à porta e, sem se levantar, perguntou-me a que vinha. Quando eu lhe disse quem eu era, ele demonstrou certo interesse; pois meu tio despertara-lhe a curiosidade ao investigar seus sonhos estranhos, embora nunca tivesse explicado a razão do seu interesse. Eu tampouco expliquei, mas procurei sutilmente fazer com que se abrisse comigo.
Em pouco tempo fiquei convencido da sua absoluta sinceridade, pois falou nos sonhos de um modo inequívoco. Os sonhos e o resíduo subconsciente deles haviam influenciado profundamente a sua arte, e ele me mostrou uma estátua mórbida cujos contornos quase me fizeram estremecer com a força de seu poder de negra evocação. Não se lembrava de ter visto o original daquilo, exceto no seu próprio baixo-relevo onírico, mas os contornos haviam-se formado insensivelmente sob suas mãos. Era, sem dúvida, o vulto gigantesco que ele entrevira no seu delírio. Deixou claro nada saber sobre o culto secreto, salvo o que o infatigável interrogatório do meu tio deixara escapar; e de novo me esforcei por imaginar algum modo pelo qual ele pudesse ter recebido as estranhas impressões.
Falou de seus sonhos num modo estranhamente poético, fazendo-me ver com assustadora nitidez a úmida cidade ciclópica de lodosa pedra verde (cuja geometria, ele enfatizou singularmente, estava “toda errada”) e escutar com apavorada expectativa a evocação incessante e quase mental oriunda do subterrâneo da terra: “Cthulhu fhtagn”, “Cthulhu lhtagn”.
Essas palavras tinham feito parte daquele ritual macabro que falava do morto Cthulhu à espera, sonhando, na sua tumba de pedra em R’lyeh, e senti-me profundamente abalado, apesar do meu racionalismo. Eu tinha certeza de que Wilcox ouvira falar no culto por acaso, mas logo se esquecera dele em meio à massa de suas leituras e imaginação igualmente bizarras. Mais tarde, em virtude da impressionabilidade do moço, a lembrança achara expressão subconsciente em sonhos, no baixo-relevo e na medonha estátua que eu agora via, de modo que sua impostura sobre o meu tio fora totalmente inocente. O rapaz, ao mesmo tempo meio afetado e ligeiramente mal-educado, não era do tipo que eu jamais poderia vir a gostar; mas eu estava ao menos disposto a reconhecer tanto o seu gênio quanto a sua honestidade. Despedi-me dele amigavelmente, desejando-lhe todo o sucesso que seu talento promete.
A questão do culto continuava a me fascinar, e às vezes eu tinha visões de fama pessoal obtida graças a pesquisas sobre sua origem e conexões. Visitei Nova Orleans, conversei com Legrasse e outros participantes da batida policial, vi a monstruosa imagem e até entrevistei alguns prisioneiros mestiços ainda vivos; o velho Castro, infelizmente, já morrera havia alguns anos. O que ouvi então, de forma tão nítida e em primeira mão, embora não fosse mais que uma confirmação detalhada daquilo que meu tio escrevera, voltou a me estimular, pois tive a certeza de estar na pista de uma religião muito real, muito secreta e muito antiga, cuja descoberta faria de mim um antropólogo de renome. Minha atitude era ainda de absoluto materialismo, como gostaria que ainda fosse, e descartei com inexplicável má vontade a coincidência entre os relatos de sonhos e os esquisitos recortes colecionados pelo professor Angell.
Uma coisa que comecei a suspeitar e que agora infelizmente eu sei; é que a morte do meu tio nada teve de natural. Ele caiu de uma ladeira estreita que saía de um antigo cais repleto de mestiços estrangeiros, após um descuidado empurrão de um marinheiro negro. Não esqueci o sangue misto e atividades navais dos membros do culto na Louisiana, e não me surpreenderia se viesse a ouvir falar de métodos secretos e agulhas envenenadas tão implacáveis e antigas quanto os rituais e credos crípticos. É verdade que Legrasse e seus homens foram deixados em paz; mas na Noruega, um certo homem do mar, que viu coisas, morreu. Será que as investigações mais profundas do meu tio, após o encontro com o escultor, não poderiam ter chegado a ouvidos sinistros? Eu acho que o professor Angell morreu porque sabia demais ou estava prestes a saber demais.
Se terei o mesmo fim que ele, é o que me resta saber, pois agora eu também sei demais.
III. A LOUCURA QUE VEIO DO MAR
Se aprouver aos céus conceder-me algum dia uma bênção, pedirei que seja o esquecimento total dos resultados do mero acaso que fixou meus olhos num certo pedaço perdido de papel que forrava uma prateleira. Não era algo com que eu normalmente tropeçaria no curso da minha rotina diária, pois tratava-se de um velho número de um jornal australiano, o Sydney Bulletin, de 18 de abril de 1925. A notícia escapara até mesmo ao escritório de recortes que, na época de sua publicação, coletava avidamente material para a pesquisa do meu tio.
Eu havia praticamente deixado de lado minhas investigações sobre o que o professor Angell chamava “Culto de Cthulhu”, e estava visitando um letrado amigo em Paterson, Nova Jersey, curador de um museu local e renomado mineralogista. Um dia, examinando amostras de reserva colocadas desordenadamente sobre as prateleiras de uma sala nos fundos do museu, meu olhar foi atraído por uma estranha gravura num dos velhos jornais espalhados debaixo das pedras. Era o exemplar do Sydney Bulletin a que me referi, pois meu amigo tinha amplas ligações em todos os países imagináveis; e a figura era uma litografia de uma horrorosa estatueta de pedra quase idêntica à que Legrasse encontrara no pântano.
Ansiosamente afastando da folha de jornal os preciosos espécimes minerais, estudei a notícia detalhadamente, mas fiquei desapontado ao ver que não era muito extensa. O que sugeria, no entanto, era de imensa importância para minha investigação algo desalentada, e rasguei cuidadosamente o recorte a fim de empreender ação imediata. Dizia o seguinte: NAVIO ABANDONADO ENCONTRADO NO MAR
Vigilant chega rebocando iate neozelandês armado e avariado.
Encontrados a bordo um sobrevivente e um morto. Estória de batalha desesperada e mortes em alto-mar. Marinheiro salvo recusa-se a dar detalhes da estranha experiência. Misterioso ídolo achado em seu poder. Será aberto Inquérito.
O cargueiro da Morrison Co., Vigilant, proveniente de Valparaíso, atracou esta manhã no porto de Darling, trazendo a reboque o avariado e inutilizado, mas fortemente armado, iate a vapor Alert, com matrícula de Dunedin, N. Z., que fora avistado no dia 12 de abril na latitude sul 34° 21′, longitude oeste 152° 17′, com um homem vivo e um morto a bordo.
O Vigilant deixou Valparaíso a 25 de março e, no dia 2 de abril, sua rota foi consideravelmente desviada para sul por fortíssimas tempestades e ondas monstruosas. Em 12 de abril foi avistado o barco à deriva, e embora aparentemente abandonado pela tripulação, foram encontrados a bordo um sobrevivente em estado de semi-delírio e um homem com evidências de estar morto há mais de uma semana.
O sobrevivente agarrava um horrível ídolo de pedra de origem desconhecida e cerca de um pé de altura, a respeito de cuja natureza as autoridades da Universidade de Sydney, da Royal Society e do Museu de College Street confessaram a mais absoluta ignorância, e que o sobrevivente afirma ter encontrado na cabina do iate, num pequeno relicário esculpido, de formato comum.
Após recuperar a consciência, esse homem narrou uma estória excessivamente estranha de pirataria e chacina. Seu nome é Gustaf Johansen, norueguês de alguma instrução, e servira como segundo-oficial da escuna Emma, de Auckland, que zarpou de Callao a 20 de fevereiro, com tripulação de onze homens.
A Emma, disse ele, foi retardada e largamente desviada de seu curso na direção sul pela grande tempestade de 1° de março; no dia 22 desse mês, na latitude sul 49° 51′ e longitude oeste 128°
34′, encontrou o Alert, tripulado por um esquisito e mal-encarado grupo de canacas e mestiços. Recebendo ordem peremptória de voltar, o capitão Collins recusou-se, ao que o estranho grupo abriu fogo violentamente e sem aviso sobre a escuna, com uma bateria peculiarmente pesada de canhões de bronze que faziam parte do equipamento do iate.
Os homens da Emma reagiram, prosseguiu o sobrevivente, e embora a escuna começasse a afundar devido a tiros que a atingiram abaixo da linha de flutuação, conseguiram abordar a embarcação inimiga e lutar corpo a corpo com os selvagens sobre o convés do iate, sendo forçados a matá-los todos, o número destes sendo ligeiramente maior, por causa de seu modo feroz e desesperado, ainda que despreparado, de lutar.
Três homens da Emma, incluindo o capitão Collins e o primeiro-oficial Green, foram mortos, e os oito restantes, sob comando do segundo-oficial Johansen, prosseguiram viagem no iate capturado, seguindo na direção original a fim de constatar se havia alguma razão para a ordem de retornar que tinham recebido.
No dia seguinte, ao que parece, desembarcaram numa pequena ilha, embora não conste a existência de ilha alguma naquela parte do oceano. Seis homens morreram em terra, ainda que Johansen seja estranhamente reticente sobre essa parte da estória, limitando-se a afirmar que caíram num abismo rochoso.
Parece que mais tarde ele e um companheiro voltaram ao iate e tentaram prosseguir viagem, mas foram atingidos pela tempestade do dia 2 de abril.
A partir desse dia até seu resgate no dia 12, o homem se lembra de pouca coisa, e não se recorda sequer de quando William Briden, seu companheiro, morreu. A morte de Briden não revela causa aparente e provavelmente deveu-se a choque emocional ou exposição contínua às intempéries.
Notícias recebidas de Dunedin informam que o Alert era bem conhecido por lá como navegador de cabotagem e que gozava de má reputação nos meios marítimos. Era de propriedade de um curioso grupo de mestiços cujas freqüentes reuniões e viagens noturnas aos bosques despertavam considerável curiosidade; zarpara com grande pressa logo depois da tempestade e dos tremores de terra de 1° de marco.
Nosso correspondente em Auckland atribui à Emma e sua tripulação uma reputação excelente, e Johansen é descrito como homem sóbrio e valoroso.
Amanhã o almirantado abrirá inquérito sobre o incidente, no qual serão feitos todos os esforços para induzir Johansen a falar mais do que até o momento.
Isso era tudo, juntamente com a foto da imagem infernal; mas que sucessão de idéias desencadeou na minha mente! Aqui estavam novos tesouros de informação sobre o Culto de Cthulhu, bem como evidências de que possuía estranhos interesses no mar tanto quanto em terra. Que motivo levara a tripulação de mestiços a ordenar o retorno da Emma enquanto navegavam com aquele medonho ídolo? Qual era a ilha desconhecida onde seis membros da tripulação da Emma haviam morrido e sobre a qual o imediato Johansen guardava tanto segredo? O que haveria descoberto a investigação do almirantado e o que se saberia em Dunedin sobre aquele culto nefasto? E o mais surpreendente de tudo: que profunda e sobrenatural ligação de datas era essa que dava um significado maligno e agora inegável aos vários episódios tão cuidadosamente anotados por meu tio?
A 1° de março (nosso 28 de fevereiro, segundo a hora do meridiano de Greenwich) haviam ocorrido o terremoto e a tempestade. De Dunedin o Alert e sua revoltante tripulação haviam zarpado ansiosamente, como se atendessem a um imperioso chamado, enquanto do outro lado da terra poetas e artistas haviam começado a sonhar com uma estranha e lodosa cidade ciclópica, e um jovem escultor moldara durante o sono a forma do temível Cthulhu. A 23 de março a tripulação da Emma desembarcava numa ilha desconhecida, deixando ali seis mortos; e na mesma data os sonhos de homens sensíveis assumiam grande nitidez e se ensombreciam com o pavor da perseguição maligna de um monstro gigantesco, ao passo que
um arquiteto enlouquecia e um escultor mergulhava repentinamente em total delírio! E o que dizer daquela tempestade de 2 de abril – data em que cessaram todos os sonhos da cidade lodosa e Wilcox emergiu incólume do cativeiro de sua estranha febre? O que dizer de tudo isso e das alusões do velho Castro sobre os Antigos, submersos filhos das estrelas cujo reinado estava próximo, do fervoroso culto que lhes era dedicado e do domínio que tenham sobre os sonhos? Estaria eu cambaleando à beira de horrores cósmicos além da capacidade humana de suportá-los? Se assim fosse, deveriam ser horrores apenas da mente, pois de alguma forma o dia 2 de abril pusera fim a qualquer ameaça monstruosa que iniciara seu assédio contra a alma da humanidade.
Naquela noite, após um dia inteiro de telegramas apressados e tomada de providências, despedi-me do meu anfitrião e embarquei num trem para São Francisco. Em menos de um mês estava em Dunedin, onde, contudo, descobri que pouco se sabia acerca dos estranhos membros do culto que haviam freqüentado as velhas tavernas do cais. A ralé do porto era comum demais para fazer jus a qualquer menção especial, embora se falasse vagamente sobre uma excursão terra adentro que aqueles mestiços haviam feito, e durante a qual tênues batidas de tambor e labaredas vermelhas nas colinas distantes tinham-se feito notar.
Em Auckland soube que Johansen havia retornado com os cabelos loiros totalmente brancos após um interrogatório superficial e inconcludente em Sydney, e que depois vendera sua pequena casa na Rua Oeste e zarpara com a esposa para seu antigo lar em Oslo. Nem aos seus amigos quis contar sobre a sua eletrizante experiência mais do que contara aos oficiais do almirantado, e o máximo que puderam fazer foi dar-me o endereço dele em Oslo.
Depois disso fui a Sydney e conversei sem proveito algum com marinheiros e integrantes do tribunal marítimo. Vi o Alert, agora vendido e sendo usado como cargueiro no Cais Circular, em Sydney Cove, mas nada ganhei com a visita à neutra embarcação. A imagem agachada, com sua cabeça de polvo, corpo de dragão, asas escamosas e pedestal coberto de hieróglifos era conservada no Museu de Hyde Park, e eu a estudei detidamente, constatando ser obra de rematada e artística malignidade, dotada do mesmo mistério profundo, assustadora antigüidade e estranheza alienígena de material que eu observara no espécime menor de Legrasse. O curador me contou que os geólogos consideravam-na um monstruoso enigma, pois juravam não haver no mundo rocha igual àquela. Então me lembrei, com um calafrio, do que o velho Castro dissera a Legrasse sobre os primordiais Grandes: “Tinham vindo das estrelas, trazendo consigo Suas imagens”.
Abalado por uma revolução mental como nunca experimentara antes, resolvi visitar o imediato Johansen em Oslo. Embarcando rumo a Londres, mal cheguei lá e tomei imediatamente um navio para a capital norueguesa, onde desembarquei em um dia de outono nos bem cuidados cais à sombra do Egeberg.
O endereço de Johansen, segundo apurei, ficava na Cidade Velha do rei Harold Haardrada, o bairro que manteve vivo o nome de Oslo durante os séculos em que a capital mascarou-se sob o nome de “Cristiânia”. Fiz o breve trajeto de táxi, e foi com o coração palpitante que bati à porta de um antigo e belo edifício com fachada de estuque. Atendeu-me uma mulher de rosto triste vestida de preto, e a decepção se abateu sobre mim quando ela me informou, num inglês trôpego, que Gustaf Johansen havia morrido.
Ele não sobrevivera muito tempo após o seu regresso, contou-me sua viúva, pois os acontecimentos no mar em 1925 haviam-no al quebrado. Johansen não contara à esposa mais do que contara ao público, porém deixara um longo manuscrito – sobre
“assuntos técnicos”, segundo disse – escrito em inglês, com o propósito evidente de salvaguardá-la do perigo de uma leitura casual. Durante um passeio por uma vi ela estreita próxima às docas de Gothenburg, fora derrubado por um pesado fardo de jornais caído da janela de um sótão. Dois marinheiros de Lascar imediatamente ajudaram-no a levantar-se, mas antes que a ambulância chegasse, ele já estava morto. Os médicos não encontraram causa específica para o óbito, atribuindo-o a problemas cardíacos e constituição debilitada.
Senti então remoer-me as entranhas aquele obscuro terror que nunca mais me deixará até que eu também venha a repousar, “acidentalmente” ou de outra forma. Tendo persuadido a viúva de que minha ligação com os “assuntos técnicos” de seu marido davam-me direito ao manuscrito, levei o documento comigo e comecei a lê-lo no navio de volta a Londres.
Prefere ler com marcador de progresso ou baixar o livro?
