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O Chamado de Cthulhu · H.P. Lovecraft

Parte 4

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A redação era simples e sem elegância de estilo – tentativa de marinheiro ingênuo de compor um diário a posterióri – e procurava reconstituir, dia a dia, aquela última e fatídica viagem.

Não há por que transcrevê-lo na íntegra com toda a sua ilegibilidade e redundâncias, mas narrarei o essencial do seu conteúdo para mostrar por que o barulho da água contra o casco do navio tornou-se tão insuportável para mim que tampei meus ouvidos com algodão.

Johansen, graças a Deus, não sabia de tudo, mesmo tendo visto a cidade e a Coisa, mas nunca voltarei a dormir calmamente de novo ao pensar nos horrores que espreitam incessantemente a vida no tempo e no espaço, e naquelas ímpias blasfêmias oriundas de imemoriais estrelas que sonham nas profundezas do mar, conhecidas e adoradas por um culto de pesadelo pronto e ansioso por soltá-las sobre o mundo assim que outro terremoto traga de novo à tona sua monstruosa cidade de pedra.

A viagem de Johansen havia começado exatamente como ele contou ao almirantado. A escuna Emma, com lastro, deixara Auckland a 20 de fevereiro, e sentira toda a força da tempestade causada pelo terremoto que deve ter feito emergir os horrores que preencheram os sonhos de tantos homens. Recuperado o controle da embarcação, esta prosseguia normalmente quando foi abordada pelo Alert a 22 de março, e pude sentir a tristeza do imediato ao descrever o bombardeio e afundamento do seu barco. Dos satanistas trigueiros do Alert ele fala com significativo horror. Havia neles algo de peculiarmente abominável que fazia com que a sua destruição parecesse quase um dever, e Johansen demonstra ingênua surpresa frente à acusação de desumanidade levantada contra o seu grupo durante os trabalhos da corte de inquérito. Então, levados adiante pela curiosidade no iate capturado, sob o comando de Johansen, os homens avistaram uma enorme coluna de pedra que se projetava fora do mar, e na latitude sul 47° 9′ e longitude oeste 126° 43′, deram com um litoral de lama, lodo e alvenaria ciclópica coberta de musgo que não podia ser outra coisa senão a substância tangível do supremo terror do planeta – a cadavérica cidade- pesadelo de R’lyeh, construída há incontáveis eras antes da História pelos gigantescos e nefastos vultos procedentes das estrelas sem luz. Ali jaziam o grande Cthulhu e suas hordas, ocultos em verdes criptas lodosas de onde finalmente, após ciclos incalculáveis, emitiam os pensamentos que infundem medo nos sonhos dos sensíveis e conclamam imperiosamente os fiéis a uma peregrinação de libertação e restauração.

Johansen nada suspeitava sobre isso, mas Deus sabe que ele logo veria o bastante!

Suponho que apenas o cume de uma montanha, a revoltante cidadela coroada por um monólito, onde estava sepultado o grande Cthulhu, emergiu verdadeiramente das águas. Quando penso na extensão de tudo o que pode estar à espreita lá embaixo, quase tenho vontade de me matar de uma vez.

Johansen e seus homens estavam boquiabertos perante a cósmica majestade daquela gotejante Babilônia de demônios ancestrais, e devem ter adivinhado, sem maior orientação, que não se tratava de nada proveniente deste ou de qualquer planeta são. Perplexo temor diante do incrível tamanho dos blocos de pedra esverdeados, da estonteante altura do grande monólito esculpido e da assombrosa identidade entre as colossais estátuas e baixos-relevos e a esdrúxula imagem encontrada no relicário do Alert, é flagrante em cada linha da assustada descrição do imediato.

Sem ter qualquer noção da escola artística a que se dá o nome de futurismo, Johansen chegou a algo muito próximo quando falou sobre a cidade; pois, ao invés de descrever qualquer estrutura ou edifício definidos, ele se refere apenas às amplas impressões de vastos ângulos e superfícies de pedra superfícies grandes demais para pertencer a qualquer coisa correta ou

apropriada nesta terra, e ímpias com aquelas horríveis imagens e hieróglifos. Menciono a alusão dele a ângulos porque sugere algo que Wilcox me dissera sobre seus arrepiantes sonhos; ele havia dito que a geometria do local do sonho era anormal, não-euclidiana, e perturbadoramente repleta de esferas e dimensões alheias às nossas. Agora um marujo iletrado sentia a mesma coisa encarando a terrível realidade.

Johansen e seus homens desembarcaram numa lamacenta encosta daquela monstruosa acrópole, e galgaram com dificuldade os titânicos blocos escorregadios que não poderiam ser uma escada para mortais. No céu, o próprio sol parecia distorcido quando visto através do miasma polarizador que subia daquela perversão encharcada de mar, e uma serpenteante ameaça e suspense pareciam espreitar de soslaio naqueles insanamente ilusórios ângulos de rocha talhada, onde um segundo olhar mostrava concavidade após o primeiro ter mostrado convexidade.

Algo muito próximo ao pavor já sobreviera a todos os exploradores antes que coisa mais definida do que pedra, lodo e algas fosse vista. Cada um deles teria fugido se não temesse a zombaria dos demais, e foi com entusiasmo mínimo que procuraram – em vão, como se veria – alguma pequena lembrança para levar consigo.

Foi Rodrigues, o português, que galgou o pé do monólito e gritou o que havia encontrado. Os demais seguiram-no e olharam cheios de curiosidade a imensa porta esculpida com o já familiar baixo relevo da lula-dragão. Segundo Johansen, era como uma enorme porta de celeiro; e todos julgaram ser uma porta devido ao dintel, umbral e batente ornamentados em volta, embora não

conseguissem determinar se era plana como um alçapão ou oblíqua como uma porta externa de porão. Como Wilcox diria, a geometria daquele lugar era toda errada. Não se podia ter certeza de que o mar e a terra fossem horizontais, daí a posição relativa de tudo o mais parecer fantasmagoricamente variável.

Briden empurrou a pedra em diversos lugares, sem resultado. Em seguida Donovan tateou delicadamente as beiradas, pressionando cada ponto em separado. Escalou interminavelmente a grotesca cornija de pedra – isto é, diríamos “escalar” se a coisa não fosse mesmo horizontal – enquanto os homens se perguntavam, atônitos, corno alguma porta no universo poderia ser tão vasta. Então, muito devagar e suavemente, o painel de meio hectare de extensão pôs-se a ceder para dentro na parte de cima, ao que puderam constatar que estava equilibrada.

Donovan deslizou ou de alguma forma propulsou-se para baixo ou ao longo do batente e veio juntar-se aos companheiros, e todos assistiram à estranha recessão do portal monstruosamente esculpido. Naquela fantasia de distorção prismática, ele se movia anomalamente em sentido diagonal, subvertendo todas as regras da matéria e da perspectiva.

A abertura era negra, de uma escuridão quase palpável. Aquela tenebrosidade tinha, com efeito, uma qualidade positiva, pois escurecia partes das paredes internas que deveriam estar claras, e na verdade se evolava como fumaça de seu imemorial aprisionamento, visivelmente eclipsando o sol à medida em que se esquivava pelo céu encolhido e convexo com esvoaçantes asas membranosas. O fedor que subiu das recém-abertas profundezas era insuportável, e logo depois Hawkins, que tinha ouvido apurado, julgou captar um asqueroso chapinhar vindo lá de baixo. Todos ficaram atentos, e continuavam atentos quando Aquilo assomou babosamente à vista e, às apalpadelas, espremeu Sua gelatinosa imensidão verde através da passagem negra para fora, ganhando o ar contaminado daquela peçonhenta cidade de loucura.

A caligrafia do pobre Johansen quase cedeu ao escrever essa parte. Dos seis homens que não voltaram ao navio, ele acha que dois morreram de puro pavor naquele instante amaldiçoado. A Coisa não pode ser descrita – não existem palavras capazes de expressar tais abismos de loucura estridente e imemorial, tais contradições alienígenas de toda matéria, força e harmonia cósmica. Uma montanha caminhava, ou cambaleava! Deus! Não admira que do outro lado da terra um grande arquiteto enlouquecesse e o pobre Wilcox delirasse de febre naquele instante telepático! A Criatura dos ídolos, o verde e pegajoso rebento das estrelas, despertara para reclamar o que era seu. As estrelas estavam novamente alinhadas, e o que um culto milenar falhara em fazer por fé, um bando de marinheiros inocentes fizera por acaso. Após trilhões de anos, o grande Cthulhu estava solto mais uma vez, e ávido de prazer.

Três homens foram varridos pelas flácidas garras antes que alguém pudesse se voltar para fugir. Que descansem em paz, se é que há algum descanso no universo. Foram eles Donovan, Guerrera e Angstrom. Parker escorregou enquanto os outros três disparavam freneticamente sobre panoramas intermináveis de rocha esverdeada rumo ao bote, e Johansen jura que ele foi tragado por um ângulo de alvenaria que não devia estar lá, um ângulo que, sendo agudo, comportava-se como se fosse obtuso.

De modo que somente Briden e Johansen alcançaram o bote, e remaram desesperadamente para o Alert enquanto a montanhosa monstruosidade descia desajeitadamente pelas pedras limosas e hesitava, cambaleante, à beira d’água.

O vapor continuava a sair do iate a despeito da saída de todos os homens para a praia, portanto bastou alguns momentos de febril corre-corre entre rodas e motores para fazer o Alert partir.

Lentamente, em meio aos horrores distorcidos daquele indescritível e infernal cenário, o iate começou a singrar as águas mortíferas, enquanto sobre as pedras lavradas daquela praia sepulcral que não pertencia a este planeta, a Coisa titânica vinda das estrelas espumava e vozeava como Polifemo praguejando contra o navio de Odisseu em fuga. Então, mais ousado que o lendário ciclope, o grande Cthulhu deslizou oleosamente para dentro d’água e começou a perseguir o iate, erguendo ondas com suas braçadas de potência cósmica. Briden olhou para trás e enlouqueceu, com ocasionais acessos de riso, até que a morte foi encontrá-lo certa noite na cabina, enquanto Johansen errava pelo convés a delirar.

Mas Johansen ainda não se rendera. Sabendo que a Coisa alcançaria facilmente o Alert antes que o vapor atingisse a pressão máxima, optou por uma saída desesperada: regulando o motor para velocidade total, correu como um raio ao convés e reverteu o timão. O mar cobriu-se de remoinhos e espuma, e enquanto o vapor subia cada vez mais, o valente norueguês dirigiu a nave contra a abominação gelatinosa que o perseguia erguendo-se das imundas ondas espumantes como o castelo de popa de um galeão demoníaco. A medonha cabeça de polvo com tentáculos retorcendo-se chegava quase à altura do gurupés do resoluto iate, mas Johansen prosseguiu inabalavelmente.

Houve um estouro como o de uma bexiga rebentando, o derrame de uma nojeira lamacenta como a que jorra de um peixe-lua partido, um fedor como de mil sepulturas abrindo-se de chofre e um som que o cronista negou-se a registrar. Por um instante o barco foi emporcalhado por uma nuvem verde, acre e cegante, e logo depois havia apenas um empeçonhado fervilhar à ré, onde –

Deus do Céu! a espalhada plasticidade daquele inominável rebento sideral estava nebulosamente recompondo-se na sua execrável forma original, distanciando-se cada vez mais à medida em que o Alert ganhava velocidade de seu vapor ascendente.

Isso foi tudo. Depois disso Johansen limitou-se a contemplar o ídolo na cabina e a providenciar comida para si e para o maníaco risonho do seu lado. Não tentou navegar depois daquela façanha, pois a experiência como que lhe esvaziara a alma.

Sobreveio então a tempestade de 2 de abril e uma concentração de nuvens que lhe obscureceram a consciência. Teve uma sensação de turbilhão espectral por líquidos golfos de infinito, de Jornadas estupefacientes através de universos giratórios numa cauda de cometa, e de mergulhos histéricos das profundezas do inferno até a lua e da lua de volta às profundezas do inferno, tudo isso animado por um coro gargalhante dos deuses ancestrais, disformes e hilários, e dos zombeteiros demônios do Tártaro, verdes e com asas de morcego.

Saído desse sonho veio o socorro – o Vigilant, a corte do almirantado, as ruas de Dunedin e a longa viagem de volta ao lar, à velha casa às margens do Egeberg. Não podia falar nada – tê-lo-iam julgado louco. Ele haveria de escrever o que sabia antes que a morte chegasse, mas era necessário que sua esposa de nada desconfiasse. A morte viria como uma bênção se ao menos obliterasse as lembranças.

Esse foi o documento que eu li, e que então coloquei na caixa de metal junto com o baixo-relevo e os papéis do professor Angell. A eles acrescentarei este meu relato -prova da minha sanidade, no qual reuni as peças de algo que, espero, nunca mais ninguém volte a decifrar. Vi tudo o que o universo pode conter de horror, e depois disso até mesmo os céus primaveris e as flores de verão serão veneno para mim. Mas não creio que minha vida será longa. Como meu tio se foi, como o pobre Johansen se foi, também eu irei. Sei demais, e o culto ainda vive.

Cthulhu também vive ainda, acredito, naquele precipício de pedra que o vem abrigando desde a infância do sol. Sua amaldiçoada cidade tornou a afundar, pois o Vigilant percorreu aquela região após a tempestade de abril; mas seus adoradores na terra ainda urram, saltam e matam ao redor de ídolos sobre monólitos em locais ermos e solitários.

Ele deve ter sido surpreendido pelo afundamento quando se achava no seu abismo negro, do contrário o mundo inteiro estaria agora berrando de pavor e frenesi. Quem sabe qual será o final?

O que emergiu pode afundar, e o que afundou pode emergir. A repugnância suprema aguarda sonhando nas profundezas e a podridão paira sobre as precárias cidades dos homens. O tempo virá… mas não devo, nem posso pensar! Só me resta a esperança de que, se eu não sobreviver a este manuscrito, meus testamenteiros tenham mais precaução que audácia e impeçam que outros olhos o vejam.

Fim

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