As Primaveras · Casimiro de Abreu
Parte 4
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XLII
Ninon, Ninon, que fais tu de la vie?
L’heure s’enfuit, le jour succede au jour.
Rose ce soir, demain flétrie,
Comment vis-tu, toi qui n’as pas d’amour?!
Musset
Doce filha da lânguida tristeza
Ergue a fronte pendida – o sol fulgura!
Quando a terra sorri-se e o mar suspira
Por que te banha o rosto essa amargura?!
Por que chorar quando a natura é risos,
Quando no prado a primavera é flores?
– Não foge a rosa quando o sol a busca
Antes se abrasa nos gentis fulgores.
Não! – Viver é amar, é ter um dia
Um amigo, uma mão que nos afague;
Uma voz que nos diga os seus queixumes,
Que as nossas mágoas com amor apague.
A vida é um deserto aborrecido
Sem sombra doce, ou viração calmante;
– Amor – é a fonte que nasceu nas pedras
E mata a sede à caravana errante.
Amai-vos! disse Deus criando o mundo,
Amemos! – disse Adão no paraíso,
Amor! – murmura o mar nos seus queixumes,
Amor! – repete a terra num sorriso!
Doce filha da lânguida tristeza
Tua alma a suspirar de amor definha...
– Abre os olhos gentis à luz da vida,
Vem ouvir no silêncio a voz da minha!
Amemos! Este mundo é tão tristonho!
A vida, como um sonho – brilha e passa;
Porque não havemos p’ra acalmar as dores
Chegar aos lábios o licor da taça?
O mundo! o mundo! – E que te importa o mundo?
– Velho invejoso, a resmungar baixinho!
Nada perturba a paz serena e doce
Que as rolas gozam no seu casto ninho.
Amemos! – tudo vive e tudo canta...
Cantemos! seja a vida – hinos e flores;
De azul se veste o céu... vistamos ambos
O manto perfumado dos amores.
* * *
Doce filha da lânguida tristeza
Ergue a fronte pendida – o sol fulgura!
– Como a flor indolente da campina
Abre ao sol da paixão tua alma pura!
Setembro – 1858.
Noivado
XLIII
Filha do céu – oh flor das esperanças,
Eu sinto um mundo no bater do peito!
Quando a lua brilhar num céu sem nuvens
Desfolha rosas no virgíneo leito.
* * *
Nas horas do silêncio inda és mais bela!
Banhada do luar, num vago anseio,
Os negros olhos de volúpia mortos
Por sob a gaze te estremece o seio!
Vem! a noite é linda, o mar é calmo,
Dorme a floresta – meu amor só, vela;
Suspira a fonte e minha voz sentida
É doce e triste como as vozes dela.
Qual eco fraco de amorosa queixa
Perpassa a brisa na magnólia verde,
E o som magoado do tremer das folhas
Longe – bem longe – devagar se perde.
Que céu tão puro! que silêncio augusto!
Que aromas doces! que natura esta!
Cansada a terra adormeceu sorrindo
Bem como a virgem no cair da sesta!
Vem! tudo é tranqüilo, a terra dorme,
Bebe o sereno o lírio do valado...
– Sozinhos, sobre a relva da campina,
Que belo que será nosso noivado!
Tu dormirás ao som dos meus cantares
Oh! filha do sertão! sobre o meu peito.
O moço triste, o sonhador mancebo
Desfolha rosas no teu casto leito.
* * *
....– 1858.
De Joelhos
XLIV
Qual reza o irmão pelas irmãs queridas,
Ou a mãe que sofre pela filha bela,
Eu – de joelhos – com as mãos erguidas,
Suplico ao céu a felicidade dela.
– “Senhor meu Deus, que sois clemente e justo,
Que dais voz às brisas e perfume à rosa,
Oh! protegei-a com o manto augusto
A doce virgem que sorri medrosa!
Lançai os olhos sobre a linda filha,
Dai-lhe o sossego no seu casto ninho,
E da vereda que seu pé já trilha
Tirai a pedra e desviai o espinho!
Senhor! livrai-a da rajada dura
A flor mimosa que desponta agora;
Deitai-lhe orvalho na corola pura,
Dai-lhe bafejos, prolongai-lhe a aurora!
A doce virgem como a tenra planta
Nunca floresce sobre terra ingrata;
– Bem como a rola – qualquer folha a espanta,
– Bem como o lírio – qualquer vento a mata.
Ela é a rola que a floresta cria,
Ela é o lírio que a manhã descerra...
Senhor, amai-a! – a sua voz macia
Como a das aves, a inocência encerra!
Sua alma pura na novel vertigem
Pede ao amor o seu futuro inteiro...
– Senhor! ouvi o suspirar da virgem,
Dourai-lhe os sonhos no sonhar primeiro!
A mocidade, como a deusa antiga,
Na fronte virgem lhe derrama flores...
– Abri-lhe as rosas da grinalda amiga,
Na mocidade derramai-lhe amores!
Cercai-a sempre de bondade terna,
Lançai orvalho sobre a flor querida;
Fazei-lhe oh Deus! a primavera eterna,
Dai-lhe bafejos – prolongai-lhe a vida!
Depois – de joelhos – eu direi sois justo,
Senhor! mil graças eu vos rendo agora!
Vós protegestes com o manto augusto
A doce virgem que a minh’alma adora! –
Dezembro – 1858.
Três Cantos
XLV
Quando se brinca contente
Ao despontar da existência
Nos folguedos de inocência,
Nos delírios de criança;
A alma, que desabrocha
Alegre, cândida e pura –
Nessa contínua ventura
É toda um hino: – esperança!
Depois... na quadra ditosa,
Nos dias da juventude,
Quando o peito é um alaúde,
E que a fronte tem calor;
A alma que então se expande
Ardente, fogosa e bela –
Idolatrando a donzela
Soletra em trovas: – amor!
Mas quando a crença se esgota
Na taça dos desenganos,
E o lento correr dos anos
Envenena a mocidade;
Então a alma cansada
Dos belos sonhos despida,
Chorando a passada vida –
Só tem um canto: – saudade!
Fevereiro – 1858.
Ilusão
XLVI
Quando o astro do dia desmaia
Só brilhando com pálido lume,
E que a onda que brinca na praia
No murmúrio soletra um queixume;
Quando a brisa da tarde respira
O perfume das rosas do prado,
E que a fonte do vale suspira
Como o nauta da pátria afastado;
Quando o bronze da torre da aldeia
Seus gemidos aos ecos envia,
E que o peito que em mágoas anseia
Bebe louco essa grave harmonia;
Quando a terra, da vida cansada,
Adormece num leito de flores
Qual donzela formosa embalada
Pelos cantos dos seus trovadores;
Eu de pé sobre as rochas erguidas
Sinto o pranto que manso desliza
E repito essas queixas sentidas
Que murmuram as ondas co’a brisa.
É então que a minha alma dormente
Duma vaga tristeza se inunda,
E que um rosto formoso, inocente,
Me desperta saudade profunda.
Julgo ver sobre o mar sossegado
Um navio nas sombras fugindo,
E na popa esse rosto adorado
Entre prantos p’ra mim se sorrindo!
Compreendo esse amargo sorriso,
Sobre as ondas correr eu quisera...
E de pé sobre a rocha, indeciso,
Eu lhe brado: – não fujas, – espera!
Mas o vento já leva ligeiro
Esse sonho querido dum dia,
Essa virgem de rosto fagueiro,
Esse rosto de tanta poesia!...
E depois... quando a lua ilumina
O horizonte com luz prateada,
Julgo ver essa fronte divina
Sobre as vagas cismando, inclinada!
E depois... vejo uns olhos ardentes
Em delírio nos meus se fitando,
E uma voz em acentos plangentes
Vem de longe um – adeus – soluçando!
* * *
Ilusão!... que a minha alma, coitada,
De ilusões hoje em dia é que vive;
É chorando uma gloria passada,
É carpindo uns amores que eu tive!
Lisboa – 1856.
Sonhando
XLVII
Um dia, oh linda, embalada
Ao canto do gondoleiro,
Adormeceste inocente
No teu delírio primeiro,
– Por leito o berço das ondas,
Meu colo por travesseiro!
Eu, pensativo, cismava
Nalgum remoto desgosto,
Avivado na tristeza
Que a tarde tem, ao sol-posto,
E ora mirava as nuvens,
Ora fitava teu rosto.
Sonhavas então, querida,
E presa de vago anseio
Debaixo das roupas brancas
Senti bater o teu seio,
E meu nome num soluço
À flor dos lábios te veio!
Tremeste como a tulipa
Batida do vento frio...
Suspiraste como a folha
Da brisa ao doce cicio...
E abriste os olhos sorrindo
Às águas quietas do rio!
Depois – uma vez – sentados
Sob a copa do arvoredo,
Falei-te desse soluço
Que os lábios abriu-te a medo...
– Mas tu, fugindo, guardaste
Daquele sonho o segredo!...
Agosto – 1858.
Lembrança
XLVIII
Num Álbum
Como o triste marinheiro
Deixa em terra uma lembrança,
Levando n’alma a esperança
E a saudade que consome,
Assim nas folhas do álbum
Eu deixo meu pobre nome.
E se nas ondas da vida
Minha barca for fendida
E meu corpo espedaçado,
Ao ler o canto sentido
Do pobre nauta perdido
Teus lábios dirão: – coitado!
Junho – 1858.
O Baile!
XLIX
Se junto de mim te vejo
Abre-te a boca um bocejo,
Só pelo baile suspiras!
Deixas amor – pelas galas,
E vais ouvir pelas salas
Essas douradas mentiras!
Tens razão! Mais valem risos
Fingidos, desses Narcisos
– Bonecos que a moda enfeita –
Do que a voz sincera e rude
De quem, prezando a virtude,
Os atavios rejeita.
Tens razão! – Valsa, donzela,
A mocidade é tão bela,
E a vida dura tão pouco!
No burburinho das salas,
Cercada de amor e galas,
Sê tu feliz – eu sou louco!
E quando eu seja dormido
Sem luz, sem voz, sem gemido,
No sono que a dor conforta;
Ao concertar tuas tranças
No meio das contradanças
Diz tu sorrindo: “– Qu’importa?..
“Era um louco, em noites belas
“Vinha fitar as estrelas
“Nas praias, co’a fronte nua!
“Chorava canções sentidas
“E ficava horas perdidas
“Sozinho, mirando a lua!
“Tremia quando falava
“E – pobre tonto – chamava
“O baile – alegrias falsas!
“– Eu gosto mais dessas falas
“Que me murmuram nas salas
“No ritornelo das valsas. – ”
Tens razão! – Valsa, donzela,
A mocidade é tão bela
E a vida dura tão pouco!
P’ra que fez Deus as mulheres,
P’ra que há na vida prazeres?
Tu tens razão... eu sou louco!
Sim, valsa, é doce a alegria,
Mas ai! que eu não veja um dia
No meio de tantas galas –
Dos prazeres na vertigem,
A tua coroa de virgem
Rolando no pó das salas!...
Julho – 1858.
Minh’alma É Triste
L
Mon coeur est plein – je veux pleurer!
Lamartine
I
Minh’alma é triste como a rola aflita
Que o bosque acorda desde o albor da aurora,
E em doce arrulo que o soluço imita
O morto esposo gemedora chora.
E, como a rola que perdeu o esposo,
Minh’alma chora as ilusões perdidas,
E no seu livro de fanado gozo
Relê as folhas que já foram lidas.
E como notas de chorosa endecha
Seu pobre canto com a dor desmaia,
E seus gemidos são iguais à queixa
Que a vaga solta quando beija a praia.
Como a criança que banhada em prantos
Procura o brinco que levou-lhe o rio,
Minh’alma quer ressuscitar nos cantos
Um só dos lírios que murchou o estio.
Dizem que há gozos nas mundanas galas,
Mas eu não sei em que o prazer consiste.
– Ou só no campo, ou no rumor das salas,
Não sei porque – mas a minh’alma é triste!
II
Minh’alma é triste como a voz do sino
Carpindo o morto sobre a laje fria;
E doce e grave qual no templo um hino,
Ou como a prece ao desmaiar do dia.
Se passa um bote com as velas soltas,
Minh’alma o segue n’amplidão dos mares;
E longas horas acompanha as voltas
Das andorinhas recortando os ares.
Às vezes, louca, num cismar perdida,
Minh’alma triste vai vagando à toa,
Bem como a folha que do sul batida
Bóia nas águas de gentil lagoa!
E como a rola que em sentida queixa
O bosque acorda desde o albor da aurora,
Minh’alma em notas de chorosa endecha
Lamenta os sonhos que já tive outrora.
Dizem que há gozos no correr dos anos!...
Só eu não sei em que o prazer consiste.
– Pobre ludíbrio de cruéis enganos,
Perdi os risos – a minh’alma é triste!
III
Minh’alma é triste como a flor que morre
Pendida à beira do riacho ingrato;
Nem beijos dá-lhe a viração que corre,
Nem doce canto o sabiá do mato!
E como a flor que solitária pende
Sem ter carícias no voar da brisa,
Minh’alma murcha, mas ninguém entende
Que a pobrezinha só de amor precisa!
Amei outrora com amor bem santo
Os negros olhos de gentil donzela,
Mas dessa fronte de sublime encanto
Outro tirou a virginal capela.
Oh! quantas vezes a prendi nos braços!
Que o diga e fale o laranjal florido!
Se mão de ferro espedaçou dois laços
Ambos choramos mas num só gemido!
Dizem que há gozos no viver d’amores,
Só eu não sei em que o prazer consiste!
– Eu vejo o mundo na estação das flores...
Tudo sorri – mas a minh’alma é triste!
IV
Minh’alma é triste como o grito agudo
Das arapongas no sertão deserto;
E como o nauta sobre o mar sanhudo,
Longe da praia que julgou tão perto!
A mocidade no sonhar florida
Em mim foi beijo de lasciva virgem:
– Pulava o sangue e me fervia a vida,
Ardendo a fronte em bacanal vertigem.
De tanto fogo tinha a mente cheia!...
No afã da glória me atirei com ânsia...
E, perto ou longe, quis beijar a s’reia
Que em doce canto me atraiu na infância.
Ai! Loucos sonhos de mancebo ardente!
Esp’ranças altas... Ei-las já tão rasas!...
– Pombo selvagem, quis voar contente...
Feriu-me a bala no bater das asas!
Dizem que há gozos no correr da vida...
Só eu não sei em que o prazer consiste!
– No amor, na glória, na mundana lida,
Foram-se as flores – a minh’alma é triste!
Março 12. – 1858.
Palavras a Alguém
LI
Tu folgas travessa e louca
Sem ouvires meu lamento,
Sonhas jardins d’esmeralda
Nesse virgem pensamento,
Mas olha que essa grinalda
Bem pode murchá-la o vento!
Ai que louca! abriste o livro
Da minh’alma, livro santo,
Escrito em noites d’angústia,
Regado com muito pranto,
E... quase rasgaste as folhas
Sem entenderes o canto!
Agora corres nos charcos
Em vez das alvas areias!
Deleita-te a voz fingida
Dessas formosas sereias.
Mas eu te falo e te aviso:
– “Olha que tu te enlameias!” –
Tu és a pomba inocente,
Eu sou teu anjo-da-guarda,
Devo dizer-te baixinho:
– “Olha que a morte não tarda!
“Mariposa dos amores
“Deixa a luz, embora arda.
“A chama seduz e brilha
– “Qual diamante entre as gazas –
“E tu no fogo maldito
“Tão descuidosa te abrasas!
“Mariposa, mariposa,
“Tu vais queimar tuas asas!”
Conchinha das lisas praias
Nasceste em alvas areias,
Não corras tu para os charcos
Arrebatada nas cheias!...
– Os teus vestidos são brancos...
Olha que tu te enlameias!...
...– 1858.
Folha Negra
LII
Sinhá,
Um outro mancebo
Alegre, poeta e crente,
Soltara um canto fervente
De amor talvez! – de alegria,
E aqui nas folhas do livro
Deixara – amor e poesia.
Mas eu que não tenho risos
Nem alegrias tão pouco,
Nem sinto esse fogo louco
Que a mocidade consome,
Nas brancas folhas do livro
Só posso deixar meu nome!
É triste como um gemido,
É vago como um lamento;
– Queixume que solta o vento
Nas pedras duma ruma
Na hora em que o sol se apaga
E quando o lírio s’inclina!...
Grito de angústia do pobre
Que sobre as águas se afoga,
Cadáver que bóia e voga
Longe da praia querida,
Grito de quem n’agonia
– Já morto – se apega à vida!
Vozes de flauta longínqua
Que as nossas mágoas aviva,
Soluço da patativa,
Queixume do mar que rola,
Cantiga em noite de lua
Cantada ao som da viola!...
Saudades do pegureiro
Que chora o seu lar amado,
– Calado e só – recostado
Na pedra dalgum caminho...
Canção de santa doçura
Da mãe que embala o filhinho!...
Meu nome!... É simples e pobre
Mas é sombrio e traz dores,
– Grinalda de murchas flores
Que o sol queima e não consome...
– Sinhá!... das folhas do livro
É bom tirar o meu nome!...
Setembro – 1858.
À Morte de Affonso de A. Coutinho Messeder
LIII
Estudante da Escola Central
Who hath not lost a friend?…
M
É triste ver a flor que desabrocha
Ou quer no prado, ou na deserta rocha,
Pender no fraco hastil!
É bem triste dos anos nos verdores
Morrer mancebo, no brotar das flores,
Na quadra juvenil!
Meu Deus! tu que és tão bom e tão clemente,
P’ra que apagas, Senhor, a chama ardente
Num crânio de vulcão?
P’ra que poupas o cedro já vetusto
E, sem dó, vais ferir o pobre arbusto
Às vezes no embrião?!...
Pois não fora melhor vivesse a planta
Cujo perfume a solidão encanta
No sossego do val?...
– Não veríamos nós neste martírio
Desfalecer tão belo o pobre lírio
Pendido ao vendaval!
Pobre mancebo! Nesse peito nobre
E nessa fronte que o sepulcro cobre
Era fundo o sentir!
Agora solitário tu descansas,
E contigo esse mundo de esperanças
Tão rico de porvir!
Oh! lamentemos essa pura estrela
Sumida, como no horizonte a vela
Nas névoas da manhã!
A sepultura foi há pouco aberta...
Mas o dormente já se não desperta
À voz de sua irmã!
É mudo aquele a quem irmão chamamos,
E a mão que tantas vezes apertamos
Agora é fria já!
Não mais nos bancos esse rosto amigo
Hoje escondido no fatal jazigo
Conosco sorrirá!
Mancebo, atrás da glória que sorria,
Sonhou grandezas para a pátria um dia,
E a ela os sonhos deu;
Mártir do estudo, na ciência ingrata
Bebeu nos livros esse fel que mata
E pobre adormeceu!
Era bem cedo! – na manhã da vida
Chegar não pôde à terra prometida
Que ao longe lhe sorriu!
Embora desta estrada nos espinhos
Feliz tivesse os maternais carinhos,
Cansado sucumbiu!
Era bem cedo! – Tanta glória ainda
O esperava, meu Deus, na aurora linda
Que a vida lhe dourou!
Pobre mancebo! no fervor dessa alma
Ao colher do futuro a verde palma
Na cova tropeçou!
Dorme pois! Sobre a campa mal cerrada,
Nós que sabemos que esta vida é nada
Choramos um irmão;
E d’envolta c’os prantos da amizade
Aqui trazemos, nos goivos da saudade,
As vozes da oração!
Eu que fui teu amigo inda na infância,
Quando as almas das rosas na fragrância
Bendizem só a Deus –
Hoje venho nas cordas do alaúde
Sentido e grave, à beira do ataúde
Dizer-te o extremo adeus!
Descansa! se no céu há luz mais pura,
De certo gozarás nessa ventura
Do justo a placidez!
Se há doces sonhos no viver celeste,
Dorme tranqüilo à sombra do cipreste...
– Não tarda a minha vez!
Maio – 1858.
Berço e Túmulo
LIV
No Álbum duma Menina
Trago-te flores no meu canto amigo
– Pobre grinalda com prazer tecida –
E – todo amores – deposito um beijo
Na fronte pura em que desponta a vida.
É cedo ainda! – quando moça fores
E percorreres deste livro os cantos,
Talvez que eu durma solitário e mudo
– Lírio pendido a que ninguém deu prantos! –
Então, meu anjo, compassiva e meiga
Depõe-me um goivo sobre a cruz singela,
E nesse ramo que o sepulcro implora
Paga-me as rosas desta infância bela!
Junho – 1858..
Infância
LV
Ó anjo da loura trança,
Que esperança
Nos traz a brisa do sul!
– Correm brisas das montanhas...
Vê se apanhas
A borboleta de azul!...
Ó anjo da loura trança,
És criança,
A vida começa a rir.
– Vive e folga descansada,
Descuidada
Das tristezas do porvir.
Ó anjo da loura trança,
Não descansa
A primavera inda em flor;
Por isso aproveita a aurora
Pois agora
Tudo é riso e tudo amor.
Ó anjo da loura trança,
A dor lança
Em nossa alma agro descrer.
– Que não encontres na vida
Flor querida,
Senão contínuo prazer.
Ó anjo da loura trança,
A onda é mansa
O céu é lindo dossel;
E sobre o mar tão dormente,
Docemente
Deixa correr teu batel.
Ó anjo da loura trança,
Que esperança
Nos traz a brisa do sul!...
– Correm brisas das montanhas...
Vê se apanhas
A borboleta de azul!...
Rio – 1858.
A uma Platéia
LVI
O cedro foi planta um dia,
Viço e força o arbusto cria,
Da vergôntea nasce o galho;
E a flor p’ra ter mais vida,
Para ser – rosa querida –
Carece as gotas de orvalho.
Com o talento é o mesmo
Quando tímido ele adeja
– Qual ave que se espaneja –
Como a flor, também precisa
Em vez do sopro da brisa
O sopro da simpatia
Que lhe adoce os amargores,
Para em horas de cansaço
Na estrada que vai trilhando
Encontrar de quando em quando
Por entre os espinhos – flores.
E vós que acabais de ouvi-lo
A suspirar nesse trilo
No seu gorjeio primeiro;
Vós, que viste o seu começo.
Dai-lhe essas palmas de apreço
Que é artista e... brasileiro!
Setembro – 1858.
No Túmulo dum Menino
LVII
Um anjo dorme aqui: na aurora apenas,
Disse adeus ao brilhar das açucenas
Sem ter da vida alevantado o véu.
– Rosa tocada do cruel granizo –
Cedo finou-se e no infantil sorriso
Passou do berço p’ra brincar no céu!
Maio – 1858.
A J.J.C. Macedo-Junior
LVIII
Poéte, prends ta lyre; aigle, ouvre ta jeune aile;
Etoile, etoile, léve-toi!
V. Hugo.
Como o índio a saudar o sol nascente,
Co’o sorriso nos lábios, franco e ledo
Aperto a tua mão:
Cantor das açucenas, crê-me agora,
Este canto que a lira balbucia
É pobre, mas de irmão!
Quando se sente como eu sinto e sofro,
A mente ferve e o coração palpita
De glórias e de amor:
Se ouço Arthur ao piano eu me extasio,
Mas ouvindo teus hinos me arrebato
E pasmo ante o cantor!
Na juventude, no florir dos anos,
Não sei que vozes nos entornam n’alma
Canções de querubim!
Uns perdem, como eu, cedo os verdores,
Mas outros crescem no primor das graças
E tu serás assim!
Oh! mocidade! como és bela e rica!
Hinos de amores neste sec’lo bruto!
Louvor ao menestrel!
Palmas a ti, cantor das açucenas!
Quatorze primaveras nessa fronte
Semelham-te um laurel!
Quando tão moço, no raiar da vida,
Já doce cantas como o doce aroma
Das lânguidas cecéns,
Podes, criança, erguer a fronte altiva!
Como André-Chénier, no crânio augusto
Alguma cousa tens!
Não desmintas, irmão, este profeta,
Sibarita indolente, sobre rosas
Não queiras tu dormir,
Se ao longe já te brilha amiga estrela
Aproveita o talento – estuda e pensa –
É belo o teu porvir!
Não faças como nós; na infância apenas
Solta poeta o gorjear de amores
Que é doce o teu cantar.
Seja a vida p’ra ti só riso e galas
E adormeças a cismar quimeras
Da noite no luar.
Não faças como nós; não desças louco
A buscar sensações na bruta orgia
Das longas saturnais;
Se a lama impura salpicar-te as penas,
Sacode as asas minha pomba casta
E foge dos pardais.
Não manches meu poeta as vestes brancas
No mundo infame; mirra-se a grinalda
E vão-se as ilusões!
A crença se desbota e o nauta chora
Desanimado no vaivém teimoso
Dos grossos vagalhões!
Foge do canto da gentil sereia
Que engana com sorriso de feitiços
– Tão pálida Rachel!
Não encostes na taça os lábios sôfregos...
O vaso queima e beberás nos risos
Da amargura o fel!
Conserva na tua alma a virgindade,
E tenha o coração na rica aurora
Das rosas o matiz;
Se a donzela cuspir nos teus amores
Chora perdida essa ilusão primeira...
Mas vive e sê feliz!
Se a dor for grande não te vergues fraco,
Oh! não escondas no sepulcro a fronte
Aos raios deste sol;
Não vás como Azevedo – o pobre gênio –
Embrulhar-te sem dó na flor dos anos
Da morte no lençol!
Vive e canta e ama esta natura,
A pátria, o céu azul, o mar sereno,
A veiga que seduz;
E possa meu poeta essa existência
Ser um lindo vergel todo banhado
De aromas e de luz!
Oh! canta e canta sempre! esses teus hinos
Eu sei, terão no céu ecos mais santos
Que a terra não dará;
Oh! canta! é doce ao triste que soluça
Ouvir saudoso no cair da tarde
A voz do sabiá!
Canta! e que teus hinos d’esperança
Despertem deste mundo de misérias
A estúpida mudez;
E dos prelúdios dessa lira ingênua
Em poucos anos surgirá brilhante
Millevoye – talvez!
Maio – 1858.
Uma História
Prefere ler com marcador de progresso ou baixar o livro?
