As Primaveras · Casimiro de Abreu
Parte 5
5 de 5
LIX
A brisa dizia à rosa:
– “Dá, formosa,
Dá-me, linda, o teu amor;
Deixa eu dormir no teu seio
Sem receio,
Sem receio minha flor!
Da tarde virei da selva
Sobre a relva
Os meus suspiros te dar;
E de noite na corrente
Mansamente
Mansamente te embalar!” –
E a rosa dizia à brisa:
– “Não precisa
Meu seio dos beijos teus;
Não te adoro... és inconstante...
Outro amante,
Outro amante aos sonhos meus!
Tu passas de noite e dia
Sem poesia
A repetir-me os teus ais;
Não te adoro... quero o Norte
Que é mais forte
Que é mais forte e eu amo mais!” –
No outro dia a pobre rosa
Tão vaidosa
No hastil se debruçou;
Pobre dela! – Teve a morte
Porque o Norte
Porque o Norte a desfolhou!...
Novembro – 1858.
No Leito
LX
M***
Se eu morresse amanhã!
A. de Azevedo
I
Eu sofro; – o corpo padece
E minh’alma se estremece
Ouvindo o dobrar dum sino!
Quem sabe? – A vida fenece
Como a lâmpada no templo
Ou como a nota dum hino!
A febre me queima a fronte
E dos túmulos a aragem
Roçou-me a pálida face;
Mas no delírio e na febre
Sempre teu rosto contemplo,
E serena a tua imagem.
Vela à minha cabeceira,
Rodeada de poesia,
Tão bela como no dia
Em que vi-te a vez primeira!
Teu riso a febre me acalma;
– Ergue-se viva a minh’alma
Sorvendo a vida em teus lábios
Como o saibo dos licores,
E na voz, que é toda amores,
Como um bálsamo bendito,
Ouvindo-a, eu pobre palpito,
Sou feliz e esqueço as dores.
II
Se a morte colher-me em breve,
Pede ao vento que te leve
O meu suspiro final;
– Será queixoso e sentido,
Como da rola o gemido
Nas moitas do laranjal.
Quisera a vida mais longa
Se mais longa Deus m’a dera,
Porque é linda a primavera,
Porque é doce este arrebol,
Porque é linda a flor dos anos
Banhada da luz do sol!
Mas se Deus cortar-me os dias
No meio das melodias,
Dos sonhos da mocidade,
Minh’alma tranqüila e pura
À beira da sepultura
Sorrirá à eternidade.
Tenho pena... sou tão moço!
A vida tem tanto enlevo!
Oh! que saudades que levo
De tudo que eu tanto amei!
– Adeus oh! sonhos dourados,
Adeus oh! noites formosas,
Adeus futuro de rosas
Que nos meus sonhos criei!
Ao menos, nesse momento
Em que o letargo nos vem
Na hora do passamento,
No suspirar da agonia
Terei a fronte já fria
No colo de minha mãe!
* * *
III
Mas eu bendigo estas dores,
Mas eu abençôo o leito
Que tantas mágoas me dá,
Se me jurares, querida,
Que meu nome no teu peito
Morto embora – viverá!
– Que às vezes na cruz singela
Tu irás pálida e bela
Desfolhar uma saudade!
– Que de noite, ao teu piano,
Na voz que a paixão desata,
Chorarás a – Traviata
Que eu dantes amava tanto
Nas ânsias do meu amor!
– E que darás compassiva
Uma gota do teu pranto
À memória morta ou viva
Do teu pobre sonhador!
Bendita, bendita sejas,
Se nas notas benfazejas
Tua alma falar co’a minha
Nessa linguagem do céu
Que o pensamento adivinha!
Eu – o filho da poesia –
Dormirei no meu sepulcro,
Embalado em harmonia
Ao som do piano teu!
IV
Que tem a morte de feia?!
– Branca virgem dos amores,
Toucada de murchas flores,
Um longo sono nos traz;
E o triste que em dor anseia
– Talvez morto de cansaço –
Vai dormir no seu regaço
Como num claustro de paz!
Oh! virgem das sepulturas,
Teu beijo mata as venturas
Da terra, mas rasga o véu
Que a eternidade nos vela;
E nós – os filhos do erro –
Libertos deste desterro,
Vamos comtigo... donzela,
No branco leito de pedra,
Onde a miséria não medra,
Sonhar os sonhos do céu!...
Ha tantas rosas nas campas!
Tanta rama nos ciprestes!
Tanta dor nas brancas vestes!
Tanta doçura ao luar!
– Que ali o morto poeta
Nos seus íntimos segredos,
À sombra dos arvoredos
Pode viver a sonhar!
V
Assim, – se amanhã, se logo,
Sentires na face amada
Passar um sopro de fogo
Que te queime o coração,
E uma mão fria e gelada
Comprimir a tua mão
Frisando os cabelos teus;
– Não tenhas tu vãos temores,
Pois é minh’alma, querida,
Que ao desprender-se da vida
– Toda saudade e amores –
Vai dizer-te o extremo – adeus!...
Agosto – 1858.
Pois Não É?!
LXI
Ver cair o cedro anoso
Que campeava na serra,
Ver frio baixar à terra
O pobre velho bondoso
Que procurando repouso
Tropeçou na sepultura;
É triste, sim, é verdade,
Mas não tão grande a saudade
Nem a dor tão funda e dura,
Pois que ao velho e ao cedro altivo
Partido à voz da procela,
No mundo – jardim lascivo –
A vida foi longa e bela.
Mas ver a rosa do prado
Que a aurora deu cor e vida,
De manhã – flor do valado,
De tarde – rosa pendida!...
Mas ver a pobre mangueira
Na primavera primeira
Crescendo toda enfeitada
De folhas, perfume e flor,
Ouvindo o canto de amor
No sopro da viração;
Mas vê-la depois lascada
Em duas cair no chão!...
Mas ver o pobre mancebo
Em quem a seiva reluz,
No sonho cândido e puro
Nas glórias do seu futuro
Dourando a vida de luz
Mas vê-lo quando a sua alma
Ao som d’ignota harmonia
Se derramava em poesia;
Quando junto da donzela
– Cativo dos olhos dela –
Na voz que balbuciava
De amores falava a medo;
Quando o peito trasbordava
De crenças, de amor, de fé,
Vê-lo finar-se tão cedo,
Como as vozes dum segredo...
É dor demais – pois não é?!...
Indaiassú – 1857.
Na Estrada
LXII
Cena Contemporânea
Eu vi o pobre velho esfarrapado
– Cabeça branca – sentado pensativo
Dum carvalho ao pé;
Esmolava na pedra dum caminho,
Sem família, sem pão, sem lar, sem ninho,
E rico só de fé!
Era de tarde; ao toque do mosteiro
Seu lábio a murmurar rezava baixo,
– Ao lado o seu bordão;
E o sol, no raio extremo, lhe dourava
Sobre a fronte senil a dupla c’roa
De pobre e de ancião!
E o homem de metal vinha sorrindo
Contando ao companheiro os gordos lucros
Na usura de judeus;
O mendigo estendeu a mão mirrada,
E pediu-lhe na voz entrecortada:
– Uma esmola, por Deus!
O homem de metal embevecido
Em sonhos de milhões, por junto à pedra
Sem responder, passou!
O pobre recolheu a mão vazia...
O anjo tutelar velou seu rosto
Mas – Satanás folgou!
Rio – 1858.
No Jardim
LXIII
Cena Doméstica
Tête sacrée! enfant aux cheveux blonds!
V. Hugo
Ela estava sentada em meus joelhos
E brincava comigo – o anjo louro,
E passando as mãozinhas no meu rosto
Sacudia rindo os seus cabelos d’ouro.
E eu, fitando-a, abençoava a vida!
Feliz sorvia nesse olhar suave
Todo o perfume dessa flor da infância,
Ouvia alegre o gazear dessa ave!
Depois, a borboleta da campina
Toda azul – como os olhos grandes dela –
A doudejar gentil passou bem junto
E beijou-lhe da face a rosa bela.
– Oh! como é linda! disse o louro anjinho
No doce acento da virgínea fala –
Mamãe me ralha se eu ficar cansada
Mas – dizia a correr – hei de apanhá-la! –
Eu segui-a chamando-a, e ela rindo
Mais corria gentil por entre as flores,
E a – flor dos ares – abaixando o vôo
Mostrava as asas de brilhantes cores.
Iam, vinham, à roda das acácias,
Brincavam no rosal, nas violetas,
E eu de longe dizia: – Que doidinhas!
Meu Deus! meu Deus! são duas borboletas!...
Dezembro – 1858.
Risos
LXIV
Ri, criança, a vida é curta,
O sonho dura um instante.
Depois... o cipreste esguio
Mostra a cova ao viandante!
A vida é triste – quem nega?
– Nem vale a pena dizê-lo.
Deus a parte entre seus dedos
Qual um fio de cabelo!
Como o dia, a nossa vida
Na aurora é – toda venturas,
De tarde – doce tristeza,
De noite – sombras escuras!
A velhice tem gemidos,
– A dor das visões passadas –
A mocidade – queixumes,
Só a infância tem risadas!
* * *
Ri, criança, a vida é curta,
O sonho dura um instante.
Depois... o cipreste esguio
Mostra a cova ao viandante!
Rio – 1858.
Horas Tristes
I
Eu sinto que esta vida já me foge
Qual d’harpa o som final,
E não tenho, como o náufrago nas ondas
Nas trevas um fanal!
Eu sofro e esta dor que me atormenta
É um suplício atroz!
E p’ra contá-la falta à lira cordas
E aos lábios meus a voz!
Às vezes no silêncio da minh’alma,
Da noite na mudez,
Eu crio na cabeça mil fantasmas
Que aniquilo outra vez!
Dói-me inda a boca que queimei sedento
Nas esponjas de fel,
E agora sinto no bulhar da mente
A torre de Babel!
Sou triste como o pai que as belas filhas
Viu lânguidas morrer,
E já não pousam no meu rosto pálido
Os risos do prazer!
* * *
E contudo, meu Deus! eu sou bem moço,
Devera só me rir,
E ter fé e ter crença nos amores,
Na glória e no porvir!
Eu devera folgar nesta natura
De flores e de luz,
E, mancebo, voltar-me p’r’o futuro
Estrela que seduz!
Agora em vez dos hinos d’esperança,
Dos cantos juvenis,
Tenho a sátira pungente, o riso amargo,
O canto que maldiz!
Os outros, – os felizes deste mundo,
Deleitam-se em saraus;
Eu solitário sofro e odeio os homens,
P’ra mim são todos maus!
Eu olho e vejo... – a veiga é de esmeralda
O céu é todo azul.
Tudo canta e sorri... só na minh’alma
O lodo dum paul!
Mas se ela – a linda filha do meu sonho,
A pálida mulher
Das minhas fantasias, dos seus lábios
Um riso, um só me der;
Se a doce virgem pensativa e bela,
– A pudica vestal
Que eu criei numa noite de delírio
Ao som da saturnal;
Se ela vier enternecida e meiga
Sentar-se junto a mim;
Se eu ouvir sua voz mais doce e terna
Que um doce bandolim;
Se o seu lábio afagar a minha fronte
– Tão fervido vulcão!
E murmurar baixinho ao meu ouvido
As falas da paixão;
Se cair desmaiada nos meus braços
Morrendo em languidez,
De certo remoçado, alegre e louco
Sentira-me talvez!...
* * *
Talvez que eu encontrasse as alegrias
Dos tempos que lá vão,
E afogasse na luz da nova aurora
A dor do coração!
Talvez que nos meus lábios desmaiados
Brilhasse o seu sorrir,
E de novo, meu Deus, tivesse crença
Na glória e no porvir!
Talvez minh’alma ressurgisse bela
Aos raios desse sol,
E nas cordas da lira seus gorjeios
Trinasse um rouxinol!
Talvez então que eu me pegasse à vida
Com ânsia e com ardor,
E pudesse aspirando os seus perfumes
Viver do seu amor!
P’ra ela então seria a minha vida,
A glória, os sonhos meus;
E dissera chorando arrependido:
– Bendito seja Deus! –
Abril – 1858.
Dores
II
Há dores fundas, agonias lentas,
Dramas pungentes que ninguém consola,
Ou suspeita sequer!
Mágoas maiores do que a dor dum dia,
Do que a morte bebida em taça morna
De lábios de mulher!
Doces falas de amor que o vento espalha.
Juras sentidas de constância eterna
Quebradas ao nascer;
Perfídia e olvido de passados beijos...
São dores essas que o tempo cicatriza
Dos anos no volver.
Se a donzela infiel nos rasga as folhas
Do livro d’alma, magoado e triste
Suspira o coração;
Mas depois outros olhos nos cativam,
E loucos vamos em delírios novos
Arder noutra paixão.
Amor é ó rio claro das delícias
Que atravessa o deserto, a veiga, o prado,
E o mundo todo o tem!
Que importa ao viajor que a sede abrasa,
Que quer banhar-se nessas águas claras,
Ser aqui ou além?
A veia corre, a fonte não se estanca,
E as verdes margens não se crestam nunca
Na calma dos verões;
Ou quer na primavera, ou quer no inverno,
No doce anseio do bulir das ondas
Palpitam corações.
Não! a dor sem cura, a dor que mata,
É, moço ainda, aperceber na mente
A dúvida a sorrir!
É a perda dura dum futuro inteiro
E o desfolhar sentido das sentis coroas,
Dos sonhos do porvir!
É ver que nos arrancam uma a uma
Das asas do talento as penas de ouro,
Que voam para Deus!
É ver que nos apagam d’alma as crenças
E que profanam o que santo temos
Co’o riso dos ateus!
É assistir ao desabar tremendo,
Num mesmo dia, d’ilusões douradas,
Tão cândidas de fé!
É ver sem dó a vocação torcida
Por quem devera dar-lhe alento e vida
E respeitá-la até!
É viver, flor nascida nas montanhas,
Para aclimar-se, apertada numa estufa
À falta de ar e luz!
É viver, tendo n’alma o desalento,
Sem um queixume, a disfarçar as dores
Carregando a cruz!
Oh! ninguém sabe como a dor é funda,
Quanto pranto s’engole e quanta angústia,
A alma nos desfaz!
Horas há em que a voz quase blasfema...
E o suicídio nos acena ao longe
Nas longas saturnais!
Definha-se a existência a pouco e pouco,
E ao lábio descorado o riso franco
Qual d’antes, já não vem;
Um véu nos cobre de mortal tristeza,
E a alma em luto, despida dos encantos,
Amor nem sonhos tem!
Murcha-se o viço do verdor dos anos,
Dorme-se moço e despertamos velho,
Sem fogo para amar!
E a fronte jovem que o pesar sombreia
Vai, reclinada sobre um colo impuro,
Dormir no lupanar!
Ergue-se a taça do festim da orgia,
Gasta-se a vida em noites de luxúria
No leito dos bordéis,
E o veneno se sorve a longos tragos
Nos seios brancos e nos lábios frios
Das lânguidas Frinés!
Esquecimento! – mortalha para as dores –
Aqui na terra é a embriaguez do gozo,
A febre do prazer:
A dor se afoga no fervor dos vinhos,
E no regaço das Margôs modernas
É doce então morrer!
Depois o mundo diz: – Que libertino!
A folgar no delírio dos alcouces
As asas empanou! –
Como se ele, algoz das esperanças,
As crenças infantis e a vida d’alma
Não fosse quem matou!...
* * *
Oh! há dores tão fundas como o abismo,
Dramas pungentes que ninguém consola
Ou suspeita sequer!
Dores na sombra, sem carícias d’anjo,
Sem voz de amigo, sem palavras doces,
Sem beijos de mulher!...
Rio – 1858.
III
Pobre criança que te afliges tanto
Porque sou triste e se chorar me vês,
E que borrifas com teu doce pranto
Meus pobres hinos sem calor, talvez;
Deus te abençoe, querubim formoso,
Branca açucena que o paul brotou!
Teu pranto é gota de celeste gozo
Na úlcera funda que ninguém curou.
Pálido e mudo e do caminho em meio
Sentei-me à sombra sofredor e só!
Do choro a baga umedeceu-me o seio,
Da estrada a gente me cobriu de pó!
Meus tristes cantos comecei chorando,
Santas endechas, doloridos ais...
E a turba andava! Só de vez em quando
Lânguido rosto se volvia atrás!
E louca a turba que passou sorrindo
Julgava um hino o que eu chamava um ai!
Alguém murmura: – Como o canto é lindo! –
Sorri-se um pouco e caminhando vai!
Bendito sejas, querubim de amores,
Branca açucena que o paul brotou!
Teu pranto é gota que mitiga as dores
Da úlcera funda que ninguém curou!
Há na minh’alma alguma cousa vago,
Desejos, ânsias, que explicar não sei:
Talvez – desejos – dalgum lindo lago,
– Ânsias– dum mundo com que já sonhei!...
E eu sofro, oh anjo; na cruel vigília
O pensamento inda redobra a dor,
E passa linda do meu sonho a filha
Soltas as tranças a morrer de amor!
E louco a sigo por desertos mares,
Por doces veigas, por um céu de azul;
Pouso com dia nos gentis palmares
À beira d’água, nos vergéis do sul!...
E a virgem foge... e a visão se perde
Por outros climas, noutro céu de luz;
E eu – desperto do meu sonho verde –
Acordo e choro carregando a cruz!
Pobre poeta! na manhã da vida
Nem flores tenho, nem prazer também!
– Roto mendigo que não tem guarida –
Tímido espreito quando a noite vem!
Bendito sejas, querubim de amores,
Branca açucena que o paul brotou!
Teu doce pranto me acalenta as dores
Da úlcera funda que ninguém curou!
* * *
A minha vida era areal despido
De relva e flor e na estação louçã!
Tu foste o lírio que nasceu, querido,
Entre a neblina de gentil manhã.
Em ondas mortas meu batel dormia,
Chorava o pano a viração sutil,
Mas veio o vento no correr do dia
E, leve, o bote resvalou no anil.
Eu era a flor do escalavrado galho
Que a tempestade no passar quebrou;
Tu foste a gota de bendito orvalho
E a flor pendida a reviver tornou.
Teu rosto puro restitui-me a calma,
Ergue-me as crenças, que já vejo em pé;
E teus olhares me derramam n’alma
Doces consolos e orações de fé.
Não serei triste; se te ouvir a fala
Tremo e palpito como treme o mar,
E a nota doce que teu lábio exala
Virá sentida ao coração parar.
Suspenso e mudo no mais casto enlevo
Direi meus hinos c’os suspiros teus,
E a ti, meu anjo, a quem a vida devo
Hei de adorar-te como adoro a Deus!
... – 1858.
Fragmento
IV
* * *
O mundo é uma mentira, a glória – fumo,
A morte – um beijo, e esta vida um sonho
Pesado ou doce, que s’esvai na campa!
O homem nasce, cresce, alegre e crente
Entra no mundo c’o sorrir nos lábios,
Traz os perfumes que lhe dera o berço,
Veste-se belo d’ilusões douradas,
Canta, suspira, crê, sente esperanças,
E um dia o vendaval do desengano
Varre-lhe as flores do jardim da vida
E nu das vestes que lhe dera o berço
Treme de frio ao vento do infortúnio!
Depois – louco sublime – ele se engana,
Tenta enganar-se p’ra curar as mágoas,
Cria fantasmas na cabeça em fogo,
De novo atira o seu batel nas ondas,
Trabalha, luta e se afadiga embalde
Até que a morte lhe desmancha os sonhos.
Pobre insensato – quer achar por força
Pérola fina em lodaçal imundo!
– Menino louro que se cansa e mata
Atrás da borboleta que travessa
Nas moitas do mangal voa e se perde!...
* * *
* * *
Dezembro – 1858.
Anjo!
V
M.
Sub umbra alarum tuarum.
Eu era a flor desfolhada
Dos vendavais ao correr;
Tu foste a gota dourada
E o lírio pôde viver.
Poeta, dormia pálido
No meu sepulcro, bem só;
Tu disseste – Ergue-te Lázaro! –
E o morto surgiu do pó!
Eu era sombrio e triste...
Contente minh’alma é;
Eu duvidava... sorriste,
Já no amar tenho fé.
A fronte que ardia em brasas
A seus delírios pôs fim
Sentindo o roçar das asas,
O sopro dum querubim.
Um anjo veio e deu vida
Ao peito de amores nu:
Minh’alma agora remida
Adora o anjo – que és tu!
Julho – 1858.
Última Folha
VI
Meu Deus! Meu Pai! Se o filho da desgraça
Tem jus um dia ao galardão remoto,
Ouve estas preces e me cumpre o voto
– A mim que bebo do absinto a taça!
– “Feliz serás se como eu sofreres,
“Dar-te-ei o céu em recompensa ao pranto” –
Vós o disseste – E eu padeço tanto!...
Que novos transes preparar me queres?
Tudo me roubam meus cruéis tiranos:
Amor, família, felicidade, tudo!...
Palmas da glória, meus lauréis do estudo,
Fogo do gênio, aspiração dos anos!...
Mas o teu filho já se não rebela
Por tal castigo, pelas mágoas duras;
– Minh’alma of’reço às provações futuras...
Venha o martírio... mas – perdão p’ra ela!...
A doce virgem se assemelha às flores...
O vento a quebra no seu verde ninho.
– Velai ao menos pelo pobre anjinho,
– Pagai-lhe em gozo o que me dais em dores!
Maio – 6.
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