Discurso do Método · René Descartes
Parte 4
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Contudo, não desejava inferir, de todas essas coisas, que este mundo houvesse sido criado da forma como propunha; pois é muito mais provável que, desde o início, Deus o tenha tomado tal como devia ser. Mas é certo, e é uma opinião geralmente adotada pelos teólogos, que a ação mediante a qual ele agora o conserva é exatamente igual àquela mediante a qual o criou: de forma que, apesar de não lhe haver dado, no início, outra forma a não ser a do caos, desde quando, tendo instituído as leis da natureza, tenha lhe prestado seu concurso, para ela agir assim como costuma, pode-se crer, sem nenhum prejuízo para o milagre da criação, que apenas por isso todas as coisas que são genuinamente materiais poderiam, ao longo do tempo, converter-se em tais como as vemos atualmente. E sua natureza é muito mais fácil de ser compreendida quando as vemos nascer pouco a pouco desta forma do que quando já as consideramos totalmente concluídas.
Da descrição dos corpos inanimados e das plantas, passei à dos animais e especificamente à dos homens. Porém, como ainda não possuía suficiente conhecimento para falar a respeito deles no mesmo estilo que do resto, ou seja, demonstrando os efeitos a partir das causas, e mostrando de quais sementes e de que modo a natureza deve produzi-los, satisfiz-me em imaginar que Deus formasse o corpo de um homem inteiramente semelhante a um dos nossos, tanto no aspecto exterior de seus membros como na conformação interior de seus órgãos, sem compô-lo de outra matéria exceto aquela que eu descrevera, e sem colocar nele, no início, alma racional alguma, nem qualquer outra coisa para servir-lhe de alma vegetativa ou sensitiva, mas sim avivasse em seu coração um desses fogos sem luz que eu já explicara, e que não concebia outra natureza a não ser a que aquece o feno quando o guardam antes de estar seco, ou a que faz ferver os vinhos novos quando fermentam sobre o bagaço. Pois, examinando as funções que, por causa disso, podiam se encontrar neste corpo, achava exatamente todas as que podem estar em nós sem que o pensemos, nem, como conseqüência que a nossa alma, isto é, essa parte distinta do corpo cuja função, como já foi dito mais acima, é apenas a de pensar, para tal contribua, e que são todas as mesmas, o que consente dizer que os animais sem razão se nos assemelham, sem que eu possa encontrar para isso nenhuma daquelas razões que, por dependerem do pensamento, são as únicas que nos pertencem enquanto homens, enquanto encontrava a todas em seguida, ao presumir que Deus criara uma alma racional e que a juntara a esse corpo de uma certa maneira que descrevia.
Porém, para que se possa ver de que modo eu lidava com esta matéria, quero mostrar aqui a explicação do movimento do coração e das artérias, o qual, sendo o primeiro e o mais geral que se observa nos animais, consentirá julgar com facilidade, a partir dele, o que se deve pensar de todos os outros. E, para que seja mais fácil entender o que vou dizer a esse respeito, desejaria que todos os que não são peritos em anatomia se dessem ao trabalho, antes de ler isto, de mandar cortar diante deles o coração de um grande animal que possua pulmões, já que é em tudo parecido com o do homem, e que peçam para ver as duas câmaras ou concavidades nele existentes. Primeiramente, a que está no lado direito, na qual se ligam dois tubos muito largos: a veia cava, que é o principal receptáculo do sangue, como o tronco da árvore da qual todas as outras veias do corpo são ramos; e a veia arteriosa, que foi assim indevidamente denominada, pois em verdade se trata de uma artéria, a qual, originando-se do coração, se divide, após sair dele, em muitos ramos que vão espalhar-se nos pulmões. Depois, a que se encontra no lado esquerdo, na qual se ligam, de igual maneira, dois tubos que são tanto ou mais largos que os ante-flores: a artéria venosa, que também foi indevidamente denominada, porque se trata de uma veia que provém dos pulmões, onde se reparte em vários ramos, entrançados com os da veia arteriosa e com os desse conduto que se chama gasnete, por onde entra o ar da respiração; e a grande artéria, que, saindo do coração, espalha seus ramos por todo o corpo. Apreciaria também que lhes mostrassem cuidadosamente as onze diminutas peles que, como outras tantas diminutas portas, abrem e fecham as quatro aberturas que existem nessas duas concavidades três à entrada da veia cava, onde estão dispostas de tal maneira que não podem de forma alguma impedir que o sangue nela contido corra para a concavidade direita do coração, e no entanto impedem que possa dali sair; três à entrada da veia arteriosa, que, estando dispostas bem ao contrário, permitem de fato ao sangue que se encontra nessa concavidade fluir para os pulmões, mas não ao que se encontra nos pulmões voltar para lá; e também duas outras a entrada da artéria venosa, que deixam passar o sangue dos pulmões para a concavidade esquerda do coração, mas obstam seu retorno; e três à entrada da grande artéria, que lhe permitem sair do coração, porém impedem seu retorno. E não é preciso procurar outra razão para o numero dessas peles, exceto a de que a abertura da artéria venosa, por ser oval em virtude do local onde se encontra, pode ser comodamente fechada com duas, enquanto, por serem as outras redondas, três podem melhor fechá-las. Além disso, desejaria que considerassem que a grande artéria e a veia arteriosa são de uma composição muito mais rija e mais firme do que a artéria venosa e a veia cava, e que as duas últimas se dilatam antes de penetrar no coração, formando aí como duas bolsas, denominadas orelhas do coração, que se compõem de uma carne parecida com a deste; e que existe sempre mais calor no coração do que em qualquer outro local do corpo, e, enfim, que este calor é capaz de fazer com que, se uma gota de sangue entrar em suas concavidades, ela inche prontamente e se dilate, como geralmente se comportam todos os líquidos quando os deixamos cair gota a gota dentro de algum vaso que esteja bem quente.
Depois disso, nada mais necessito dizer para explicar o movimento do coração, exceto que, quando as suas concavidades não estão repletas de sangue, este flui necessariamente da veia cava para a concavidade direita, e da artéria venosa para a esquerda; já que esses dois vasos se encontram sempre cheios, e que suas aberturas, voltadas para o coração, não podem então ser fechadas; mas, tão logo tenham entrado duas gotas de sangue, uma em cada concavidade, estas gotas, que são bastante grossas, porque as aberturas por onde penetram são muito largas, e os vasos de onde provêm bem cheios de sangue, diluem-se e dilatam-se devido ao calor que aí encontram; dessa maneira, fazendo inflar o coração todo, empurram e fecham as cinco pequenas portas que ficam à entrada dos dois vasos de onde provêm, impedindo, assim, que chegue mais sangue ao coração; e, continuando a diluir-se cada vez mais, empurram e abrem as seis outras pequenas portas situadas à entrada dos dois outros vasos por onde saem, fazendo inflar dessa forma todos os ramos da veia arteriosa e da grande artéria, quase no mesmo instante que o coração, o qual, imediatamente, desincha, como ocorre também com essas artérias, por se resfriar o sangue que nelas entrou; e suas seis pequenas portas se fecham e as cinco da veia cava e da artéria venosa reabrem-se, dando passagem a duas outras gotas de sangue, que vão de novo inflar o coração e as artérias, da mesma maneira que as precedentes. E como o sangue, que penetra assim no coração, passa por essas duas bolsas que são denominadas suas orelhas, resulta que o movimento dessas é contrário ao seu, e que elas desincham quando ele infla. De resto, para que aqueles que não conhecem a força das demonstrações matemáticas, e não estão habituados a discernir as razões verdadeiras e as prováveis, não se arrisquem a negar tal fato sem uma análise, quero chamar-lhes a atenção para o fato de que esse movimento que acabo de descrever decorre necessariamente da simples disposição dos órgãos que se podem divisar a olho nu no coração, e do calor que se pode sentir com os dedos, e da natureza do sangue que se pode conhecer por experiência, como o movimento de um relógio decorre da força, da posição e da forma de seus contrapesos e rodas.
Porém, se me for perguntado por que o sangue das veias não se esgota, fluindo continuamente para o coração, e por que as artérias não se enchem demais, já que tudo quanto passa pelo coração para elas se dirige, não preciso responder nada mais do que já foi escrito por um médico da Inglaterra, a quem é preciso dar o louvor de ter rompido o gelo neste ponto, e de ser o primeiro a ter ensinado a existência de muitas pequenas passagens nas extremidades das artérias, por onde o sangue que elas recebem do coração penetra nos diminutos ramos das veias, de onde ele torna a dirigir-se para o coração, de maneira que o seu curso é uma circulação perpétua. E isso ele prova muito bem pela experiência comum dos cirurgiões, que, amarrando o braço, sem apertá-lo muito, acima do local onde abrem a veia, fazem com que o sangue saia dela com mais abundância do que se não o tivessem amarrado. E aconteceria exatamente o contrário se eles o amarrassem mais abaixo, entre a mão e a abertura, ou então se o amarrassem com muita força em cima. Pois é evidente que o laço medianamente apertado, embora impedindo que o sangue, que já se encontra no braço, retorne ao coração pelas veias, não impede que para aí sempre aflua novo sangue pelas artérias, porque estas se situam por baixo das veias, e porque suas peles, sendo mais rijas, são mais difíceis de pressionar, e também porque o sangue proveniente do coração tende com mais força a passar por elas em direção à mão do que a voltar daí para o coração pelas veias. E, como esse sangue sai do braço pela abertura que há numa das veias, devem necessariamente existir algumas passagens abaixo do laço, ou seja, na direção das extremidades do braço, por onde possa vir das artérias. Além disso, ele prova bastante bem o que afirma a respeito do fluxo do sangue por certas pequenas peles, as quais se encontram de tal maneira dispostas em diversos pontos ao longo das veias, que não lhe permitem passar do meio do corpo para as extremidades, mas somente retornar das extremidades para o coração, e, ademais, pela experiência que mostra que todo o sangue que há no corpo pode dele sair em muito pouco tempo por uma única artéria, quando secionada, até mesmo se ela fosse fortemente amarrada muito próxima do coração, e secionada entre ele e a ligadura, de maneira que não houvesse motivo de imaginar que o sangue que daí saísse procedesse de outro lugar.
Mas existem numerosas outras coisas que comprovam que a verdadeira causa desse movimento do sangue é a que eu apresentei. Assim, em primeiro lugar, a diferença que se percebe entre o sangue que sai das veias e o que sai das artérias só pode se originar do fato de que, havendo-se diluído e como destilado ao passar pelo coração, é mais fino, mais vivo e mais quente logo após sair dele, ou seja, quando corre nas artérias, do que o é um pouco antes de nele penetrar, isto é, quando corre nas veias. E, se se prestar atenção, verifica-se que tal diferença só aparece realmente na direção do coração e de forma alguma nos lugares que dele são mais distantes. Depois, a rigidez das peles, de que a veia arteriosa e a grande artéria se compõem, mostra satisfatoriamente que o sangue bate contra elas com mais força do que contra as veias. E por que seriam a concavidade esquerda do coração e a grande artéria maiores e mais largas do que a concavidade direita e a veia arteriosa, se não fosse porque o sangue da artéria venosa, tendo estado apenas nos pulmões depois de passar pelo coração, é mais fino e se dilui mais facilmente do que aquele que procede imediatamente da veia cava? E o que podem os médicos descobrir, ao tatear o pulso, se não sabem que, conforme o sangue muda de natureza, pode ser diluído pelo calor do coração mais ou menos forte e mais ou menos rápido do que antes? E, se se examina de que maneira esse calor se transfere aos outros membros, não convém confessar que é por meio do sangue que, ao passar pelo coração, nele se aquece e daí se espalha por todo o corpo? Daí decorre que, se se retira o sangue de alguma parte, retira-se-lhe da mesma forma o calor; e, mesmo que o coração fosse tão ardente quanto um ferro em brasa, não bastaria, como não basta, para aquecer os pés e as mãos, se não lhes enviasse ininterruptamente novo sangue. Depois, também se sabe daí que a real utilidade da respiração é levar bastante ar fresco aos pulmões, a fim de fazer com que o sangue, que para aí se dirige vindo da concavidade direita do coração, onde foi diluído e como transmudado em vapores, se adense e se transforme novamente, antes de recair na concavidade esquerda, sem o que não seria apropriado para servir de alimento ao fogo aí existente. O que está de acordo, porquanto os animais que não possuem pulmões não são providos de mais do que uma concavidade no coração, e as crianças, que não podem utilizá-los por se encontrarem fechadas no ventre de suas mães, apresentam uma abertura por onde corre o sangue da veia cava em direção à concavidade esquerda do coração e um conduto por onde ele provém da veia arteriosa para a grande artéria, sem passar pelos pulmões. Depois a digestão: como ela se processaria no estômago se o coração não lhe enviasse calor pelas artérias, e, com esse, alguns dos elementos mais fluidos do sangue, que ajudam a dissolver os alimentos que foram para ali levados? E a ação que transformou o suco desses alimentos em sangue, não será ela fácil de conhecer, se se considera que este se destila, passando e repassando pelo coração, talvez mais de cem ou duzentas vezes por dia? E de que mais se precisa para explicar a nutrição e a produção dos vários humores que há no corpo, salvo afirmar que a força com que o sangue, ao rarefazer-se, passa do coração para as extremidades das artérias leva alguns de seus elementos a se deterem entre os dos membros onde se encontram e a tomarem aí o lugar de alguns outros que elas expulsam; e que, de acordo com a situação, ou com a configuração, ou com a pequenez dos poros que encontram, alguns vão ter a certos lugares mais do que outros, de igual maneira como cada um pode ter visto várias peneiras que, sendo diferentemente perfuradas, servem para separar diversos grãos uns dos outros? E, por fim, o que existe de mais extraordinário em tudo isso é a geração dos espíritos animais, que são como um vento muito sutil, ou melhor, como uma chama muito pura e muito viva que, subindo ininterruptamente em grande quantidade do coração ao cérebro, dirige-se a partir daí, pelos nervos, para os músculos, e imprime movimento a todos os membros; sem que seja necessário imaginar outra causa que Leve os elementos do sangue que, por serem os mais agitados e penetrantes, são os mais adequados para compor tais espíritos, a se dirigirem mais ao cérebro do que a outras partes; mas apenas que as artérias, que os transportam para aí, são aquelas que provêm do coração em Linha mais reta de todas, e que, de acordo com as leis da mecânica, que são as mesmas da natureza, quando várias coisas tendem a mover-se em conjunto para um mesmo lado, onde não existe espaço suficiente para todas, tal qual os elementos do sangue que saem da concavidade esquerda do coração tendem para o cérebro, os mais débeis e menos agitados devem ser desviados pelos mais fortes, que por esse meio aí chegam sozinhos.
Eu explanara muito particularmente todas essas coisas no tratado que pretendi publicar em tempos passados. E, em seguida, expusera nele qual deve ser a estrutura dos nervos e dos músculos do corpo humano, para fazer com que os espíritos animais que se encontram dentro deles tenham a força de mover seus membros: assim como se vê que as cabeças, pouco depois de decepadas, ainda se movem e mordem a terra, apesar de não serem mais animadas; quais transformações se devem efetuar no cérebro para produzir a vigília, o sono e os sonhos; como a luz, os sons, os odores, os sabores, o calor e todas as outras qualidades dos objetos exteriores nele podem imprimir variadas idéias por intermédio dos sentidos; como a fome, a sede e as outras paixões interiores também podem lhe transmitir as suas; o que deve ser nele tomado pelo senso comum, onde essas idéias são aceitas; pela memória, que as conserva, e pela fantasia, que as pode modificar diferentemente e formar com elas outras novas, e pelo mesmo meio, distribuindo os espíritos animais nos músculos, movimentar os membros desse corpo de tão diferentes maneiras, quer a respeito dos objetos que se apresentam a seus sentidos, quer das paixões interiores que se encontram nele, que os ossos se possam movimentar sem que a vontade os conduza. O que não parecerá de maneira alguma estranho a quem, sabendo quão diversos autômatos, ou máquinas móveis, a indústria dos homens pode produzir, sem aplicar nisso senão pouquíssimas peças, em comparação à grande quantidade de ossos, músculos, nervos, artérias, veias e todas as outras partes existentes no corpo de cada animal, considerará esse corpo uma máquina que, tendo sido feita pelas mãos de Deus, é incomparavelmente mais bem organizada e capaz de movimentos mais admiráveis do que qualquer uma das que possam ser criadas pelos homens.
E me demorara especificamente neste ponto, para mostrar que, se existissem máquinas assim, que fossem providas de órgãos e do aspecto de um macaco, ou de qualquer outro animal irracional, não teríamos meio algum para reconhecer que elas não seriam em tudo da mesma natureza que esses animais; contudo, se existissem outras que se assemelhassem com os nossos corpos e imitassem tanto nossas ações quanto moralmente fosse possível, teríamos sempre dois meios bastante seguros para constatar que nem por isso seriam verdadeiros homens. Desses meios, o primeiro é que jamais poderiam utilizar palavras, nem outros sinais, arranjando-os, como fazemos para manifestar aos outros os nossos pensamentos. Pois pode-se muito bem imaginar que uma máquina seja feita de tal modo que articule palavras, e até que articule algumas a respeito das ações corporais que causem alguma mudança em seus órgãos: por exemplo, se a tocam num ponto, que indague o que se pretende dizer-lhe; se em outro, que grite que lhe causam mal, e coisas análogas; mas não que ela as arrume diferentemente, para responder ao sentido de tudo quanto se disser na sua presença, assim como podem fazer os homens mais embrutecidos. E o segundo meio é que, ainda que fizessem muitas coisas tão bem, ou talvez melhor do que qualquer um de nós, falhariam inevitavelmente em algumas outras, pelas quais se descobriria que não agem pelo conhecimento, mas apenas pela distribuição ordenada de seus órgãos. Pois, enquanto a razão é um instrumento universal, que serve em todas as ocasiões, tais órgãos precisam de alguma disposição específica para cada ação específica; daí decorre que é moralmente impossível que numa máquina haja muitas e diferentes para fazê-la agir em todas as ocasiões da vida, da mesma maneira que a nossa razão nos faz agir.
Note-se que, por esses dois meios, pode-se também conhecer a diferença que há entre os homens e os animais. Já que é algo extraordinário que não existam homens tão embrutecidos e tão estúpidos, sem nem mesmo a exceção dos loucos, que não tenham a capacidade de ordenar diversas palavras, arranjando-as num discurso mediante o qual consigam fazer entender seus pensamentos; e que, ao contrário, não haja outro animal, por mais perfeito que possa ser, capaz de fazer o mesmo. E isso não ocorre porque lhes faltem órgãos, pois sabemos que as pegas e os papagaios podem articular palavras assim como nós, no entanto não conseguem falar como nós, ou seja, demonstrando que pensam o que dizem; enquanto os homens que, havendo nascido surdos e mudos, são desprovidos dos órgãos que servem aos outros para falar, tanto ou mais que os animais, costumam criar eles mesmos alguns sinais, mediante os quais se fazem entender por quem, convivendo com eles, disponha de tempo para aprender a sua língua. E isso não prova somente que os animais possuem menos razão do que os homens, mas que não possuem nenhuma razão. Pois vemos que é necessário bem pouco para saber falar; e, se bem que se percebe desigualdade entre os animais de uma mesma espécie, assim como entre os homens, e que uns são mais fáceis de adestrar que outros, não é acreditável que um macaco ou um papagaio, que fossem os mais perfeitos de sua espécie, não igualassem nisso uma criança das mais estúpidas ou pelo menos uma criança com o cérebro confuso, se a sua alma não fosse de uma natureza totalmente diferente da nossa. E não se devem confundir as palavras com os movimentos naturais, que testemunham as paixões e podem ser imitados pelas máquinas e também pelos animais; nem pensar, como alguns antigos, que os animais falam, embora não entendamos sua linguagem: pois, se fosse verdade, visto que possuem muitos órgãos correlatos aos nossos, poderiam fazer-se compreender tanto por nós como por seus semelhantes. E também coisa digna de nota que, apesar de haver muitos animais que demonstram mais habilidade do que nós em algumas de suas ações, percebe-se, contudo, que não a demonstram nem um pouco em muitas outras: de forma que aquilo que fazem melhor do que nós não prova que possuam alma; pois, por esse critério, tê-la-iam mais do que qualquer um de nós e agiriam melhor em tudo; mas, ao contrário, que não a possuem, e que é a natureza que atua neles conforme a disposição de seus órgãos: assim como um relógio, que é feito apenas de rodas e molas, pode contar as horas e medir o tempo com maior precisão do que nós, com toda a nossa sensatez.
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