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Discurso do Método · René Descartes

Parte 6

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A verdade é que, no que diz respeito às experiências que podem servir para isso, um único homem não poderia ser suficiente para realizá-las todas; mas não poderia também utilizar com proveito outras mãos que não as suas, salvo as dos artesãos ou pessoas tais a quem pudesse pagar, e a quem o vislumbre do dinheiro, que é um meio muito eficiente, faria executar exatamente todas as coisas que ele lhes determinasse. Pois, no que diz respeito aos voluntários, que, por curiosidade ou vontade de aprender, pudesse se oferecer para o ajudar, além de geralmente apresentarem mais promessas do que resultados e de fazerem apenas belas propostas das quais nenhuma nunca obtém sucesso, desejariam inevitavelmente ser pagos pela explicação de algumas dificuldades, ou ao menos por cumprimentos e conversas estéreis, que lhe custariam sempre algum tempo, por pouco que fosse. E, a respeito das experiências já realizadas pelos outros, ainda que desejassem lhes comunicar o que aqueles que as chamam de segredos jamais o fariam, são, na maioria, compostas de tantas circunstâncias, ou ingredientes supérfluos, que lhe seria muito difícil decifrar-lhes a verdade; além de que as encontraria quase todas tão mal explicadas, ou mesmo tão errôneas, pois aqueles que as realizaram esforçaram-se por torná-las conformes com seus princípios que, se existissem algumas que lhe servissem, não poderiam valer outra vez o tempo que teria de gastar a fim de escolhê-las. De maneira que, se houvesse no mundo alguém de quem se soubesse que seria com certeza capaz de encontrar as maiores coisas e as mais úteis possíveis para o público, e a quem, por esse motivo, os demais homens se esforçassem, por todos os meios, em ajudar na realização de seus intentos, não vejo que pudessem fazer mais por ele além de financiar as despesas nas experiências de que precisasse e, de resto, impedir que seu tempo lhe fosse tomado por pessoas inoportunas. Mas, além de que não imagino tanto de mim mesmo, que queira prometer algo de extraordinário, nem me alimente de ilusões como imaginar que o público se deva interessar muito pelos meus projetos, não tenho também a alma tão baixa que vá aceitar de quem quer que seja qualquer favor que possam julgar que eu não mereça.

Todas essas considerações juntas foram motivo, há três anos, de que eu me recusasse a divulgar o tratado que tinha em mãos, e mesmo que decidisse não elaborar outro qualquer, ao longo de minha existência, que fosse tão geral, nem do qual fosse possível conhecer os fundamentos da minha física. Mas em seguida houve novamente duas outras razões, que me obrigaram a apresentar aqui alguns ensaios particulares, e a prestar ao público alguma conta de minhas ações e de meus intentos. A primeira é que, se não o fizesse, muitos, que haviam sabido do projeto que eu alimentava anteriormente de mandar imprimir alguns escritos, poderiam imaginar que as causas pelas quais me abstivera disso fossem mais inconvenientes para mim do que na realidade o são. Pois, apesar de não apreciar a glória em excesso, ou mesmo, se me atrevo a dizê-lo, a odeie, na medida em que a julgo contrária ao repouso, que estimo acima de todas as coisas, contudo jamais procurei esconder minhas ações como se fossem criminosas, nem usei muitas precauções para ficar desconhecido; tanto por acreditar que isso me faria mal, como por saber que me provocaria uma espécie de inquietação, que seria mais uma vez contrária à perfeita paz de espírito que procuro. E sendo que, por haver-me sempre mantido assim indiferente entre o cuidado de ser conhecido e o de não sê-lo, não pude evitar de adquirir certa reputação, julgando que devia fazer o máximo para me livrar ao menos de tê-la má. A outra razão que me obrigou a escrever este livro é que, vendo todos os dias mais e mais o atraso que sofre meu propósito de me instruir, por causa de um sem-número de experiências de que preciso realizar, o que me e impossível sem o auxilio de outra pessoa, embora não me lisonjeie tanto a ponto de esperar que o público tome grande parte em meus interesses, não quero faltar tanto a mim próprio que dê motivo aos que me sobreviverão para me censurar um dia de que eu poderia ter-lhes legado muitas coisas bem melhores do que as que leguei, se não me tivesse descuidado tanto em fazê-los compreender em que poderiam contribuir para os meus projetos.

E acreditei que me seria fácil escolher algumas matérias que, sem estarem expostas a muitas controvérsias, nem me obrigarem a expor mais do que desejo a respeito dos meus princípios, não deixariam de mostrar com bastante clareza o que posso ou não posso nas ciências. E quanto a isso eu não poderia dizer se fui bem-sucedido e não quero predispor os juízos de ninguém, falando eu próprio sobre meus escritos; mas apreciaria muito que fossem analisados e, para que haja tanto mais ocasião, suplico a todos aqueles que tiverem quaisquer objeções a fazer-lhes que se dêem ao trabalho de enviá-las ao meu editor, para que, sendo advertido, procure acrescentar-lhes ao mesmo tempo a minha resposta; e por esse meio, os leitores, vendo em conjunto uma e outra, julgarão tanto mais facilmente a verdade. Pois prometo jamais lhes dar respostas longas, mas apenas confessar meus equívocos de maneira franca, se os admitir, ou então, caso não consiga percebê-los, dizer simplesmente o que julgar necessário para a defesa das coisas que escrevi, sem acrescentar a explicação de qualquer nova matéria, a fim de não me enredar inapelavelmente entre uma e outra.

Se algumas daquelas explicações que apresentei, no começo de Dióptrica e de Meteoros, chocam de início por eu as denominar suposições, e por parecer que não pretendo prová-las, que se tenha a paciência de ler o todo com atenção, e espero que todos ficarão satisfeitos. Pois me parece que nelas as razões se seguem de tal modo que, como as últimas são demonstradas pelas primeiras, que são as suas causas, essas primeiras o são reciprocamente pelas últimas, que são seus efeitos. E não se deve imaginar que cometo com isso o erro que os lógicos chamam de círculo; pois, como a experiência torna a maioria desses efeitos muito correta, as causas das quais os deduzo não servem tanto para prová-los ou explicá-los, mas, ao contrário, são elas que são provadas por eles. E não as chamei suposições só para que se saiba que penso poder deduzi-las dessas primeiras verdades que expliquei mais acima, mas que deliberadamente não o quis fazer para impedir que certos espíritos, que imaginam aprender num dia tudo o que um outro pensou durante vinte anos, tão logo ele lhes diz duas ou três palavras a respeito, e que são tanto mais sujeitos a falhar e menos capazes da verdade quanto mais penetrantes e vivos são, não pudessem aproveitar a oportunidade para constituir alguma filosofia extravagante sobre o que acreditariam ser os meus princípios, e que depois me atribuíssem a culpa disso. Pois, a respeito das opiniões que são totalmente minhas, não as desculpo de serem novas, tanto mais que, se se considerarem bem as suas razões, tenho certeza de que serão julgadas tão simples e tão de acordo com o senso comum que parecerão menos extraordinárias e menos estranhas do que quaisquer outras que se possa ter acerca dos mesmos assuntos. E não me envaideço também de ser o primeiro criador de qualquer uma delas, mas antes de não as ter jamais aceito, nem pelo fato de terem sido proferidas por outrem, nem pelo que possam ter sido, mas unicamente porque a razão fez com que eu as aceitasse.

Se os artesãos não puderem tão cedo executar a invenção que é explicada em Dióptrica, não acredito que por causa disso se possa afirmar que ela é má: pois, sendo que é necessário habilidade e experiência para construir e ajustar as máquinas que descrevi, sem que nelas falte componente algum, admirar-me-ia mais se eles conseguissem na primeira tentativa, da mesma forma se alguém conseguisse aprender, num dia, a tocar o alaúde excelentemente apenas porque lhe foi fornecida uma boa tablatura. E se escrevo em francês, que é o idioma de meu país, e não em latim, que é o de meus mestres, é porque espero que aqueles que se servem somente de sua razão natural totalmente pura julgarão melhor minhas opiniões do que aqueles que só acreditam nos livros antigos. E quanto aos que unem o bom senso ao estudo, os únicos que desejo para meus juizes, tenho certeza de que não serão de maneira alguma tão parciais em favor do latim que recusem ouvir minhas razões porque as explico em língua vulgar.

Ademais, não pretendo falar aqui a respeito dos progressos que no futuro espero fazer nas ciências, nem me comprometer em relação ao público com qualquer promessa que eu não esteja seguro de cumprir: mas direi unicamente que decidi não empregar o tempo de vida que me resta em outra coisa que não seja tentar adquirir algum conhecimento da natureza, que seja de tal ordem que dele se possam extrair normas para a medicina, mais seguras do que as adotadas até agora; e que minha tendência me afasta tanto de qualquer tipo de outras intenções, especialmente das que não poderiam ser úteis a uns sem prejudicar a outros, que, se algumas circunstâncias me obrigassem a dedicar-me a eles, não acredito que fosse capaz de obter êxito. Faço, então, aqui uma declaração que, tenho plena consciência, não poderá servir para me tornar famoso no mundo, mas tampouco tenho o menor desejo de sê-lo; e ficarei sempre mais agradecido àqueles em virtude dos quais desfrutarei sem estorvo do meu tempo, do que o seria aos que me oferecessem os mais dignificantes empregos do mundo.

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